Solidarity Spiritist Societ

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

NOVOS RUMOS

Diminuída  a  azáfama  com  a  chegada  do  crepúsculo,  sucedido  pela  noite suavemente clareada pelos pingentes estelares, uma psicosfera de paz tomou conta da área em que nos encontrávamos, Oscar e nós outro.
Certamente,  as  atividades  prosseguiam  no  ritmo  abençoado  das  múltiplas realizações  de  amor  e  de  socorro,  de  estudos  e  de  desenvolvimento  moral  em  nossa comunidade.
Grupos  de  Espíritos  operosos  partiam  em  direção  ao  planeta  terrestre, comprometidos  com  tarefas  especiais,  enquanto  outros  retornavam  jubilosos  após  os deveres retamente cumpridos.
Os departamentos de educação e de saúde integral permaneciam ativos, enquanto a  movimentação  na  Colônia  Redenção  diminuía,  proporcionando  aos  que  aqui  se encontravam  domiciliados,  o  recolhimento  aos  lares  ou  aos  educandários  especializados, mantendo o clima de harmonia em toda parte.
Suave  brisa  perpassava  pela  Natureza  em  festa,  perfumada  pelas  flores exuberantes  do  jardim  onde  nos  encontrávamos  observando  a  mãe-Terra  ornando-se  das claridades  artificiais,  que  pareciam,  à  distância,  diamantes  coruscantes  cravados  no acolchoado de veludo azul-marinho que a envolvia.
Havíamos silenciado por um pouco, depois das considerações que entretecêramos sobre  os  últimos  acontecimentos  que  sacudiram  a  sociedade  terrena,  após  o  tsunami  que resultara do choque de placas tectônicas no abismo das águas do Oceano Indico.
O  obituário  estarrecedor  chegara-nos  ao  conhecimento,  enquanto  estávamos reunidos em oração pelas vítimas inermes da dolorosa tragédia sísmica.
A  administração  da  nossa  comunidade  destacara  duas  centenas  de  especialistas em  libertação  dos  despojos  carnais,  a  fim  de  cooperarem  com  os  Guias  da  Humanidade, auxiliando  aqueles  que  foram  atingidos  pela  fúria  das  ondas  gigantescas  e  das  suas consequências.
Dialogáramos  a  respeito  dos  sobreviventes,  assinalados  pelas  dores  superlativas advindas,  pelas  epidemias  que  já  se  instalavam  na  região  onde  os  cadáveres  se decompunham, pela miséria defluente das perdas materiais e pela saudade inominável dos seres queridos que foram arrebatados pela morte.
A fase mais angustiante se apresentava naqueles dias, quando as sequelas cruéis do infortúnio despedaçavam os sentimentos dos sobreviventes, desanimados e aturdidos.
Tivéramos ocasião de acompanhar em projeções muito fiéis em nosso auditório as cenas terrificantes, comovendo-nos todos até às lágrimas.
Também  nos  sensibilizaram  a  movimentação  e  o  interesse  dos  países  civilizados providenciando  ajuda  imediata  ao  povo  desnorteado,  todos  contribuindo  com  valiosa colaboração  capaz  de  amenizar  os  flagelos  que  vergastavam  as  vítimas,  hebetadas  umas pelos choques violentos e outras quase alucinadas pelo desespero e pela desesperança.
Sabíamos  que milhares  de Espíritos nobres haviam acorrido em  auxílio  de  todos, empenhando-se  em  resgatá-los  das  Entidades  infelizes  e  vampirizadoras,  interessadas  no fluido vital dos recém-desencarnados.
Simultaneamente,  tomávamos  conhecimento  das  providências que  haviam  sido estabelecidas  para  diminuir  os transtornos  comportamentais  que  se  iam  alastrando naqueles que ficaram na roupagem carnal.
À  distância,  o  globo  terrestre  movia-se  quase  imperceptivelmente  no  oceano infinito da musicalidade cósmica. Emoções variadas tomaram-nos a ambos, permitindo-nos exteriorizar os sentimentos de amor e de ternura pela querida Gaia, bela, mágica e sofrida, no seu périplo de alguns bilhões de anos, a fim de poder tornar-se o lar feliz de outros tantos bilhões de habitantes que dependiam dos seus recursos para a elevação moral e espiritual.
—  Quanto lhe devíamos!  —  refletimos  —  Quantas novas experiências nos seriam necessárias no futuro para torná-la um planeta de regeneração?
—  Ao mesmo tempo  —  considerava em silêncio  —  quantas dores alanceariam os humanos sentimentos, de modo que neles ocorresse a mudança de conduta mental, moral e emocional, tornando as criaturas dignas da libertação das heranças enfermiças do passado, inaugurando no íntimo o Reino dos Céus.
Nesse ínterim, suave musicalidade chegou-nos aos ouvidos, oriunda do santuário próximo onde se ensaiavam as partituras da Missa em si menor, de Johann Sebastian Bach, originalmente  composta  para  orquestra,  mas  ali  apresentada  em  órgão  magistralmente dedilhado com o coral  infantil  de nossa comunidade.  Experimentamos a sensação de  que, naquele momento, os Céus comunicavam-se com a nossa Colônia.
Realmente, essa ocorrência tinha lugar, porque o edifício reservado às celebrações do amor e da fé religiosa encontrava-se iluminado com tonalidades prateadas e azuis suaves.
Particularmente  chamou-me  a  atenção  o  movimento  das  ondas  sonoras,  que obedeciam ao ritmo suave e doce do órgão e das vozes infantis.
Quase  extasiado,  ia  falar  ao  amigo  Oscar,  quando  lhe  percebi  chorando discretamente.
Na perfeita identificação mental que se nos fez espontânea, pude perceber-lhe o pensamento em retrospecto, apresentando-o quando criança habitando os Alpes austríacos, numa capela aldeã de madeira, ouvindo a mesma composição em velho órgão. As memórias cresciam-lhe, modificando o cenário e pude vê-lo correndo pelos prados verdes numa área assinalada por casario de madeira pintada entre montanhas cobertas pelo gelo eterno e o solo salpicado por miúdas flores, mesclando papoulas e rosas  trepadeiras coloridas sobre a grama verdejante.
O caleidoscópio evocativo do caro amigo projetou-se-me na tela mental, levandome  à  evocação  da  própria  infância,  sendo  dominado,  agora,  pelas  paisagens  da  terra brasileira  e  baiana  em  Sol  e  alegria,  onde  o  Senhor  da  Vida  me  honrou  com  a  recente reencarnação.  Toda  a  magia  mística  desse  amável  povo,  a  sua  simplicidade  e  sofrimento resignado, especialmente o dos indígenas e afrodescendentes, suas esperanças e aspirações povoaram-me o espírito, embalado pela melodia sublime.
Não  saberia  dizer  o  tempo  que  transcorreu,  à  medida  que  a noite  avançava.
Tornando à realidade, meu amigo e nós outro parecíamos haver despertado de um sonho feliz,  e  quase  sem  nos  darmos  conta,  estávamos  com  as  mãos  unidas,  sorrindo  e agradecendo a Deus.
Oscar demonstrou haver tomado conhecimento da minha percepção psíquica das suas lembranças, e, sem delongas, explicou-me:
—  Realmente  nasci  em  uma  linda  região  do  Tirol,  num  vale  verde  entre  as montanhas dos Alpes austríacos. Descendente de judeus, porque não houvesse sinagoga em nossa região, pude participar dos estudos do catecismo católico e frequentar a pequena e bela  igreja  da  aldeia.  Meus  pais,  verdadeiros  anjos  do  Senhor,  não  criaram  qualquer impedimento  a  que  mantivéssemos  a  fé  dos  nossos  ancestrais  e  comungássemos  com  as demais crianças das lições incomparáveis de Jesus.
"Minha mãe era professora e meu pai, médico, dedicados totalmente ao bem da comunidade humilde.
"Quando  a  Áustria  foi  invadida,  em  inesquecível  noite  de  horror,  nosso  lar  foi devassado  por  soldados  das  tropas  de  elite  (SS)  e  fomos  arrastados  e  atirados  em  um camburão  que  nos  levou  a  Viena,  dali  seguindo  em  um  trem  superlotado  ao  campo  de concentração, de trabalhos forçados e de extermínio em Auschwitz, atendendo ao programa da solução final que Hitler impôs e foi executado por Himmler e seus asseclas.
"Desnecessário dizer que, chegando ao campo, e após sermos separados, homens, mulheres,  idosos,  enfermos  e  crianças,  meus  pais  foram  levados  à  câmara  de  gás  e, posteriormente, jogados nos fornos crematórios."
Fez  uma  pausa  natural,  permitindo-me  sugerir-lhe  que  não  se  recordasse  da ocorrência  perversa.  Com  voz  pausada  e  triste,  ele  afirmou-me  que  o  fazia  como  catarse libertadora das fixações profundas.
Logo prosseguiu:
—  Em razão de encontrar-me com mais de 16 anos fui poupado para os trabalhos forçados ao lado de outros mortos-vivos que se movimentavam automaticamente, tentando manter-se.
"Por  dois  anos  de  horrores,  fui  transferido  para  outro  campo  não  menos  cruel, Sobibor,  na  chamada  operação  Heinbard,  quando  então,  felizmente,  terminou  a  guerra  e fomos libertados.
"Conduzidos a um campo de refugiados na Áustria, embora a quase destruição de Viena,  Deus  havia-me  permitido  a  honra  de  sobreviver  ao  Holocausto,  e  recomeçar  a experiência humana valiosa, de que então me dei conta.
"Muito marcado pelas dores físicas e morais, vivenciando noites de pesadelos que pareciam  nunca  terminar,  optei  pelo  celibato,  a  fim  de  não  perturbar  a  alma  querida  que comigo se consorciasse.
"Em  homenagem  aos  meus  genitores  e  às  vítimas  do  extermínio,  passei  a frequentar a Sinagoga, sem perder a emoção do amor a Jesus, o que parece paradoxal.
"Dei  prosseguimento  aos  meus  estudos,  doutorando-me  em  Medicina  pela Universidade  de  Viena,  e  dedicando-me,  dentro  da  minha  formação  moral,  à  prática missionária dessa doutrina responsável pelo combate às doenças, aos sofrimentos.
"Aos cinquenta anos de idade, retornei ao Grande Lar, vivendo numa comunidade espiritual judaica onde resido com os meus pais, havendo sido convocado para a atividade que deveremos atender na condição de irmãos em humanidade."
Sorriu  com  um  delicado  véu  de  tristeza  na  face,  e  distendeu-me  a  mão, pronunciando com emoção a palavra hebraica Shalon (Paz).
De imediato, agora sorrindo, exclamou:
— Novos rumos!
— Rumos novos! — redargui, eufórico.
Deveríamos  retornar  à  Terra-mãe  amada  em  atividades  especiais,  conforme programação  elaborada  pelos  Benfeitores  da  nossa  comunidade.  Sensibilizados  e agradecidos  ao  Senhor  pelas  reflexões  e  emoções  experimentadas,  despedimo-nos, rumando na direção dos nossos aposentos.
Novos rumos! —  Segui ao lar reflexionando em torno da gravidade a respeito das ações a desenvolver, logo concluindo que o Senhor nos daria Seu apoio e Sua inspiração para as atividades que seriam realizadas em Seu nome.
 
Livro: TRANSIÇÃO PLANETÁRIA
Divaldo Pereira Franco/Manoel Philomeno de Miranda.
 
Francisco Rebouças