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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O herdeiro do Pai

“A quem constitui herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.” – Paulo. (Hebreus, 1:2.)

Cede aos poderes humanos respeitáveis o que lhes cabe por direito lógico da vida, mas não te esqueças de dar ao Senhor o que lhe pertence. 
Esta forma conciliadora do Evangelho permanece, ainda, pal- pitante de interesse para o bem-estar do mundo. 
Não convém concentrar em organizações mutáveis do plano carnal todas as nossas esperanças e aspirações. 
O homem interior renova-se diariamente. Por isso, a ciência que lhe atende as reclamações, nos minutos que passam, não é a mesma que o servia, nas horas que se foram, e a do futuro será muito diversa daquela que o auxilia no presente. A política do pretérito deu lugar à política das lutas modernas. Ao triunfo sanguinolento dos mais fortes ao tempo da selvageria sem peias, seguiu-se a autocracia militarista. A força cedeu à autoridade, a autoridade ao direito. No setor das atividades religiosas, o esfor- ço evolutivo não tem sido menor. 
Em vista de semelhantes realidades, por que te apaixonas, com tanta veemência, por criaturas falíveis e programas transitórios?
Os homens de hoje, por mais veneráveis, são herdeiros dos homens de ontem, empenhados na luta gigantesca pela redenção de si mesmos. Poderão prometer maravilhosos reinados de abastança e paz, liberdade e harmonia, entretanto, não fugirão ao serviço de corrigenda dos erros que herdaram, não só daqueles que os antecederam, no campo dos compromissos coletivos, mas igualmente de suas próprias experiências passadas, em tenebro- sos desvios do sentimento.
A civilização de agora é sucessora das civilizações que faliram. 
As nações que se restauram aproveitam as nações que se des fizeram. 
As organizações que surgem na atualidade guardam a herança das que desapareceram na voragem da discórdia e da tirania. Examinando a fisionomia indisfarçável da verdade, como hi pertrofiar o sentimento, definindo-te, em absoluto, por instituições terrestres que carecem, acima de tudo, de teu próprio auxílio espiritual? 
Como pode a casa sem teto abrigar-te da intempérie? 
A plan- ta do arranha-céu, inteligentemente traçada no pergaminho, ainda não é a construção mantenedora da legítima segurança. 
Não existem, pois, razões que justifiquem os tormentos dos aprendizes do Cristo, angustiados pelas inquietudes políticas da hora que passa. 
Semelhante estado d'alma é simples produto de inadvertência perigosa, porque todos devemos saber que os homens falíveis não podem erguer obras infalíveis e que compete a nós outros, partidários do Mestre, a posição de trabalhadores sinceros, chamados a servir e cooperar na obra paciente e longa, mas definitiva e eterna, daquele a quem o Pai “constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo”.

Livro: Fonte Viva
Chico Xavier/Emmanuel

Francisco Rebouças