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sexta-feira, 1 de maio de 2015

DESAFIOS EXISTENCIAIS

TRANSIÇÃO PLANETÁRIAEmbora  de  nossa  comunidade  pudéssemos  desfrutar  da  luminosidade  do  Sol, sobre a área imensa desolada pairava uma nuvem sombria, pesada, resultante da angustia coletiva,  do  desespero  que  assolava  os  sobreviventes,  da  revolta  que  a  muitos  tomava, enfim,  dos  transtornos  psíquicos  causados  por  aqueles  que  tiveram  a  desencarnação violenta.
Podíamos  ver  as  tempestades  vibratórias  que  produziam  raios  e  relâmpagos ameaçadores  sobre  a  imensa  cortina  quase  negra  que  vestia  a  paisagem  espiritual.  A condensação das energias mórbidas, à semelhança do que acontece na atmosfera terrestre com o choque das temperaturas fazendo desencadear as tormentas, os tornados, sucedia de maneira semelhante na imensa faixa avassalada.
Certamente  essa  psicosfera  perturbava  os  sobreviventes  aflitos  que  mais adensavam os cúmulos escuros e ameaçadores.
Tornava-se um círculo vicioso: as mentes emitindo ondas sombrias e absorvendo os efeitos danosos que pairavam no ar.
A emoção de ternura e compaixão tomou-me e deixei-me arrastar pelas blandícias da oração em favor daquela sociedade atormentada.
Chegou  o  momento  de  retornarmos  aos  labores.  Todos  nos  encontrávamos assinalados  pelo  bom  humor,  pela  alegria  que  se  deriva  do  serviço  fraternal  de  amor  ao próximo, e nossa condução fez-se da mesma maneira como chegáramos sob o  comando do nosso Benfeitor.
Atingida  a  região  do  nosso  destino,  de  imediato  passamos  ao  programa  de assistência  espiritual  aos  irmãos  do  carreiro  da  agonia.  Logo  chamou-me  a  atenção  um Espírito  feminino  que  se  encontrava  sob  terrível  dominação  de  outro,  masculino,  que  se apresentava com aspecto terrível e a explorava psiquicamente de maneira cruel. Totalmente desvairada  e  presa  aos  vestígios  carnais,  a  atormentada  debatia-se  entre  as  sensações  da decomposição cadavérica avançada e a injunção penosa a que era submetida. Podíamos ver o  algoz  que  a  explorava  emocionalmente,  levando-a  a  acessos  contínuos  de  gritos, blasfêmias e loucura.
Enquanto  a  contemplava  presa  ao  corpo  que  tentava  reerguer,  talvez  pensando em fugir à situação penosa, acercou-se-nos uma anciã desencarnada que, lacrimosa e aflita, pediu-nos ajuda, informando-nos ser-lhe a genitora.
Imediatamente, fez um sintético retrato biográfico da infeliz:
—  Minha  filhinha  —  começou  entre  lágrimas  de  resignação  e  débil  voz  —  era vendedora  de  ilusões.  Tornou-se  profissional  aos  catorze  anos  de  idade,  quando  foi consorciada, de acordo com os nossos costumes, com um homem de aparência respeitável e de  caráter  vil,  muito  mais  idoso  do  que  ela.  Os  esponsais  foram  ricos  de  alegria,  porém, passados dois meses, ele a encaminhou a um prostíbulo de luxo de sua propriedade, onde moçoilas inexperientes e sonhadoras vendiam o corpo em volúpias de paixões.
Fez uma pausa, enxugando o pranto, e logo deu continuidade à narração:
— Minha menina foi estimulada à exploração carnal. Recebeu cuidados adequados ao comércio de que iria participar, submeteu-se a uma cirurgia, a fim de evitar a gravidez, e foi treinada em um tipo de dança muito especialmente sedutora.
"Com o passar dos dias e meses tornou-se tão célebre, quanto cínica e debochada, atraindo,  à  casa  festiva,  os  aficionados  da sensualidade  atormentada.  Com  o  desgaste natural,  resultante  dos  abusos  e  pela  necessidade  de  vender-se  mais  e  sempre  mais, derrapou  para  os  infelizes  comportamentos  sexuais  aberrantes  e,  para  tanto,  passou  a consumir drogas terríveis.
"Visitada por mais de uma vez pela minha ternura, já que o seu pai morrera pouco depois do desvario a que ela se entregava, desgostoso, em razão  do choque com a religião que  professávamos,  pois  que  somos  muçulmanos  austeros,  adverti-a  sem  cessar,  não conseguindo  a  mínima  consideração  nem  respeito.  Por  fim,  parecendo  cansada  dos  meus conselhos,  num  momento  de  desequilíbrio  total  expulsou-me  do  seu  bordel  de  luxúria, sempre dirigida pelo maldito explorador: o próprio marido!
"Minha  filha  havia  enlouquecido  por  uma  doença  que  eu  não  conseguia compreender.  De  um  para  outro  momento,  transformava-se,  ficando  tigrina  e  agressiva, perigosa e má, comprazendo-se em atemorizar os servos e mesmo alguns dos clientes,  que lamentavam as suas frequentes mudanças de personalidade, o que os desconsertava no vil conúbio a que se entregavam.
"Sem  que  ninguém  soubesse  o  que  ocorria,  começou  a  emagrecer,  a  definhar, como se fosse sugada nas suas energias por uma força estranha e maléfica sempre cruel.
"As dores morais foram-me superiores às frágeis resistências, e não suportando as angústias  contínuas,  em  razão  do  imenso  amor  dedicado  à  minha  menina,  faleci  vitimada por um ataque cardíaco."
Silenciou, entristecida, olhando o Espírito querido, ainda vitimado pelo seu algoz.
—  Por favor, socorram-na  —  rogou, súplice, de mãos postas e quase ajoelhando-se, no que foi impedida de imediato. Um ser demoníaco toma-a e desgraça-a desde aqueles longes-pertos dias de aberrações.
Não  havia  dúvidas  de  que  a  jovem  dançarina  atraíra  terrível  amante  de  outra existência  que  se  lhe  vinculara  psiquicamente  enquanto  no  corpo  físico,  enciumado  da conduta  que  se  permitia,  passando  a  explorá-la  nos  conúbios  sexuais  de  ocasião  e  de perversão, usurpando-lhe as energias emocionais e, não poucas vezes, tomando -a em surtos obsessivos terríveis.
Examinando o psiquismo do perseguidor, pudemos perceber-lhe os clichês mentais das  mais  chocantes  aberrações,  a  revolta  pela  morte  que  a  dominara  durante  o  tsunami, assim ameaçando-lhe a exploração de energias. Tão profundos eram os vínculos entre um e outro,  perispírito  a  perispírito,  que  ele  se  lhe  imanava  qual  um  molusco  à  concha  que conduz, perversamente ameaçando-a.
Aproximei-me da infeliz e apliquei-lhe energias balsâmicas e calmantes, levando-a a  um  ligeiro  torpor.  Enquanto  isso,  a  mãezinha  orava  as  sutras  do  Corão,  dominada  por emoção compreensível e acompanhando a nossa terapia.
Quando  conseguimos  que  o  Espírito  adormecesse,  demos  início  ao  seu deslindamento  das  vísceras  orgânicas,  o  que  conseguimos  com  o  auxílio  e  a  bondade  de Abdul que veio em nosso socorro. As duas entidades muito ligadas, lembravam-nos um caso de xifopagia espiritual. O malfeitor bradava em alucinação com medo de perder a presa que explorara por alguns anos, enquanto Abdul falou-lhe com ternura e energia sobre o crime que  perpetrava,  informando-lhe  que  a  exploração  infeliz  chegara  ao  fim  naquela oportunidade,  quando  a  morte  os  separaria  e  ele  teria  que  enfrentar  as  consequências nefastas da sua crueldade.
A  conduta  mais  própria  era  adormecê-lo  também,  a  fim  de  ser  providenciado recurso de libertação, quando ela pudesse contribuir com o pensamento e os sentimentos renovados, porquanto a atração mantida era resultado do seu comportamento que facilitara a perfeita identificação entre o plugue nos chakras coronário e sexual e as tomadas do seu agressor.
As  Divinas  Leis  jamais  recorrem  aos  recursos  de  cobranças  comuns  às  criaturas humanas  que  se  comprazem  em  fazer  justiça  mediante  as  concepções  infelizes  a  que  se atêm. Ninguém pode permitir-se o luxo desditoso de recuperar débitos morais e espirituais, colocando-se em posição de vítima, que nunca existe, porquanto, se tal houvesse, deparar-nos-íamos com lamentáveis falhas dos códigos da justiça divina.
Mecanismos próprios de reparação fazem parte das legislações superiores da vida, que jamais falham. Nada obstante, o orgulho e a intemperança daqueles que se consideram prejudicados,  logo  tomam  posições  de  justiceiros  e  encarceram-se  nas  redes  fortes  dos crimes  desconhecidos  pela  sociedade,  porém  jamais  ignorados  pela  realidade  que  sempre terão de enfrentar.
Quando a mãezinha percebeu que a filhinha dormia relativamente em paz, embora alguns estertores naturais, como resultado inevitável das construções mentais arquivadas no inconsciente  e  as  emanações  morbíficas  do  adversário  que  se  mantinha  vinculado,  sorriu feliz e tentou abraçá-la.
Tratava-se,  para  mim,  de  um  caso  muito  especial,  porquanto  era  a  primeira  vez que  observava  o  fenômeno  da  obsessão  que  se  iniciara  durante  a  vilegiatura  carnal, prosseguindo além da morte, sem nenhuma alteração por parte do perseguidor inclemente.
Nessas  ocorrências  lamentáveis,  o  algoz  também  sofria  as  contingências  experimentadas pela sua vítima, em torno do processo de desencarnação.
Explorada  pelo  vingador,  ela  o  intoxicava,  embora  inconscientemente,  com  as emanações de desespero e  de  perda  do tônus vital (animal), da  conjuntura física, que  era absorvido pelo inimigo.
Abdul  providenciou  uma  padiola,  e  amigos  cooperadores  para  o  transporte  de ambos  os  Espíritos  ao  lugar  próprio  que  lhes  estava  destinado,  considerando-se  a especificidade da ocorrência.
Emocionada  pela  felicidade  que  fruía,  a  genitora  expressou-nos  os  seus sentimentos  de  gratidão,  inopinadamente  osculando  nossas  mãos,  o  que  muito  nos constrangeu, considerando-se que o mais beneficiado éramos nós próprios.
A  obsessão  sempre  apresenta  angulações  que  nos  surpreendem,  em  razão  das organizações  mentais  e  espirituais  de  cada  criatura,  variando,  portanto,  de  indivíduo  para indivíduo.
A  observação  desse  fenômeno  perturbador  sempre  nos  convida  a  acuradas reflexões  em  torno  da  conduta  interior  do  ser  humano,  que  sempre  procede  do  campo mental,  a  irradiar-se  em  todas  as  direções,  produzindo  sintonias  compatíveis  com  a  sua equivalência  com  outros  campos  e  áreas  vibratórios  que  propiciam  as  vinculações  por afinidade.
Quando  as  criaturas  compreenderem  que  são  as  responsáveis  por  tudo  quanto lhes  diz  respeito,  certamente  serão  alterados  os  comportamentos  individuais  e  coletivos, elegendo-se aquilo que conduz à harmonia e à felicidade, mesmo que a esforço, em vez do prazer  desgastante  de  um  momento  com  as  suas  consequências  perturbadoras  de  longo prazo.  Na  sua  ilusão  orgânica,  porém,  preferem  a  intoxicação  do  gozo  doentio  até  a exaustão, sem qualquer responsabilidade, agasalhando as ideias absurdas de encontrarem-se  soluções  miraculosas  quando  se  lhes  manifestam  as  consequências  afugentes,  que  são inevitáveis.
Não é de estranhar-se a grande mole que recorre ao Espiritismo, à mediunidade, procurando  solução  milagrosa  para  os  problemas que  engendraram  e  pretendem  ver resolvidos, assim mesmo sem a sua contribuição sacrificial.
A  existência  no  corpo  físico  é  uma  oportunidade  de  aprendizagem  que  a  vida concede  ao  ser  espiritual  no  seu  processo  de  crescimento  interior,  facultando-lhe  os recursos apropriados para que a divina chama que existe em todos alcance a plenitude. De acordo  com  a  maneira  como  cada  um  se  comporte  no  mister,  estará  semeando  as ocorrências  do  futuro,  que  terá  de  enfrentar,  a  fim  de  recompor-se  e  corrigir  o  que  foi danificado.
Cada  reencarnação  é  sublime  concessão  divina  para  a  construção  ditosa  da imortalidade  pessoal.  Escola  abençoada,  a  Terra  é  o  reduto  formoso  no  qual  todos  nos aperfeiçoamos, retirando a ganga pesada do primarismo, que impede o brilho do diamante estelar  do  Espírito  que  somos.  Os  golpes  do  processo  evolutivo  encarregam-se  de  liberar-nos, permitindo que as facetas lapidadas pela dor e buriladas pelo amor reflitam as belezas siderais.  Onde  nos  encontrávamos,  podíamos  notar  as  diferenças  de  conduta  entre  os aflitos,  assinalando  maior  soma  de  desespero  ou  de  equilíbrio,  que  nos  proporcionava auxiliá-los  com  maior  ou  menor  eficiência.  Nem  todos,  porém,  aos  quais  buscávamos socorrer,  conseguiam  ser  liberados,  tão  fortes  se  lhes  faziam  os  laços  da  sensualidade  da vida orgânica distante de qualquer espécie de crença na sobrevivência do Espírito.
Não foi possível divagar mentalmente por mais tempo, porque  o nobre dirigente chamou-nos ao serviço, considerando que novas desencarnações continuavam ocorrendo e os assaltos por Entidades animalizadas se faziam de contínuo.
A  visão  das  ocorrências  post  mortem  surpreendem  mesmo  aqueles  que,  à  nossa semelhança,  se  encontram  na  Erraticidade  há  expressivo  número  de  anos.  A  vida  física disfarça pela aparência o Espírito que habilmente se mascara, procurando demonstrar o que gostaria  de  ser,  mas  tudo  faz  para  não  se  transformar  interiormente  para  melhor.  No entanto, a realidade que o caracteriza, desmistifica-o durante o processo da desencarnação, ocorrendo  conforme  cada  um  é  e  de  acordo  com as  suas  possibilidades  de  recuperação  e reequilíbrio.
As  paisagens,  portanto,  próximas  à  fronteira  do  túmulo,  são,  normalmente, afugentes,  exceção  daquelas  que  acolhem  os  Espíritos  que  se  esforçaram  para  viver  de acordo com os padrões do dever, do respeito ao próximo e à vida, mesmo que sem qualquer filiação religiosa. O importante é a conduta que se vivência e não a crença que se esposa.
Nada  obstante,  a  religião,  quando  liberta  da  ignorância,  destituída  de  fantasias  e  de superstições, caracterizando-se pela lógica e pela razão, é via sublime de acesso à liberdade plena,  pelo  que  proporciona  de  lucidez  e  esclarecimento,  auxiliando  o  viajor  a  melhor contribuir em favor do próprio êxito na jornada imortalista.
Não  havia,  porém,  tempo  para  mais  amplas  reflexões  e,  ao  chamado  para  o trabalho, dispusemo-nos alegremente ao serviço estabelecido.

Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda

Francisco Rebouças