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sábado, 11 de novembro de 2017

AS TRÊS FILHAS DA BÍBLIA.

Sob este título, o Sr. Hippolyte Rodrigues publicou uma obra na qual prevê a fusão das três grandes religiões descendentes da Bíblia. Um dos escritores do jornal lê Pays fez a esse respeito ás reflexões seguintes, no número de 10 de dezembro de 1866:
"O que são as três filhas da Bíblia? A primeira é judia, a segunda é católica, a terceira é maometana.
"Compreende-se em consequência que se trata aqui de um livro sério, e que a obra o Sr Hippolyte Rodrigues interessa especialmente aos espíritos sérios que se comprazem nas meditações morais e filosóficas sobre o destino humano.
"O autor crê numa próxima fusão das três grandes religiões que se chama as três filhas da Bíblia, e trabalha para conduzir a esse resultado, no qual vê um progresso imenso. É desta fusão que sairá a religião nova que considera como devendo ser a religião definitiva da Humanidade.
"Não quero iniciar aqui, com o Sr. Hippolyte Rodrigues, uma polêmica inoportuna sobre a questão religiosa que agita há tantos anos no fundo das consciências e nas entranhas da sociedade. Permito-me, no entanto, uma reflexão. Quero fazer aceitar a crença nova pelo raciocínio. Até este dia, não há senão a fé que tenha fundado e mantido as religiões, por esta razão suprema de que, quando se raciocina, não se crê mais, e quando um povo, uma época, deixou de crer, vemos logo ruir a religião existente, não se vê levantar a religião nova."
A.DECÉSENA.
Essa tendência, que se generaliza, de prever a unificação dos cultos, como tudo o que se liga à fusão dos povos, à diminuição das barreiras que os separam moralmente e comercialmente, é também um dos sinais característicos dos tempos. Não julgaremos a obra do Sr. Rodrigues, tendo em vista que não a conhecemos; não temos, não mais, a examinar, para o momento, por quais circunstâncias poderá ser trazido o resultado que espera, e que considera a justo título como um progresso; queremos somente apresentar algumas observações sobre o artigo acima.
O autor está num grande erro quando diz que "quando se raciocina não se crê mais." Dizemos, ao contrário, que quando se raciocina sua crença, se crê mais firmemente, porque se a compreende; foi em virtude deste princípio que dissemos: Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade.
O erro da maioria das religiões é de haver erigido em dogma absoluto o princípio da fé cega, e de haver, em favor desse princípio, que anula a ação da inteligência, feito aceitar, durante um tempo, as crenças que os progressos ulteriores da ciência vieram contradizer. Disto resultou, num grande número de pessoas, essa prevenção de que toda crença religiosa não pode suportar o livre exame, confundindo, numa reprovação geral, o que não eram senão casos particulares. Esta maneira de julgar as coisas não é mais racional de que se condenasse todo um poema, porque encerraria alguns versos incorretos, mas é mais cômoda para aqueles que não querem crerem nada, porque, rejeitando tudo, se creem dispensados de nada examinar.
O autor comete um outro erro capital quando diz: "Quando um povo, uma época deixou de crer, vê-se logo ruir a religião existente, não se vê levantar a religião nova."
Onde viu ele, na história, um povo, uma época sem religião?
A maioria das religiões nasceram nos tempos recuados, quando os conhecimentos científicos eram muito limitados ou nulos; elas erigiram em crenças noções errôneas, que só o tempo poderia retificar. Infelizmente, todas foram fundadas sobre o princípio da imutabilidade, e como quase todas confundiram, num mesmo código, a lei civil e a lei religiosa, tendo disto resultado que, num momento dado, o espírito humano, tendo caminhado, ao passo que as religiões permaneceram estacionárias, estas não se encontraram mais à altura das ideias novas. Elas caem, então, pela força das coisas, como caem as leis, os costumes sociais, os sistemas políticos que não podem responder às necessidades novas. Mas como as crenças religiosas são instintivas no homem, e constituem, pelo coração e pelo espírito, uma necessidade tão imperiosa quanto à legislação civil para a ordem social, elas não se aniquilam: elas transformam-se.
A transição não se opera jamais de maneira brusca, mas pela mistura temporária das ideias antigas e das ideias novas; é de início uma fé mista que participa de umas e das outras; pouco a pouco a velha crença se extingue, a nova cresce, até que a substituição seja completa. Por vezes, a transformação não é senão parcial; são então as seitas que se separam da religião mãe modificando alguns pontos de detalhe. Foi assim que o Cristianismo sucedeu ao paganismo, que o Islamismo sucedeu ao fetichismo árabe, que o Protestantismo, a religião grega, se separaram do Catolicismo. Por toda a parte veem-se os povos não deixara crença senão para tomar uma apropriada ao seu estado de adiantamento moral e intelectual; mas em nenhuma parte há solução de continuidade.
Em nossos dias se vê, é verdade, a incredulidade absoluta erigida em doutrina e professada por algumas seitas filosóficas; mas seus representantes, que constituem uma ínfima minoria na população inteligente, têm o erro de se crerem todo um povo, toda uma época, e porque não querem mais religião, pensam que sua opinião pessoal é o encerramento dos tempos religiosos, ao passo que não é senão uma transição parcial para uma outra ordem de ideias.
Fonte: Kardec, Allan - Revista Espírita – Fevereiro de 1867.
Francisco Rebouças