CARÁTER E CONSEQÜÊNCIAS RELIGIOSAS DAS MANIFESTAÇÕES
DOSESPÍRITOS
1. As almas ou Espíritos dos que aqui viveram constituem o
mundo invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. Daí resulta que,
desde que há homens, há Espíritos e que, se estes últimos têm o poder de
manifestar-se, devem tê-lo tido em todas as épocas. É o que comprovam a história
e as religiões de todos os povos. Entretanto, nestes últimos tempos, as manifestações
dos Espíritos assumiram grande desenvolvimento e tomaram um caráter mais acentuado
de autenticidade, porque estava nos desígnios da Providência pôr termo à praga
da incredulidade e do materialismo, por meio de provas evidentes, permitindo
que os que deixaram a Terra viessem atestar sua existência e revelar-nos a
situação ditosa ou infeliz em que se encontravam.
2. Vivendo o mundo visível em meio do mundo invisível, com o
qual se acha em contato perpétuo, segue-se que eles reagem incessantemente um
sobre o outro, reação que constitui a origem de uma imensidade de fenômenos, que
foram considerados sobrenaturais, por se não lhes conhecer a causa.
A ação do mundo invisível sobre o mundo visível e reciprocamente
é uma das leis, uma das forças da Natureza, tão necessária à harmonia
universal, quanto a lei de atração. Se ela cessasse, a harmonia estaria
perturbada, conforme sucede num maquinismo, donde se suprima uma peça.
Derivando de uma lei da natureza semelhante ação, nada têm, evidentemente, de
sobrenaturais os fenômenos que ela opera. Pareciam tais, porque desconhecida
era a causa que os produzia. O mesmo se deu com alguns efeitos da eletricidade,
da luz, etc.
3. Todas as religiões têm por base a existência de Deus e por
fim o futuro do homem depois da morte. Esse futuro, que é de capital interesse
para a criatura, se acha necessariamente ligado à existência do mundo
invisível, pelo que o conhecimento desse mundo há constituído, desde todos os tempos,
objeto de suas pesquisas e preocupações. A atenção do homem foi naturalmente
atraída pelos fenômenos que tendem a provar a existência daquele mundo e
nenhuns houve jamais tão concludentes, como os das manifestações dos Espíritos
por meio das quais os próprios habitantes de tal mundo revelaram suas
existências. Por isso foi que esses fenômenos se tornaram básicos para a maior
parte dos dogmas de todas as religiões.
4. Tendo instintivamente a intuição de uma potência superior,
o homem foi sempre levado, em todos os tempos, a atribuir à ação direta dessa
potência os fenômenos cuja causa lhe era desconhecida e que passavam, a seus
olhos, por prodígios e efeitos sobrenaturais. Os incrédulos consideram essa
tendência uma consequência da predileção que tem o homem pelo maravilhoso; não
procuram, porém, a origem desse amor do maravilhoso. Ela, no entanto, reside muito
simplesmente na intuição mal definida de uma ordem de coisas extracorpóreas.
Com o progresso da Ciência e o conhecimento das leis da Natureza, esses
fenômenos passaram pouco a pouco do domínio do maravilhoso para o dos efeitos
naturais, de sorte que o que outrora parecia sobrenatural já não o é hoje e o
que ainda o é hoje não mais o será amanhã.
Os fenômenos decorrentes da manifestação dos Espíritos
forneceram, pela sua natureza mesma, larga contribuição aos fatos reputados
maravilhosos. Tempo, contudo, viria em que, conhecida a lei que os rege, eles
entrariam, como os outros, na ordem dos fatos naturais. Esse tempo chegou e o
Espiritismo, dando a conhecer essa lei, apresentou a chave para a interpretação
da maior parte das passagens incompreendidas das Escrituras sagradas que a isso
aludem e dos fatos tidos por miraculosos.
5. O caráter do fato miraculoso é ser insólito e excepcional;
é uma derrogação das leis da Natureza. Desde, pois, que um fenômeno se reproduz
em condições idênticas, segue-se que está submetido a uma lei e, então, já não
é miraculoso. Pode essa lei ser desconhecida, mas, por isso, não é menos real a
sua existência. O tempo se encarregará de revelá-la.
O movimento do Sol, ou, melhor, da Terra, sustado por Josué,
seria um verdadeiro milagre, porquanto implicaria a derrogação manifesta da lei
que rege o movimento dos astros. Mas, se o fato pudesse reproduzir-se em dadas condições,
é que estaria sujeito a uma lei e deixaria, conseguintemente, de ser milagre.
6. É errôneo assustar-se a Igreja com o fato de
restringir--se o círculo dos fatos miraculosos, porquanto Deus prova melhor o
seu poder e a sua grandeza por meio do admirável conjunto de suas leis, do que
por algumas infrações dessas mesmas leis. E tanto mais errôneo é o seu temor,
quanto ela atribui ao demônio o poder de operar prodígios, donde resultaria
que, podendo interromper o curso das leis divinas, o demônio seria tão poderoso
quanto Deus. Ousar dizer que o Espírito do mal pode suspender o curso das leis de
Deus é blasfêmia e sacrilégio.
Longe de perder qualquer coisa de sua autoridade por passarem
os fatos qualificados de milagrosos à ordem dos fatos naturais, a religião
somente pode ganhar com isso; primeiramente, porque, se um fato é tido
falsamente por miraculoso, há aí um erro e a religião somente pode perder, se
se apoiar num erro, sobretudo se se obstinasse em considerar milagre o que não
o seja; em segundo lugar, porque, não admitindo a possibilidade dos milagres,
muitas pessoas negam os fatos qualificados de milagrosos, negando, conseguintemente,
a religião que em tais fatos se estriba. Se, ao contrário, a possibilidade dos
mesmos fatos for demonstrada como efeitos das leis naturais, já não haverá cabimento
para que alguém os repila, nem repila a religião que os proclame.
7. Nenhuma crença religiosa, por lhes ser contrária, pode infirmar
os fatos que a Ciência comprova de modo peremptório. Não pode a religião deixar
de ganhar em autoridade acompanhando o progresso dos conhecimentos científicos,
como não pode deixar de perder, se se conservar retardatária, ou a protestar
contra esses mesmos conhecimentos em nome dos seus dogmas, visto que nenhum
dogma poderá prevalecer contra as leis da Natureza, ou anulá-las. Um dogma que
se funde na negação de uma lei da Natureza não pode exprimir a verdade.
O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora
incompreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, porém sancioná-los,
dando-lhes uma explicação racional. Vem destruir apenas as falsas consequências
que deles foram deduzidas, em virtude da ignorância daquelas leis, ou de as
terem interpretado erradamente.
8. A ignorância das leis da Natureza, com o levar o homem a
procurar causas fantásticas para fenômenos que ele não compreende, é a origem
das ideias supersticiosas, algumas das quais são devidas aos fenômenos
espíritas mal compreendidos. O conhecimento das leis que regem os fenômenos
destrói essas ideias supersticiosas, encaminhando as coisas para a realidade e
demonstrando, com relação a elas, o limite do possível e do impossível.
Fonte: Obras Póstumas – FEB.
Francisco Rebouças



