Solidarity Spiritist Societ

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Poder da Gentileza

Eminente  professor  negro,  interessado  em  fundar  uma  escola  num  bairro pobre, onde centenas de crianças desamparadas cresciam  sem o benefício das letras, foi recebido pelo prefeito da cidade.
O prefeito ouvir-lhe o plano e disse-lhe:
-A lei e a bondade nem sempre podem estar juntas. Organize uma  casa e autorizaremos a providência.
O benfeitor dos meninos desprotegidos considerou:
-Mas doutor, não dispomos de recursos... Que fazer?
-De qualquer modo, cabe-nos amparar os pequenos analfabetos.
Diante de sua figura humilde, o prefeito disse:
-O senhor não pode intervir na administração.
O professor muito triste retirou-se e passou a tarde e a noite daquele sábado, pensando, pensando...
Domingo, muito cedo saiu a passear, sob as grandes árvores, na  direção de antigo mercado.
Ia comentando, na oração silenciosa:
- Meu  Deus  como  agir?  Não  receberemos  um  pouso  para  as  criancinhas, Senhor?
Absorvido na meditação, atingiu o mercado e entrou.
O movimento era enorme. 
Muitas compras. Muita gente.
Certa senhora, de apresentação distinta, aproximou-se dele e tomando-o por servidor vulgar, de mãos desocupadas e cabeça vazia, exclamou:
-Meu velho, venha cá.
O professor acompanhou-a sem vacilar.
À frente dum saco enorme, em que se amontoavam mais de trinta  quilos de verdura, a matrona recomendou:
-Traga-me esta encomenda.
Colocou ele o fardo às costas e seguiu-a.
Caminharam  seguramente  uns  quinhentos  metros  e  penetraram  elegante vivenda, Ela solicitou de novo:
-Tenho visitas hoje. Poderá ajudar-me no serviço geral?
-Perfeitamente –respondeu o interpelado -, dê suas ordens.
Ela indicou pequeno pátio e determinou-lhe a preparação de meio  metro de lenha para o fogão.
Empunhando o machado, o educador, com esforço, rachou algumas toras.
Em seguida, foi chamado para retificar a chaminé.
Consertou-a com sacrifício da própria roupa.
Sujo de pó escuro, da cabeça aos pés, recebeu ordens de buscar  um peru assado.
Pôs-se a caminho, por mais de  dois quilômetros, trazendo o grande prato em pouco tempo.
Logo mais, atirou-se à limpeza de extenso recinto  em que se efetuaria lauto almoço.
Nas  primeiras  horas  da  tarde,  sete  pessoas  davam  entrada  no  fidalgo domicílio.  Entre  elas,  relacionava-se  o  prefeito  que  anotou  a  presença  do visitante da véspera, apresentado ao seu gabinete por autoridades respeitáveis.
Reservadamente, indagou sua irmã, que era a dona da casa,  quanto ao novo conhecimento, conversando ambos na surdina.
Ao fim do dia, a matrona distinta e autoritária, com visível desapontamento, veio ao servo improvisado e pediu o preço dos trabalhos.
-Não pense nisto 
 -respondeu com sinceridade  -,  tive muito  prazer em ser-lhe útil.
No  dia  imediato,  contudo,  a  dama  da  véspera  procurou-o,  na  sua  casa modesta em que se hospedava e, depois de rogar-lhe  desculpas, anunciou-lhe a concessão de amplo edifício, destinado  à escola que pretendia estabelecer.
As  crianças  usariam  o  patrimônio  à  vontade  e  o  prefeito  autorizaria  a providência com satisfação.
O  professor  teve  os  olhos  úmidos  a  alegria  e  o  reconhecimento...  e agradecendo e beijou-lhe as mãos, respeitoso.
A bondade dele vencera os impedimentos legais.
O exemplo é mais vigoroso que a argumentação.
A gentileza está revestida, em toda parte, de glorioso poder.
 
Livro: A Vida Fala I,II e III
Chico Xavier/Neio Lúcio
Francisco Rebouças