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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A cortina do “eu”

“Porque  todos  buscam  o  que  é  seu  e  não  o  que  é  do Cristo Jesus.” – Paulo. (Filipenses, 2:21.)

Em verdade, estudamos com o Cristo a ciência divina de ligação com o Pai, mas ainda nos achamos muito distantes da genuína comunhão com os interesses divinos.

Por trás da cortina do “eu”, conservamos lamentável cegueira diante da vida.

Examinemos imparcialmente as atitudes que nos são peculiares nos  próprios  serviços  do  bem, de  que somos cooperadores iniciantes, e observaremos que, mesmo aí, em assuntos da virtude, a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente enorme.

A antiga lenda de Narciso permanece viva, em nossos mínimos gestos, em maior ou menor porção.

Em tudo e em toda parte, apaixonamo-nos pela nossa  própria imagem.

Nos  seres  mais  queridos,  habitualmente  amamos  a  nós mesmos,  porque,  se  demonstram  pontos  de  vista  diferentes  dos
nossos,  ainda  mesmo  quando  superiores  aos  princípios  que esposamos,  instintivamente  enfraquecemos  a  afeição  que  lhes consagrávamos.

Nas obras do bem a que nos devotamos, estimamos, acima de tudo, os métodos e processos que se exteriorizam do nosso modo de ser e de entender, porquanto, se o serviço evolui ou se aperfeiçoa, refletindo  o  pensamento  de  outras  personalidades acima da nossa, operamos, quase sem perceber, a diminuição do nosso interesse para com os trabalhos iniciados.

Aceitamos  a  colaboração  alheia,  mas  sentimos  dificuldade para oferecer o concurso que nos compete.

Se  nos  achamos  em  posição  superior,  doamos  com  alegria uma fortuna ao irmão necessitado que segue conosco  em condição de  subalternidade,  a fim  de  contemplarmos  com  volúpia  as nossas  qualidades  nobres  no  reconhecimento  de  longo curso  a que  se  sente  constrangido,  mas  raramente  concedemos um sorriso  de  boa-vontade  ao  companheiro  mais  abastado ou  mais forte, posto pelos Desígnios Divinos à nossa frente.

Em  todos  os  passos  da  luta  humana,  encontramos  a  virtude rodeada de vícios e o conhecimento dignificante quase sufocado pelos espinhos da ignorância, porque, infelizmente, cada um de nós, de modo geral, vive à procura do “eu mesmo”.

Entretanto, graças à Bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem,  na  experiência  do  corpo  e  além dela, arrebatando-nos  aos vastos  continentes da  meditação  e  da  humildade, onde aprenderemos,  pouco  a  pouco,  a  buscar  o  que  pertence  a Jesus-Cristo, em favor da nossa verdadeira felicidade, dentro da glória de viver.
 
Livro: Fonte Viva
Chico Xavier/Emmanuel
 
Francisco Rebouças