— Daniel, Daniel.
— Estou aqui, senhor!
- Quero que você acompanhe Gonçalves até a Casa de Márcia Boaventura.
— A coordenadora do atendimento fraterno? Perguntou o servo de
Mamom.
— Ela mesma, desejo saber como anda este caso.
— Se lhe interessa, senhor, informou Gonçalves, nosso plano deu resultado, pois Márcia já
faltou duas semanas consecutivas.
— Ótimo, contudo, não deem descanso. Daniel,
este serviço é muito importante, aja sobre o sr. Boaventura com todo seu
magnetismo e ideias fanáticas. A esta
altura ele deverá estar comprometido financeiramente, doando suas economias
para os cofres de Mamom. Precisamos eliminar Márcia do serviço cristão. Vocês
terão oito semanas de atuação junto ao marido dela. Torturem-no, instruam-no
durante o sono, para impedir a qualquer custo o comparecimento da esposa na
Casa Espírita. Vão e não falhem!
Tomadas as
devidas providências, Júlio César voltou
para a cidade sinistra com objetivo de convocar novos servidores
para intensificar o processo de infiltração, deixando Elvira coordenando o
restante das atividades.
A preposta de
Júlio César não perdeu tempo. Acompanhando Soraia Barreto, iniciou o processo
de fascinação fazendo com que, durante toda semana, a imagem de Sérgio Queiroz
lhe invadisse a mente, inspirando-lhe as mais terríveis fantasias. Sob
interferência de Elvira, sentia-se completamente apaixonada, não conseguindo
pensar em outra coisa.
Na semana
seguinte, a médium, durante a reunião, não apresentou condições de trabalho
espiritual e, sob forte atuação da entidade inferior, trocava olhares com o
dialogador que, estimulado pela adversária, correspondia aos anseios da
intérprete perturbada.
Ao
iniciar a reunião, Sérgio Queiroz aproximou-se de Soraia Barreto, para a tarefa
de atendimento espiritual. Elvira envolveu a médium estimulando-a para a fraude
e, no auge da inconsequência, a intérprete fraudou uma comunicação,
aproveitando para fazer uma demorada declaração de amor ao dialogador.
Os
membros da reunião começaram a notar, pois as trocas de olhares eram
significativas, e, após esta triste “comunicação”, ao término da reunião, as
mentes desejosas em cuidar da vida alheia captaram o desejo oculto da médium e
do dialogador, espalhando ao final, por todo o Centro, os novos
acontecimentos.
Encontrando-se
nos corredores, certas pessoas invigilantes, estimuladas pelos servidores de
Júlio César, espalhavam o vírus da fofoca.
Uma pessoa, que
fazia parte da reunião onde os candidatos ao adultério laboravam, dizia em
segredo a outra criatura:
— Para mim, foi puro animismo. Claro que ela
deseja ter um relacionamento.
— E será que ele corresponderá? Mas não são
ambos casados?
Vou me queixar ao dirigente. Eu conheço a mulher dele, coitada, ela
precisa saber!
E se espalhavam
pela Casa, entre as mentes invigilantes, comentários descaridosos como estes:
— Você não sabe o que está acontecendo na
minha sala!
—O quê?
— Uma senhora de nome Maria Souza acha que é
médium de cura!
— Não diga!
— Já tem fila para tomar passe com ela!
— Não acredito!
— E ainda tem mais, o mentor dela se comunica
dizendo que é médico e quer fazer cirurgia espiritual. Para mim, é pura fraude.
— E eu, não te conto a última. Estão todos
comentando.
Conhece um tal de Sérgio Queiroz?
— Sérgio... Queiroz? Como ele é?
— Alto, forte, conversador...
— Ah,
sim! Agora me lembro, às vezes ele faz diálogos na minha sala.
— Pois
é, está todo mundo dizendo que ele está tendo um caso com a Soraia Barreto.
— Que horror! E seu dirigente o que diz?
— Conversei com ele em particular, mas se
recusa a tomar qualquer providência, dizendo que primeiramente é preciso orar e
confiar nos amigos espirituais. E que, se for preciso, conversará em
particular e de forma absolutamente discreta com os envolvidos neste caso. Me
pediu sigilo e eu só estou contando para você, que é a pessoa que mais prezo
aqui dentro. Mas não acho seja essa a melhor solução. Eles deveriam afastar
esses dois do trabalho. Onde se viu, que pouca vergonha...
Outros
comentavam ainda:
— Dizem que a Márcia Boaventura, aquela
coordenadora do atendimento fraterno, está tendo problemas.
—Quais?
— Parece que o marido entrou para uma seita
fanática e a está proibindo de vir ao Centro.
- Hum! Logo ela que era tão certinha, não
admitia conversas no corredor, sempre zelosa com o silêncio e o respeito.
Ah! É até bom. Essas pessoas muito eficientes, no
fundo são recalcadas.
Quero ver, agora, como é que ela vai fazer? E o
melhor, quero ver quem é que vai substituí-la?
— Bem faço eu, que não assumo nenhuma tarefa,
não me estresso, não tenho de me preocupar com nada e não incomodo meus
familiares. O que adianta
servir no Centro e criar desarmonia em casa?
Melhor mesmo é não se envolver com nenhum serviço voluntário.
— Outra
coisa que estão comentando, continuou a língua afiada, é sobre certas mudanças nas atividades
mediúnicas e doutrinárias. Penso que Castro e Israel já estão ultrapassados,
precisamos mesmo de ideias novas, de sangue novo. O pessoal fica nesse marasmo,
não se agitam. Queremos novos estudos científicos, a ciência é que deve ser,
na minha opinião, exaltada, afinal estamos rumando para o futuro, precisamos
de mentes eruditas, de pessoas intelectuais para dirigir nossa instituição...
E os comentários
eram realizados indiscriminadamente.
Elvira
divertia-se e a Casa Espírita, aos poucos, era tomada pela maledicência.
Os amigos
espirituais, prevendo o pior, promoveram conversa edificante no plano
espiritual, aproveitando o desdobramento, por ocasião do sono, de Soraia e
Sérgio.
Diante de
respeitável entidade os dois sentiam-se envergonhados.
O espírito amigo,
porém, compreendendo-os intensamente, iniciou a orientação:
— Caríssimos irmãos, compreendemos que na
Terra temos de enfrentar dificuldades e problemas, dores e angústias,
entretanto, não nos faltam os
momentos de alegrias e aprendizado que significam bênçãos no caminho.
Vocês são felizes por poderem compartilhar da tarefa de uma respeitável
Casa Espírita. Passaram pelos cursos de conhecimentos básicos e, por isso, não
desconhecem o processo de obsessão.
Por não vigiar os próprios sentimentos estão sendo vítimas de graves
adversários espirituais.
— Mas ainda não aconteceu nada, disse
Sérgio.
— É por isso que estamos dialogando a tempo,
solicitando a vocês que evitem a qualquer custo se envolverem.
Ambos trazem compromissos sérios na área do casamento e vão se perder
por se renderem aos instintos desequilibrados?
A união matrimonial representa um avanço para a humanidade, além de
ser, na grande maioria, o resultado de programação realizada na vida do
infinito.
Ao se entregarem à delinquência das forças sexuais, haverão de se
comprometer muito espiritualmente, e vocês conhecem a Doutrina Espírita que nos
esclarece bem a respeito.
Além disso, estão sendo estimulados por adversários, que os estão
explorando a fim de atingirem nossa Casa Espírita!
Por isso, meus amigos, pensando na felicidade de vocês, atendam às
lições evangélicas, digam não ao adultério.
Soraia, minha filha, valorize seu esposo!
Sérgio, meu filho, pratique a fidelidade junto ao anjo que o Senhor lhe
concedeu na condição de esposa!
Se desejam vencer no caminho, convém lutar contra as más tendências.
Contem com nosso apoio, busquem-nos através da prece.
Lembrem-se de que seremos responsáveis por todo mal que poderíamos
evitar e não evitamos!
Retornem, agora, na certeza de que Deus
é por nós, sempre!
Pela manhã,
Sérgio Queiroz acordou lembrando-se parcialmente da advertência.
Os adversários,
contudo, não lhe davam tréguas, explorando suas tendências, fascinando-o dia a
dia, colocando-o em grande período de provação.
Na semana seguinte,
quando o grupo fazia pequena confraternização, deixando-se vencer pela
influência dos adversários, Soraia e Queiroz declararam-se um ao outro,
decidindo, naquele momento, fugir para verdadeira aventura, perdendo-se
completamente no caminho, abandonando as tarefas espíritas, comprometendo-se
muito espiritualmente.
E, porque não
foram nem um pouco cuidadosos nos comentários, certas criaturas descaridosas
ouviram e, após a saída dos companheiros moralmente enfermos, a notícia se
espalhou qual relâmpago destruidor.
Durante dias, uma
onda de fofoca e reclamações invadiu a Casa, vários departamentos apresentavam
probleminhas, a intolerância estagiava entre muitos dirigentes.
Os amigos
espirituais, entendendo que era o momento correto para agir, preparavam-se para
interferir o quanto possível.
Os
departamentos doutrinários já desenvolviam falhas significativas. O atendimento
fraterno, por exemplo, sem a presença organizadora de Márcia Boaventura,
prosseguia de maneira muito deficiente. Outros cooperadores dedicados faziam o
possível para acolher, com a mesma competência, os que chegavam pela primeira
vez na instituição ou àqueles desejosos de uma palavra amiga, seguida da
orientação espírita.
Não
faltavam, porém, os invigilantes perturbando o serviço. Sequiosos por cargo,
disputavam a organização das entrevistas, quais representantes do orgulho em
uma empresa do mundo. Esqueceram de que os candidatos a comandar o trabalho do
bem devem, primeiramente, se esforçar por comandarem a si mesmos.
Castro
começava a se preocupar. Para ele, o trabalho das entrevistas era muito
importante, porque representa as boas-vindas da Casa Espírita aos que estão
chegando, desejosos em conhecer o Espiritismo ou necessitados de orientação
espiritual.
Todos os
dias recebia reclamações, notava a fascinação instalada em certos grupos
mediúnicos. O caso Maria Souza lhe atormentava a consciência, além das
perturbações geradas por Sérgio e Soraia.
Israel igualmente recebia dezenas de queixas
acerca dos grupos e dos trabalhadores em desequilíbrio. E
mergulhando em profundas reflexões, sob inspiração superior, deduziu ser
preciso providências urgentes a fim de esclarecer os companheiros em
jornada. Para isso,
aplicaria um estudo exaltando, no Centro, o que é uma Casa Espírita, seus
valores, objetivos e finalidades, além da pureza doutrinária, bem como as
funções dos trabalhadores, relembrando os preceitos do homem de bem.
Livro: Aconteceu na Casa Espírita
Emanuel Cristiane/Nora
Francisco Rebouças
