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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

RENÚNCIA


Reunião de 11 de março de 1954.

      De posse da gravadora, o “Grupo Meimei” iniciou o re­gistro de instruções dos Amigos Espirituais, por intermé­dio da mediunidade psicofônica de Francisco Cândido Xavier, começando semelhante tarefa na noite de 11 de março de 1954.
      Terminado o serviço de esclarecimento e socorro aos irmãos transviados no sofrimento e na sombra, que com­pareceram em grande número através de vários médiuns da casa, o venerável benfeitor Adolfo Bezerra de Menezes incorporou-se, pronunciando a alocução que se segue, alu­siva à renúncia, como base de felicidade e paz, dirigindo-se não apenas aos companheiros encarnados, mas, de modo particular, à compacta assembléia de Espíritos conturbados que se comprimiam em expectação no recinto.

      Meus amigos:

Rendamos graças ao Nosso Pai Celestial, guardan­do boa-vontade para com os homens, nossos irmãos.
Como de outras vezes, achamo-nos juntos no san­tuário da prece...
Nossa visita, contudo, não tem outro objetivo se­não colaborar na renovação íntima que nos é indispen­sável, a fim de que não estejamos malbaratando os re­cursos da fé e os favores do tempo.
Volvendo a vós outros, endereçamos igualmente a nossa mensagem a todos os companheiros que nos es­cutam fora da carne, órfãos de luz, ao encalço da pró­pria transformação com o Divino Mestre, porque so­mente em Cristo é possível traçar o verdadeiro caminho da redenção.
Aprendamos a ceder, recolhendo com Jesus a lição da renúncia, como ciência divina da paz.
Constantemente nossa palavra se reporta à caridade e admitimos que caridade seja apenas alijar o supérfluo de valores materiais da nossa vida.
Entretanto, a caridade maior será sempre a da pró­pria renunciação, que saiba ceder de si mesma para que a liberdade, a alegria, a confiança, o otimismo e a fé no próximo não sofram prejuízo de qualquer proce­dência.
Como exercício incessante de autoburilamento, é im­perioso ceder diariamente de nossas opiniões, de nossos pontos de vista, de nossos preconceitos e de nossos há­bitos, se pretendemos realmente assimilar com Jesus a nossa reforma no Evangelho.
Toda a Natureza é escola nesse sentido.
Cedendo de si própria, converte-se a madeira bruta em móvel de alto preço.
Abdicando os prazeres da mocidade, o homem e a mulher alcançam do Senhor a graça do lar, em favor dos filhinhos que lhes conduzirão a mensagem de amor e confiança ao futuro.
Consumindo as próprias forças, o Sol mantém a Terra e nos sustenta a vida com seus raios.
Meditai a realidade (1), principalmente vós outros

      (1) Neste tópico da mensagem, o Doutor Bezerra de Menezes dirigia-se, de modo particular, aos desencarnados presentes. — Nota do organizador.

que já vos desenfaixastes do envoltório físico! Cultivemos a renúncia aos haveres e afetos da retaguarda humana, para que a morte se nos revele por vida imperecível, des­cortinando-nos nova luz!...
Todos os dias, volta o esplendor solar à experiên­cia do homem, concitando-o a aperfeiçoar-se, por dentro, pelo olvido de velhos fardos das impressões negativas, que tantas vezes se nos cristalizam na mente, escravi­zando-nos à ilusão...
E porque vivemos desprevenidos, gastando a esmo as oportunidades de serviço, obtidas no mundo, com o corpo denso, somos colhidos pela transição do túmulo, como pássaros engaiolados na grade do próprio pensa­mento.
É necessário esquecer para reviver.
É imprescindível o desapego de todas as posses precárias da estação carnal de luta, para que o incêndio das paixões não nos arraste às calamidades do espí­rito, pelas quais se nos paralisa o anseio de progresso, em seculares reparações!...
Não há liberação da consciência, quando a consciên­cia não se liberta.
Não há cura para as nossas doenças da alma, quan­do nossa alma não se rende ao impositivo de recuperar a si mesma!...
Saibamos, assim, exercer a doce caridade de com­preender as criaturas que nos cercam. Não somente en­tendê-las, mas também ampará-las pelo desprendimen­to de nossos desejos, percebendo que o bem do próxi­mo, antes de tudo, é o nosso próprio bem.
Recordemos que as Leis do Senhor se manifestam, em voz gritante, nas trombetas do tempo, conferindo a cada coisa a sua função e a cada espírito o lugar que lhe é próprio.
Desse modo, não nos adiantemos aos Celestes De­sígnios, mas aprendamos a ceder, na convicção de que a justiça é sempre a harmonia perfeita.
Atentos ao culto do sacrifício pessoal sob as nor­mas do Cristo, peçamos a Ele coragem de usar o silên­cio e a bondade, a paciência e o perdão incondicional, no trabalho regenerador de nós mesmos, de vez que não podemos dispensar a energia e a firmeza para nos afeiçoarmos a semelhantes virtudes que, em tantas ocasiões, repontam entusiásticas de nossa boca, quando o nosso coração se encontra longe delas.
Irradiemos os recursos do amor, através de quantos nos cruzem a senda, para que a nossa atitude se con­verta em testemunho do Cristo, distribuindo com os ou­tros consolação e esperança, serenidade e fé.
Imitemos a semente humilde a desfazer-se no solo, aparentemente desamparada, aprendendo com ela a de­sintegrar as teias pesadas e escuras que nos constrin­gem a individualidade eterna, a fim de que o nosso es­pírito desabroche no chão sagrado da vida, em novas expressões de entendimento e trabalho.
Para isso, não desdenhemos ceder.
E supliquemos ao Eterno Benfeitor nos ajude a plas­mar-lhe a Doutrina de Luz em nossas próprias vidas, para que a nossa presença, onde quer que estejamos, seja sempre uma fonte de reconforto e esperança, ser­viço e benevolência, exaltando para aqueles que nos ro­deiam o abençoado nome de Nosso Senhor Jesus-Cristo.

Bezerra de Menezes
Livro: Instruções Psicofônicas
Chico Xavier/Espíritos Diversos

Francisco Rebouças