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terça-feira, 17 de março de 2015

O AMOR COMO FORÇA DIVINA

Prosseguíamos  na  atividade  por  quase  vinte  horas  ininterruptas  e  preparávamo-nos para o retorno à nossa comunidade espiritual para um breve repouso.

Abdul  silenciara  o  seu  canto  oracional  e  se  encontrava  em  profunda  meditação, permitindo-se  irradiar  diáfanas  energias  que  diluíam  lentamente  a  densa  treva  que  o archote conduzido por Ana iluminava parcamente.

Nesse  momento,  aproximou-se  um  grupo  de  Espíritos  agressivos  como  uma organização  de  bandidos  desencarnados,  quando,  um  deles,  que  parecia  o  chefe,  bradou, estentóreo, interrogando:
— Quem é o responsável pela invasão desta área?

Dr.  White  aproximou-se  sem  alarde  e  explicou  que  ele  era  o  encarregado  de realizar  o  labor  de  atendimento  àqueles  desencarnados  em  aflição,  acompanhado  pelos amigos que o assessoravam. Elucidou que não houvera acontecido qualquer tipo de invasão, considerando-se que aquela era uma terra de ninguém, desde quando fora vergastada pela tragédia coletiva que sobre ela se abatera.

Não  pôde  prosseguir,  porque  o  arrogante,  que  se  vestia  de  maneira  típica  das gangues regionais das grandes urbes, cortou-lhe a palavra com grosseria:

—  Pois saiba que esta área a mim me pertence, portanto, tem proprietário, desde muito  antes  do  a  que  você  se  refere  como  catástrofe.  Fui  informado  por  um  dos  meus subalternos, vigilante a meu soldo, sobre as ocorrências que me interessam e que daqui foi enxotado,  fazendo-o  correr,  esclarecendo-me  que  estranhos  invasores  de  outro  lugar haviam-se apossado do nosso território.

"Chamado  nominalmente  para  resolver  a  prebenda,  venho  com  os  meus servidores exigir-lhes o abandono das ações não solicitadas."

Calmamente, o médico respondeu que aí se encontrava atendendo ao apelo dos Guias espirituais do país, que haviam recorrido à ajuda de todos quantos o desejassem, de ambos  os  planos  da  vida,  a  fim  de  serem  diminuídas  as  aflições  defluentes  da  tragédia coletiva. E esclareceu:

—  Seu apelo havia chegado à nossa comunidade, conforme ocorrera com muitas outras, quando se ouviu o som de uma corneta que tocava a música Silêncio, expressando a dor que se abatia sobre milhares de vidas no planeta terrestre.  Apresentamo-nos ao nosso governador  e  fomos  autorizados  a  participar  do  ágape  da  solidariedade  com  os  irmãos sofredores que estamos atendendo.

—  Isso,  porém  —  interrompeu-o  novamente  com  atrevimento  —  não  justifica  a sua  e  a  intervenção  nefasta  dos  demais,  estrangeiros  que  são,  em  nossos  negócios, desconhecedores dos nossos hábitos e costumes. Desde a época da colonização holandesa aqui,  através  da  Companhia  das  índias,  no  século  XVI,  que  nos  rebelamos,  os  nacionais, contra os invasores de nossas  terras.  Timor Leste, dominada pelos portugueses, há séculos, ainda se encontra atravessada em nossa garganta.  A morte não nos interrompeu os ideais libertários,  e  embora  tenhamos  retornado  ao  solo  amado,  pelos  renascimentos  corporais, volvemos  às  origens,  para  daqui  defendermos  os  nossos  direitos  de  construir  a nacionalidade com as nossas próprias emoções.

"Assim  sendo,  continuaremos  a  libertar  nosso  povo  que  tem  sido  vítima  da intervenção alienígena, pagando qualquer preço. Não há muito, governos perversos e piores do  que  nós,  entregaram-nos  ao  ocidente,  em  cuja  interferência  teve  papel  destacado  o Japão,  gerando  mais  infelicidade  e  enriquecimento  ilícito  dos  seus  chefes,  tanto  o  que dominava  antes,  quanto  aquele  que  o  derrubou  ferozmente,  sem  nenhuma  consideração
pelos ideais nacionais.

"Somos,  portanto,  nós,  os  indonésios,  que  temos  o  direito  de  aplicar  a  justiça, através dos nossos métodos disciplinadores e punitivos, naqueles que são expulsos do corpo pelo fenômeno da morte."

—  Compreendo  a  sua  colocação  patriótica  —  informou  o  nobre  mentor  —  no entanto,  as  fronteiras  a  que  você  se  refere  ficaram  na  geografia  terrestre  que  não  é abrangida por esta área, afinal todas de propriedade divina.

"Ouvindo-se o amigo expor o seu pensamento, tem-se a impressão de tratar-se de um  benfeitor  do  povo  sofrido,  quando  em  verdade  é  um  explorador  impenitente  das energias dos trânsfugas que lhe tombam nas armadilhas perversas, sendo arrastados para os lugares de profundo sofrimento, distantes da esperança e da misericórdia. A isso chama de justiça, de disciplina? Como se atreve a tomar a adaga da justiça real nas próprias mãos, se ainda  não  consegue  dominar  os  ímpetos  asselvajados  que  lhe  constituem  o  caráter enfermo?

"Aqui estamos a convite dos reais governadores do país, portanto, dos respeitáveis embaixadores de Deus, com o objetivo de desalgemar os irmãos infelizes dos seus despojos e libertá-los dos vampiros do Além-túmulo, e tenha certeza de que não arredaremos pé dos nossos  compromissos,  confessando-lhe  que, de  maneira  alguma,  temos  medo  das  suas ameaças e da farândola que o acompanha temente e assustada."

O estúrdio expressou o ódio que o dominava, arengando:

—  Essa tarefa pertence-nos a nós, que utilizamos  os nossos métodos conforme as leis  que  vigem  cá,  sem  a  necessidade  de  qualquer  contributo  de  violadores  dos  direitos alheios.
 
Saberemos expulsá-los dentro de alguns minutos.

Com a expressão asselvajada, segurando um feroz mastim e aplaudido pela malta insana, que tocava tambores e sons estranhos com tubos perfurados, impôs, ríspido:

—  Agora  suspendam  as  ações  e  acabem  com  os  seus  arenzéis,  batendo  em retirada. Deixem os nossos pacientes aos nossos cuidados, conforme sempre sucedeu, pois que sabemos tomar conta de todos eles.

E gargalhou sardônico, esfogueado, transtornado.

Sem  apresentar  qualquer  emoção  perturbadora,  Dr.  White  enfrentou-o, elucidando:

—  O caro amigo encontra-se totalmente equivocado a nosso respeito, porquanto não  o  tememos  e  menos  o  obedeceremos.
 
  Iremos  prosseguir  em  nossa  faina  fraternal  e ficaríamos,  aliás,  muito  gratos,  se  o  seu  grupo  se  diluísse,  e  aqueles  que  o  desejarem queiram auxiliar-nos na empresa em que nos encontramos envolvidos.

O carrasco zombou, cínico, e arremeteu, furibundo:

— Atacar! Dizimemos os impostores e ladrões!

Como se aguardasse essa reação, o nobre médico concentrou-se profundamente diante  dos  agressores  e,  naquele  horrendo  chavascal,  transformou-se  numa  lâmpada esparzindo claridade que fez estacionar a horda que erguia os seus instrumentos de guerra:
flechas, azagaias, lanças e outros de apresentação exótica.

Tomados  de  surpresa,  ouviram  sua  voz  profunda  e  melodiosa,  enérgica  e poderosa, no seu próprio dialeto:

—  Arrependei-vos  e  dobrai-vos  à  vontade  do  Senhor  dos  Mundos.  Chega  o momento,  em  vosso  desvario,  que  somente  se  apresenta  uma  alternativa  para  escolher:

abandonardes o ódio e a perseguição desditosa para abraçardes o amor. Escoam-se os anos e permaneceis hostis ao Bem e à Verdade. Vossa impiedade transborda,  e vossa loucura, ao invés de  inspirar  temor  ou  ódio,  provoca  a  compaixão.
 
Decênios  se  passaram  desde  que aderistes  à  loucura que cultivastes  nos  regimes  da  impiedade  que infelicitou  vosso povo, transferindo-o para além-da-morte, de modo que permanecestes sicários dos vossos irmãos igualmente infelizes,  a  salvo  da  vossa  crueldade  e  loucura. 
 
Ouvi-me!  Sou  a  voz  da  vossa consciência  anulada pela desesperação,  que  perdeu  o  uso  da  razão,  mas que necessita libertar-se.  Agora  é  o  vosso  momento  de  alegria e  emancipação.  Silenciai  o  ódio  nos sentimentos, deixai o medo dos infelizes que vos intimidam e vinde para as nossas fileiras, as do Bem.

Enquanto a voz, firme e doce, penetrava a acústica das almas, vimos cair sobre o tremedal  bátegas  de  luz,  não  mais  os  raios  destrutivos  de  antes,  e  que  tocando  aqueles rebeldes  penetrava-os,  provocando  mudanças  interiores,  levando-os  ao  pranto  e  a exclamações lamuriosas.

—Libertai-vos do mal — prosseguiu o instrumento da Verdade — e adotai o amor a vós mesmos, inicialmente, para depois poderdes amar o vosso próximo e, por fim, a Deus.

Sois todos, como nós outros, filhos do mesmo Pai Generoso que vos espera compassivo. Este é  o  vosso  momento  de  renovação,  aproveitai-o  com  decisão  e  coragem  de  romper  as amarras da ignorância e da perversidade que vos têm infelicitado por tão largo período.

Ao silenciar, num clima psíquico e emocional superior, os desditosos atiraram ao solo as armas que brandiam e, dominados pela força do amor, pediam amparo e adesão à nossa  hoste,  passando  para  o  lado  em  que  nos  encontrávamos,  subitamente  envolto  pela claridade suave que se dilatava do Mensageiro da Luz.

Blasfemando,  o  chefe  do  grupo  ordenava  que  soltassem  os  cães  contra  os desertores e nós outros, ou que disparassem os seus dardos e flechas, inutilmente, porque a debandada foi geral.

À  medida  que  mudavam  de  lado,  atirando-se  aos  nossos  braços  acolhedores, dilatava-se  a  faixa  vibratória  defensiva  que  nos  resguardava  de  qualquer  tipo  de  agressão externa.

—  Vinde, também, vós que estais sedentos de luz e de amor —  dirigiu-se ao chefe aturdido.

Nada obstante, apresentando a fácies de horror, o desditoso comandante  emitiu um estranho ruído e, num esgar pouco comum, após tremer como varas verdes, foi tomado por uma convulsão semelhante à epiléptica, estertorando, e tombou, literalmente, no solo.

Alguns  dos  seus  subordinados,  que  seguravam  os  cães  e  os instrumentos  de guerra,  aparvalhados  com  o  que acontecia, debandaram  em  ruidosa  correria,  gritando desesperadamente.  Logo após, fez-se silêncio, somente interrompido pelo aluvião do choro convulsivo dos candidatos à renovação.

Suavemente, o Guia retomou a postura anterior e, bem-humorado, afirmou:
— Jesus sempre vence!

"Temos  muito  serviço  pela  frente.  Recambiar  os  nossos irmãos assustados  à comunidade própria para agasalhá-los, é o nosso dever.

"Irei recorrer ao auxílio de outros grupos especializados neste tipo de  socorro, que operam nesta área.

"O amor é força divina que sempre triunfa!"
 
Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
 
Francisco Rebouças