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terça-feira, 7 de setembro de 2010

ANTE À DOR


Quando a alma mergulhou na carne referta de vibrações, desejou transmitir tôda a musicalidade que conduzia virgem, e para que o tumulto do ambiente não lhe perturbasse a evocação, perdeu, paulatinamente, os registros auditivos para somente escutar nas telas da mente os acordes sublimes da natureza e de Deus — e Beethoven ficou surdo!

Para expressar a melancolia suave e a pungente saudade de algo que não se pode identificar, Chopin experimentou a amargura do coração perdido entre desejos e decepções.

Destinado a ferir as cordas da emoção e tangê-las com habilidade, o espírito retornou ao palco de antigas lutas para defrontar-se com inimigos acirrados e vencê-los através da auto-doação, enchendo a Terra de musicalidade superior. Inquieto, todavia, fraquejando sem cessar, Schumann deixou-se arrastar pela caudal da obsessão, conquanto fizesse incomparável legado, através do Lied e das nobres melodias para piano -

Oh! dor bendita, libertadora de escravos, discreta amiga dos orgulliosos, irmã dos santos, mensageira da verdade, tanto necessitamos do teu concurso, que se nos afiguras um anjo caído, a serviço da misericórdia para sustentar-nos na luta redentora! Ensina-nos a descobrir a rota da humildade para avançarmos com acerto.
A dor é a mensageira da esperança que após a crucificação do Justo vem ensinando como se pode avançar com segurança. Recebamo-la, pacientes, sejam quais forem as circunstâncias em que a defrontemos, nesta hora de significativas transformações para o nosso espírito em labor de sublimação.

O sofrimento de qualquer natureza, quando aceito com resignação — e toda aflição atual possui as suas nascentes nos atos pretéritos do espírito rebelde — propicia renovação interior com amplas possibilidades de progresso, fator preponderante de felicidade.

A dor faculta o desgaste das imperfeições, propiciando o descobrimento dos valiosos recursos, inexoráveis, aliás do ser.

Após a lapidação fulgura a gema.

Burilada a aresta ajusta-se a engrenagem.

Trabalhado, o metal converte-se em utilidade.

Sublimado pelo sofrimento reparador o espírito liberta-se.

“De tal modo brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos Céus.

Mateus: capítulo 5º, versículo 16.

“Daí se segue que nas pequenas coisas, como nas grandes, o homem é sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal”.

Capítulo 5º — Item 5.

Livro: Florações Evangélicas
Divaldo franco/Joanna de Ângelis
 
Francisco Rebouças