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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

IDENTIDADE DE UM ESPIRITO ENCARNADO.

Nosso colega, Sr. Delanne, estando em viagem, nos transmite o relato seguinte da evocação que fez do Espírito de sua mulher, viva, que ficou em Paris. 
... Em 11 de dezembro último, estando em Lille, evoquei o Espírito de minha mulher as onze e meia da noite; ela me informou que uma de suas parentas estava, por acaso, deitada com ela. Este fato me deixou dúvidas, não o crendo possível, quando, dois dias depois, recebi dela uma carta constatando a realidade da coisa. Envio-vos nossa conversa, embora não haja nada de particular, mas porque oferece uma prova evidente de identidade.

1. Pergunta. Estás aqui, querida amiga? 

- Resposta. Sim, meu gordo. (É seu termo favorito.) 
2. Vês os objetos que me cercam? 
- R. Vejo-os bem. Estou feliz por estar perto de ti. Espero que estejas bem abrigado! (Eram onze horas e meia; chegara de Arras; nada de fogo no quarto; estava envolvido com meu manto de viagem e não tinha mesmo tirado meu cachenê.) 
3. Estás contente por vir sem teu corpo? 
-R Sim, meu amigo; disso te agradeço. Tenho meu corpo fluídico, meu perispírito. 
4. És tu que me faz escrever, e onde estás? 
- R. Junto de ti; certamente tua mão tem muito do mal a ceder. 
5. Estás bem adormecida? 
- R. Não, ainda não muito bem. 
6. Teu corpo te retém? 
- R Sim, eu sinto que me retém. Meu corpo está um pouco doente, mas meu Espírito não sofre. 
7. Tiveste, durante o dia, a intuição de que te evocaria esta noite? 
- R Não, e no entanto não pude definir o que me dizia que te reveria. (Nesse momento tive um ataque violento de tosse.) Tosses sempre, amigo; cuida-te, pois, um pouco. 
8. Podes ver meu perispírito? 
- R Não, não posso distinguir senão teu corpo material. 
9. Sentes-te mais livre e melhor do que com o teu corpo?
- R Sim não sofro mais. (Numa carta posterior, fui informado de que, efetivamente, estivera indisposta.) 
10. Vês Espíritos ao meu redor? 
- R Não; no entanto, desejo muito vê-los. 
11. Assusta-te estar só na casa? 
R Adèle está comigo. (Essa pessoa, uma de nossas parentas, jamais dormia na casa; não a víamos senão raramente.) 
12. Como ocorre que Adèle esteja contigo? Ela deitou contigo? 
- R Sim, por acaso. 
13. És bem tu, minha querida mulher, que me falas? 
- R Sim, sou bem eu. 
14. Vês bem claro aqui? 
- R Sim, tudo irradia melhor do que a fraca luz. (Não tinha senão uma vela num grande quarto.) 
15. Comunicas-te comigo por intuição ou mecanicamente? 
-R Toco mais particularmente sobre teu cérebro, que é próprio para receber mais facilmente, mas, apesar disso, dirijo tua mão ao mesmo tempo. 
16. Como podes ver que meu cérebro está apto para receber as comunicações espíritas? 
R- É pelo desenvolvimento que teus órgãos adquiriram há pouco, o que prova que lhe foi preciso... (Nesse momento soa meia-noite e o Espírito se detém.) 
17. Ouves o som do pêndulo? 
-R Sim, mas estou surpresa com esse som desabituado; é semelhante à música celeste que ouvi no sonho que te contei. (Com efeito, algum tempo antes de minha partida, ela tivera um sonho delicioso, no qual ouvira uma melodia sem semelhança. Nesse momento, seguramente, eu não pensava nesse sonho de que havia esquecido totalmente; isso não podia, pois, ser o reflexo de meu pensamento; porque como nenhuma outra pessoa dele tivera conhecimento, e que eu estava só nesse momento, vi nessa revelação espontânea uma nova prova de identidade do Espírito de minha mulher. O Espírito terminou, espontaneamente, a frase começada mais acima.) ................ Muita força em tão pouco tempo. 18. Queres que evoque meu anjo guardião para controlar tua identidade? Isto te incomodará? 
- R Podes fazê-lo. 
19. (Ao meu anjo guardião.) É bem o Espírito de minha mulher que acaba de me falar? 
R- É tua mulher quem te fala e que está satisfeita em ver-te. 
20. (À minha mulher.) Viste meu anjo guardião? 
- R Sim, é resplandecente de luz; não fez senão aparecer e desaparecer. 
21. Ele mesmo te viu? 
- R Sim, olhou-me com olhos de uma celeste clemência; e eu, muito confusa, prosternei-me. 
Adeus, meu gordo, sinto-me forçada a deixar-te. 

Nota. Se esse controle tivesse se limitado à resposta do anjo guardião, teria sido inteiramente insuficiente, porque seria preciso controlar, a seu turno, a identidade do anjo guardião, do qual um Espírito enganador teria podido, perfeitamente, usurpar o nome. Nada há, em sua simples afirmação, que revele sua qualidade. Em semelhante caso, é sempre preferível fazer o controle por um médium estranho, que não estaria sob a mesma influência; evocar por si mesmo um Espírito, para ele controlar um outro, não oferece sempre uma garantia suficiente, sobretudo pedindo-se a permissão àquele de que se suspeita. Na circunstância da qual se trata, nela encontramos uma descrição que o Espírito dá do anjo guardião; um Espírito enganador não teria podido tomar esse aspecto celeste; reconhece-se, aliás, em todas essas respostas, um caráter de verdade que não poderia simular a fraude. 

(Sessão da noite do dia seguinte.) 
22. Estás aqui? 
- R Sim; vou dizer-te o que te preocupa, é Adèle. Pois bem! sim; ela deitou realmente comigo, eu te juro. 
23. Teu corpo está melhor? 
- R Sim; não era nada. 
24. Hoje, vês Espíritos ao teu redor? 
- R Não vejo nada ainda, mas pressinto algum, porque estou toda inquieta de estar só. 
25. Ora, minha boa amiga, e estarás talvez melhor. 
- R Sim, é o que vou fazer. Dize comigo: "Meu Deus, grande e justo, querei nos bendizer, e nos absolver de nossas iniquidades; fazei graça aos vossos filhos que vos amam; dignai-vos inspirar-lhes as vossas virtudes, e concedei-lhes a insigne graça de serem contados, um dia, entre vossos eleitos. Que a dor terrestre não lhes pareça nada em comparação com a felicidade que reservais àqueles que vos amam sinceramente. Absolvei-nos, Senhor, e continuai nos vossos benefícios pela intercessão, da pura e angélica santa Maria, mãe dos pecadores e a misericórdia encarnada." 

Nota. Esta prece, improvisada pelo Espírito, é de uma tocante simplicidade. O Sr. Delanne não conhecia o fato concernente a Adèle senão pelo que lhe havia dito o Espírito de sua mulher, e foi esse fato que lhe inspirou dúvidas; tendo escrito a esta a esse respeito, recebeu a resposta seguinte: .... Adèle foi bem-vinda ontem à noite, por acaso; convidei-a a ficar, não por medo, disso ri, mas para tê-la comigo; vês bem que ela ficou deitada comigo. Estive um pouco perturbada nas duas últimas noites; senti uma espécie de mal estar, do qual não me dava conta perfeitamente; era como uma força invencível que me forçava a dormir; estava como aniquilada; mas estou tão feliz por ter ido junto a ti!....."


Fonte: Revista Espírita - Janeiro 1863