V - Educação
e função dos médiuns
Nada verdadeiramente importante se adquire sem trabalho. Uma
lenta e laboriosa iniciação se impõe aos que buscam os bens superiores. Como
todas as coisas, a formação e o exercício da mediunidade encontram
dificuldades, bastantes vezes já assinaladas; convém insistirmos nisso, a fim
de prevenir os médiuns contra as falsas interpretações, contra as causas de
erro e de desânimo. Desde que, por um trabalho preparatório, as faculdades do
médium adquirem certa flexibilidade, os resultados que se começam a obter são
quase sempre devidos às relações estabelecidas com os elementos inferiores do
mundo invisível. Uma multidão de Espíritos nos cerca, sempre ávidos de se
comunicarem com os homens. Essa multidão é sobretudo composta de almas pouco
adiantadas, de Espíritos levianos, algumas vezes maus, que a densidade de seus
próprios fluidos conserva presos à Terra. As inteligências elevadas, animadas
de nobres aspirações, revestidas de fluidos sutis, não permanecem escravizadas
à nossa atmosfera depois da separação carnal: remontam mais alto, a regiões que
o seu grau de adiantamento lhes indica. Daí baixam muitas vezes – é certo –
para velar pelos seres que lhes são caros; imiscuem- se conosco, mas unicamente
para um fim útil e em casos importantes. Donde resulta que os principiantes
quase nunca obtêm senão comunicações sem valor, respostas chocarreiras,
triviais, às vezes inconvenientes, que os impacientam e desanimam. Noutros
casos o médium inexperto recebe, pela mesinha ou pelo lápis, xxxv ditados
subscritos por nomes célebres, contendo revelações apócrifas que lhe captam a
confiança e o enchem de entusiasmo. O inspirador invisível, conhecendo-lhe os
lados vulneráveis, lisonjeia-lhe o amor-próprio e as opiniões, superexcita-lhe
a vaidade, cumulando-o de elogios e prometendo- lhe maravilhas. Pouco a pouco o
vai desviando de qualquer outra influência, de todo exame esclarecido, e o leva
a se insular em seus trabalhos. É o começo de uma obsessão, de um domínio
exclusivista, que pode conduzir o médium a deploráveis resultados. Esses
perigos foram, desde os primórdios do Espiritismo, assinalados por Allan
Kardec; todos os dias, estamos ainda vendo médiuns deixarem-se levar pelas
sugestões de Espíritos embusteiros e serem vítimas de mistificações que os
tornam ridículos e vêm a recair sobre a causa que eles julgam servir. Muitas
decepções e dissabores seriam evitados se compreendesse que a mediunidade
percorre fases sucessivas, e que, no período inicial de desenvolvimento, o
médium é sobretudo assistido por Espíritos de ordem inferior, cujos fluidos,
ainda impregnados de matéria, se adaptam melhor aos seus e são apropriados a
esse trabalho de bosquejo, mais ou menos prolongado, a que toda faculdade está
sujeita. Só mais tarde, quando a faculdade mediúnica, suficientemente desenvolvida,
adquiriu a necessária maleabilidade e se tornou dúctil o instrumento, é que os
Espíritos elevados podem intervir e utilizá-la para um fim moral e intelectual.
O período de exercício, de trabalho preparatório, tão fértil muitas vezes em
manifestações grosseiras e mistificações, é, pois, uma fase normal de
desenvolvimento da mediunidade; é uma escola em que a nossa paciência e
discernimento se exercitam, em que aprendemos a nos familiarizar com o modo de
agir dos habitantes do Além. Nessa fase de prova e de estudo elementar, deve
sempre o médium estar de sobreaviso e nunca se afastar de uma prudente reserva.
Cumpre-lhe evitar cuidadosamente as questões ociosas ou interesseiras, os
gracejos, tudo, em suma, que reveste caráter frívolo e atrai os Espíritos levianos.
E preciso não se deixar esmorecer pela mediocridade dos primeiros resultados,
pela abstenção e aparente indiferença dos nossos amigos do Espaço. Médiuns
principiantes, ficai certos de que alguém vela por vós e de que a vossa
perseverança é posta à prova. Quando houverdes chegado ao ponto requerido,
influências mais altas baixarão a vós e hão de continuar a vossa educação
psíquica. Não procureis na mediunidade um objetivo de mera curiosidade ou de
simples diversão; considerai-a de preferência um dom do Céu, uma coisa sagrada,
que deveis utilizar com respeito, para o bem de vossos semelhantes. Elevai o
pensamento às almas generosas que trabalham no progresso da Humanidade; elas
virão a vós e vos hão de amparar e proteger. Graças a elas, as dificuldades do
começo, as inevitáveis decepções que experimentareis não terão desagradáveis
conseqüências; servirão para vos esclarecer a razão e vos desenvolver as forças
fluídicas. A boa mediunidade se forma lentamente, no estudo calmo, silencioso,
recolhido, longe dos prazeres mundanos e do tumulto das paixões. Depois de um
período de preparação e expectativa, o médium colhe o fruto de seus
perseverantes esforços; recebe dos Espíritos elevados a consagração de suas
faculdades, amadurecidas no santuário de sua alma, ao abrigo das sugestões do
orgulho. Se guarda em seu coração a pureza de ato e de intenção, virá, com a
assistência de seus guias, a se tornar cooperador utilíssimo na obra de
regeneração que eles vêm realizando.
Terminada a primeira fase de desenvolvimento de suas
faculdades, o importante para o médium é obter a proteção de um Espírito bom,
adiantado, que o guie, inspire e preserve de qualquer perigo. Na maior parte
das vezes é um parente, um amigo desaparecido que desempenha ao pé dele essas
funções. Um pai, uma mãe, uma esposa, um filho, se adquiriram a experiência e o
adiantamento necessários, podem-nos dirigir no delicado exercício da
mediunidade. Mas o seu poder é proporcional ao grau de elevação a que chegaram,
e nem sempre a sua ternura e solicitude bastam para nos defender das investidas
dos Espíritos inferiores. Dignos de louvor são os médiuns que, por seu
desinteresse e fé profunda, têm sabido atrair, como uma espécie de aliados, os
Espíritos de escol, e participar de sua missão. Para fazer baixar das excelsas
regiões esses Espíritos, para os decidir a mergulhar em nossa espessa
atmosfera, é preciso oferecer-lhes aptidões, notáveis qualidades. Seu ardente
desejo de trabalhar na regeneração do gênero humano torna, entretanto, essa
intervenção muito menos rara do que se poderia imaginar. Centenas de Espíritos
superiores pairam acima de nós e dirigem o movimento espiritualista, inspirando
os médiuns, projetando sobre os homens de ação as vibrações de sua vontade, a
fulguração do seu próprio gênio. Conheço vários grupos que possuem uma
assistência dessa ordem. Pela pena, pelos lábios dos médiuns, os Espíritos-guia
ditam instruções, fazem ouvir exortações; e não obstante as imperfeições do
meio e as obscuridades que lhes amortecem e velam as irradiações do pensamento,
é sempre um penetrante enlevo, um gozo da alma, um gratíssimo conforto saborear
a beleza de seus pensamentos escritos, escutar as inflexões de
sua palavra, que nos vem como longínquo e mavioso eco das regiões celestes. A
descida ao nosso mundo terrestre é um ato de abnegação e um motivo de
sofrimento para o Espírito elevado. Nunca seriam demasiados a nossa admiração e
reconhecimento à generosidade dessas almas, que não recuam diante do contacto
dos fluidos grosseiros, à semelhança dessas nobres damas, delicadas,
sensitivas, que, ao impulso da caridade, penetram em lugares repugnantes, para
levar socorros e consolações. Quantas vezes, em sessões de estudo, temos ouvido
dizerem os nossos guias: “Quando, do seio dos Espaços, vimos até vós, tudo se
restringe, se amesquinha e se vai pouco a pouco retraindo. Lá, nas alturas,
possuímos meios de ação que nem podeis compreender; esses meios se enfraquecem
logo que entramos em relação com o ambiente humano.” Tanto que um desses
grandes Espíritos baixa ao nosso nível e se demora em nossas obscuras regiões,
logo o invade uma impressão de tristeza; ele sente como que uma depressão, uma
diminuição de seus poderes e percepções. Só por um constante exercício da
vontade, com o auxílio das forças magnéticas hauridas no Espaço, é que se
habitua ao nosso mundo e nele cumpre as missões de que é encarregado. Porque,
na obra providencial, tudo se acha regulado para o ensino gradual e o progresso
da Humanidade. Os Espíritos missionários e instrutores vêm revelar, por meio
das faculdades mediúnicas, as verdades que o nosso grau de evolução nos permite
apreender e compreender. Desenvolvem, na esfera humana, as elevadas e puras
concepções da divindade e nos vão, passo a passo, conduzindo a uma compreensão
mais vasta do objetivo da existência e dos humanos destinos. Não se deve
esperar de tais Espíritos as provas banais, os testemunhos de identidade que
tantos experimentadores exigem; mas de nossos colóquios com eles se exala uma
impressão de grandeza, de elevação moral, uma irradiação de pureza, de
caridade, que sobreexcederá todas as provas materiais e constituirá a melhor
das demonstrações morais. Os Espíritos superiores lêem o que em nosso íntimo se
passa, conhecem as nossas intenções e dão muito pouco apreço às nossas fantasias
e caprichos. Para atender aos nossos chamados e prestar-nos assistência, exigem
de nossa parte uma vontade firme e perseverante, uma fé elevada, um veemente
desejo de nos tornarmos úteis. Reunidas essas condições, aproximam-se de nós;
começa então, muitas vezes sem o sabermos, um demorado trabalho de adaptação
dos seus fluidos aos nossos. São as preliminares forças de toda relação
consciente. À medida que se estabelece a harmonia das vibrações, a comunicação
se acentua sob formas apropriadas às aptidões do sensitivo: audição, visão,
escrita, incorporação. Os Espíritos superiores, indiferentes às satisfações de
opiniões materiais e interesseiras, comprazem-se ao pé dos homens que procuram
no estudo um meio de aperfeiçoamento. A pureza de nossos sentimentos lhes
facilita a ação e aumenta a influência. Outros Espíritos de menor categoria,
por um impulso de dedicação, ligam-se a nós e nos acompanham até ao termo de
nossa peregrinação terrestre. São os gênios familiares ou Espíritos protetores.
Cada pessoa tem o seu. Eles nos guiam, em meio das provações, com uma paciência
e uma bondade admiráveis, sem jamais se cansarem. Os médiuns devem recorrer à
proteção desses amigos invisíveis, quase sempre membros adiantados de nossa
família espiritual, com quem outrora vivemos neste mundo. Aceitaram a missão,
tantas vezes ingrata, de velar por nós; através de nossas alegrias e aflições,
de nossas quedas e reabilitações, nos encaminham para uma vida melhor, em que
nos acharemos de novo reunidos para uma mesma tarefa, identificados em um mesmo
amor.
Em todo ser humano existem rudimentos de mediunidade,
faculdades em gérmen, que se podem desenvolver pelo exercício. Para o maior
número, um longo trabalho perseverante é necessário. Em alguns, essas
faculdades se revelam desde a infância, e sem esforço vêm a atingir, com os
anos, um alto grau de perfeição. Representam, em tal caso, o resultado das
aquisições anteriores, o fruto dos labores efetuados na Terra ou no Espaço,
fruto que conosco, ao renascer, trazemos. Entre os sensitivos, muitos têm a
intuição de um mundo superior, extraterrestre, em que existem, como em reserva,
poderes que lhes é possível adquirir mediante íntima comunhão e elevadas
aspirações, para em seguida os manifestarem sob diversas formas, apropriadas à
sua natureza: adivinhação, ensinamentos, ação curativa, etc. Aplicada em tal
sentido, a mediunidade torna-se uma faculdade preciosa, por meio da qual podem
ser liberalizados imensos benefícios e realizadas grandes obras. À Humanidade
seria facultado um poderoso elemento de renovação, se todos compreendessem que
há, acima de nós, um inesgotável manancial de energia, de vida espiritual, que
se pode atingir por gradativo adestramento, por constante orientação do
pensamento e da vontade no sentido de assimilar as suas ondas e radiações, e
com o seu auxílio desenvolver as faculdades que em nós jazem latentes. A
aquisição dessas forças nos bloqueia contra o mal, nos coloca acima dos
conflitos materiais e nos torna mais firmes no cumprimento do dever. Nenhum
dentre os bens terrenos é comparável à posse desses dons. Sublimados a seu mais
alto grau, fazem os grandes missionários, os renovadores, os grandes
inspirados. Como podemos adquirir esses poderes, essas faculdades superiores?
Descerrando nossa alma, pela vontade e pela prece, às influências do Alto. Do
mesmo modo que abrimos as portas da nossa casa, para que nela penetrem os raios
do Sol, assim também por nossos impulsos e aspirações podemos franquear aos
eflúvios celestes o nosso ego interior. É aí que se manifesta a ação benéfica e
salutar da prece. Pela prece humilde, breve, fervorosa, a alma se dilata e dá
acesso às irradiações do divino foco. A prece, para ser eficaz, não deve ser
uma recitação banal, uma fórmula decorada, senão antes uma solicitação do coração,
um ato da vontade, que atrai o fluido universal, as vibrações do dinamismo
divino. Ou deve ainda a alma projetar-se, exteriorizar-se por um vigoroso surto
e, consoante o impulso adquirido, entrar em comunicação com os mundos etéreos.
Assim, a prece rasga uma vereda fluídica pela qual sobem as almas humanas e
baixam as almas superiores, de tal modo que uma íntima comunhão se estabeleça
entre umas e outras, e o espírito do homem seja iluminado e fortalecido pelas
centelhas e energias despedidas das celestiais esferas.
Em Espiritismo, a questão de educação e adestramento dos
médiuns é capital; os bons médiuns são raros – diz-se muitas vezes – e a
ciência do invisível, privada de meios de ação, só com muita lentidão vem a
progredir. Quantas faculdades preciosas, todavia, não se perdem, à míngua de
atenção e de cultura! Quantas mediunidades malbaratadas em frívolas
experiências, ou que, utilizadas ao sabor do capricho, não atraem mais que
perniciosas influências e só maus frutos produzem! Quantos médiuns, inconscientes
de seu ministério e do valor do dom que lhes é outorgado, deixam inutilizadas
forças capazes de contribuir para a obra de renovação! A mediunidade é uma
delicada flor que, para desabrochar, necessita de acuradas precauções e
assíduos cuidados. Exige o método, a paciência, as altas aspirações, os sentimentos nobres e, sobretudo, a terna
solicitude do bom Espírito que a envolve em seu amor, em seus fluidos
vivificantes. Quase sempre, porém, querem fazê-la produzir frutos prematuros, e
desde logo ela se estiola e fana ao contacto dos Espíritos atrasados. Na
antiguidade, os jovens sensitivos que revelavam aptidões especiais eram
retirados do mundo, segregados de toda influência degradante, em lugares
consagrados ao culto, rodeados de tudo o que lhes pudesse elevar o sentido do
belo. Tais eram as vestais, as druidesas, as sibilas, etc. O mesmo acontecia
nas escolas de profetas e videntes da Judéia, situadas longe do ruído das
cidades. No silêncio do deserto, na paz dos alterosos cimos, melhor podiam os
iniciados atrair as influências superiores e interrogar o invisível. Graças a
essa educação, obtinham-se resultados que a nós nos surpreendem. Tais processos
são hoje inaplicados. As exigências sociais nem sempre permitem ao médium
dedicar-se, como conviria, ao cultivo de suas faculdades. Sua atenção é
distraída pelas mil necessidades da vida de família, suas aspirações estorvadas
pelo contacto da sociedade mais ou menos corrompida ou frívola. Muitas vezes é
ele chamado a exercer suas aptidões em círculos impregnados de fluidos impuros,
de inarmônicas vibrações, que reagem sobre o seu organismo tão impressionável e
lhe produzem desordens e perturbações. É preciso que, ao menos, o médium,
compenetrado da utilidade e grandeza de sua função, se aplique a aumentar seus
conhecimentos e procure espiritualizar-se o mais possível, que se reserve horas
de recolhimento e tente então, pela visão interior, alçar-se até às coisas
divinas, à eterna e perfeita beleza. Quanto mais desenvolvidos forem nele o
saber, a inteligência, a moralidade, mais apto se tornará para servir de
intermediário às grandes almas do Espaço. Uma organização prática do
Espiritismo comportará, no futuro, a criação de asilos especiais, onde os
médiuns encontrarão reunidas, com os meios materiais de existência, as
satisfações do coração e do espírito, as inspirações da Arte e da Natureza,
tudo o que às suas faculdades pode imprimir um caráter de pureza e elevação,
fazendo em torno deles reinar uma atmosfera de paz e confiança. Em tais meios,
poderiam os estudos experimentais produzir muito melhores resultados que os que
até agora se têm muitas vezes obtido em condições defeituosas. A intrusão dos
Espíritos levianos, as tendências à fraude, os pensamentos egoísticos e os
malévolos sentimentos se atenuariam pouco a pouco e terminariam por
desaparecer. A mediunidade se tornaria mais regular, mais segura em suas
aplicações. Não mais se havia de, com tanta freqüência, observar esse mal-estar
que experimenta o sensitivo, nem ocorreriam esses períodos de suspensão das
faculdades psíquicas, culminando mesmo em seu completo desaparecimento em
seguida ao mau uso delas feito. Os espiritualistas de além-mar cogitam de
fundar, em muitos dos grandes centros americanos, “ homes ” ou edifícios
dotados de certo número de salas apropriadas aos diferentes gêneros de
manifestações e munidas de aparelhos de experimentação e fiscalização. Cada
sala, vindo, com o uso, a impregnar- se do magnetismo particular que convém a
tais experiências, seria destinada a uma ordem especial de fenômenos:
materializações, incorporações, escrita, tiptologia, etc. Um órgão, colocado no
centro do edifício, propagaria a todas as suas partes, nas horas de sessão,
enérgicas vibrações, a fim de estabelecer nos fluidos circulantes e no
pensamento dos assistentes a unidade e harmonia tão necessárias. A música
exerce, com efeito, uma soberana influência nas manifestações, facilitando-as e
tornando-as mais intensas, como inúmeros experimentadores o têm reconhecido.
Merecem inteira aprovação esses projetos e devemos fazer votos pela sua
realização em todos os países, porque viriam, por sua natureza, uma vez
realizados, a dar vigoroso impulso aos estudos psíquicos e facilitar em larga
escala essa comunhão dos vivos e dos mortos, mediante a qual se afirmam tantas
verdades de valor incalculável, capazes de, em sua propagação pelo mundo,
renovar a Fé e a Ciência.
O importante para o médium, dissemos mais acima, é
assegurar-se uma proteção eficaz. O auxílio do Alto é sempre proporcionado para
o fim a que nos propomos, aos esforços que empregamos para o merecer. Somos
auxiliados, amparados, conforme a importância das missões que nos incumbem,
tendo-se em vista o interesse geral. Essas missões são acompanhadas de provas,
de dificuldades inevitáveis, mas sempre reguladas conforme as nossas forças e
aptidões. Desempenhadas com dedicação, com abnegação, as nossas tarefas nos
elevam na hierarquia das almas. Negligenciadas, esquecidas, não realizadas, nos
fazem retrotrair a escala de progresso. Todas acarretam responsabilidades.
Desde o pai de família que incute em seus filhinhos as noções elementares do
bem, o preceptor da mocidade, o escritor moralista, até o orador que procura
arrebatar as multidões às culminâncias do pensamento, cada um tem sua missão a
preencher.
Não há mais nobre, mais elevado cargo que ser chamado a
propagar, sob a inspiração das potências invisíveis, a verdade pelo mundo, a
fazer ouvir aos homens o atenuado eco dos divinos convites, incitando-os à luz
e à perfeição. Tal é o papel da alta mediunidade. Falamos de responsabilidade.
É necessário insistir sobre esse ponto. Muitos médiuns procuram, no exercício
de suas faculdades, satisfações de amor-próprio ou de interesse. Descuram de
fazer intervir em sua obra esse sentimento grave, refletido, quase religioso,
que é uma das condições de êxito. Esquecem muitas vezes que a mediunidade é um
dos meios de ação pelos quais se executa o plano divino, e que ele não tem o
direito de utilizá-la ao sabor de sua fantasia. Enquanto se não tiverem
compenetrado os médiuns da importância de sua função e da extensão de seus
deveres, haverá no exercício de suas faculdades uma fonte de abusos e de males.
Os dons psíquicos, desviados de seu eminente objetivo, utilizados para fins de
interesses medíocres, pessoais e fúteis, revertem contra os seus possuidores,
atraindo-lhes, em lugar dos gênios tutelares, as potências malfazejas do Além.
Fora das condições de elevação de pensamento, de moralidade e desinteresse,
pode a mediunidade constituir-se um perigo; ao passo que tendo por fim firme
propósito no bem, por suas aspirações ao ideal divino, o médium se impregna de
fluidos purificados; uma atmosfera protetora se forma em torno dele, o envolve,
o preserva dos erros e das ciladas do invisível. E se, por sua fé e comprovado zelo,
pela pureza da alma em que nenhum cálculo interesseiro se insinue, obtém ele a
assistência de um desses Espíritos de luz, depositários dos segredos do Espaço,
que pairam acima de nós e projetam sobre a nossa fraqueza as suas irradiações;
se esse Espírito se constitui seu protetor, seu guia, seu amigo, graças a ele
sentirá o médium uma força desconhecida penetrar-lhe todo o ser, uma chama lhe
iluminar a fronte. Todos quantos tomarem parte em seus trabalhos e colherem os
seus resultados sentirão reanimar-se-lhes o coração e a inteligência às
fulgurações dessa alma superior; um sopro de vida lhes transportará o
pensamento às regiões sublimes do Infinito.
Livro: No Invisivel
Leon Dennis – Cap. V.
Francisco Rebouças