O
instinto, por não possuir a faculdade de pensar, adquire e exterioriza a
astúcia, que é um mecanismo, através do qual consegue o que persegue.
Habilidade,
perseverança, artimanhas fazem parte dessa manifestação que tipifica diversos
animais dentre os quais alguns seres humanos.
A
criatividade se deriva da faculdade de pensar, que se renova sem cessar.
Considerava J.
Paul Sartre que o homem se reinventa, que está sempre engendrando idéias, meios
e formas para ser novo, para estar novo.
Naturalmente,
o homem criativo é capaz de reinventar-se, de sair da rotina, de buscar novos
desafios e entregar-se a contínuos anelos de evolução.
As
artimanhas do instinto preservam a vida do animal, quando se mimetiza a fim de
livrar-se dos predadores, seus inimigos naturais que, não fosse esse valioso
recurso da natureza, exterminariam as espécies de que se nutre e, graças às
quais, sobrevive.
Quando
esse instinto não se encontra iluminado pela consciência desperta, lúcida, e
direciona o ser, surge-lhe a astúcia em detrimento da inteligência, tornando-o
adaptável em quaisquer situações, pusilânime, aderindo e vinculando-se a
pessoas e circunstâncias, sem a sua identidade pessoal nem as específicas
características psicológicas. Mente, engana, trai, considerando-se inteligente
e subestimando a inteligência dos demais. Porque age, direcionado pelo
instinto, inventa, sem criatividade, escusas, esclarecimentos, projetando
sempre a sombra, até ser desmascarado ou relegado a plano secundário, considerado
pernicioso ao meio social.
A
criatividade inspira à busca do real, embora no campo imaginário, conduzindo o
ser psicológico à aquisição de recursos que o emulam ao desenvolvimento das
potencialidades nele jacentes. Quando bem direcionada, supera a fantasia, que
se lhe pode antecipar, penetrando no âmago das coisas e ocorrências com que
compõe novos cenários e estabelece produtivos objetivos.
O ser criativo sai das situações menos felizes
sem amarguras ou seqüelas dos insucessos e desgostos experimentados,
convertendo-os em lições de vida mediante as quais progride em tranqüilidade.
Somente a
criatividade pode manter as pessoas que experimentam superlativas dores e
excruciantes abandonos, perseguições e impiedades.
Quando
despidas de tudo — haveres, família, amigos, títulos — não são despojadas de
si mesmas, com as quais contam, reconstruindo a autoconfiança e projetando-se
no futuro.
O astuto
busca enganar, enganando-se.
Inseguro,
tenta a lisonja, o enredo falso e se emaranha na tecedura da rede de ilusões.
O
criativo, quando sofre o presente, recupera mentalmente o passado, revivendo-o,
recompondo as cenas e programando o futuro. Se, por acaso, o seu foi um passado
menos feliz, repara-o, reexamina-o e tenta descobrir-lhe os pontos vulneráveis
do comportamento que lhe brindou as conseqüências perturbadoras. Ao delinear o
futuro reforça a coragem e a vigilância, trabalhando-se para os enfrentamentos,
sempre de maneira nobre, a fim de não perder o respeito nem a dignidade para consigo
mesmo.
A astúcia
não resiste à análise inteligente por falta de suporte real, basilar, para as
suas propostas. Quem a cultiva, permanece infantil, mente à mãe castradora ou
superprotetora, ao pai dominador ou negligente, escondendo agora a realidade
como fazia na infância, por medo ou para estar nas graças, porém em permanente
conflito que muda apenas de apresentação.
Essa couraça do medo que comprime e
libera os mecanismos de fuga da realidade e do dever, deve ser removida pela
energia da razão, em exame cuidadoso quanto aos resultados da conduta,
elegendo aquela que não produza danos mais tarde, apesar dos riscos e
desagrados do momento.
A
criatividade dá sentido à existência, que não estaciona ante o já conseguido,
demonstrando a excelência de tudo quanto falta para ser alcançado.
Liberta
do encarceramento elaborado pelo ego, rompendo o círculo da comodidade e
impulsionando a novas experiências.
A mente
criativa é atuante e renovadora, propiciando beleza ao ser, que se faz
solidário no grupo social, participante dos interesses gerais, aos quais se
afeiçoa, enquanto vive as próprias expectativas elaboradas pelo pensamento
idealista.
A mente astuta, anestesiada pela ilusão, nega-se
à aceitação da realidade por temor de ver desmoronar o seu castelo de sonhos,
e ter que se enfrentar despida das mentiras e quejandos. Momento porém, chega,
no qual se rompe essa couraça constritora — o sofrimento, o amor, o
conhecimento, a alegria legítima afloram — e surge, num parto feliz, a
criatividade enriquecedora, equilibrada e tranquila, proporcionando saúde
psicológica.
Livro: Amor, Imbatível Amor
Divaldo Franco/Joanna de Ângelis
Francisco Rebouças
