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domingo, 10 de janeiro de 2010

O ESPIRITISMO E SUA HORA - A HORA DA OBRA DE KARDEC

Caros amigos, é com muita alegria que trazemos ao conhecimento de todos o presente artigo de autoria do nosso amigo e conhecido articulista espírita ACHILLES ROMANATO PANDINI,  de Jundiaí/SP. Nossos votos de que ele seja muito bem vindo!

ARTIGO:
O Espiritismo surge no momento em que os homens já possuem as condições intelectuais e morais para o entendimento de sua filosofia. A aquisição cultural necessária atravessara todo o milênio medieval. Fora a luta entre a fé cega e a razão, entre o crer e o saber. A libertação das mentes só ocorre com o movimento da renascença, quando finalmente a razão supera a crença, libertando as pessoas do jugo da fé cega, pregada e imposta pela religião oficial. E coube a René Descartes, com o livro “Crítica da Razão Pura” marcar o momento do rompimento com o dogmatismo escolástico. A liberdade de pensar, os ra-ciocínios com lógica estão postos. Como nestes Reinos de Deus tudo se encadeia e res-peita o tempo de amadurecimento de cada um, o episódio que marca a libertação total do pensar diante do dogmatismo ocorre em 1793, 156 anos após o livro de Descartes, com a tomada da Catedral de Notre Dame em 10 de Novembro, por Pierre Gaspar Chaumette, entronizando a bailarina Candeille, do Ópera de Paris, que chegara à Ca-tedral sobre um andor, vestida de azul, barrete frígio na fronte, antecedida de um cortejo de moças vestidas de branco, portando faixas tricolores. Era a entronização da RAZÃO, estabelecendo-se uma nova religião, a Religião da Razão, substituindo a religião tradici-onal. É evidente que isso custou a vida a Chaumette, guilhotinado em 1794, mas o fato em si representou a vitoria do homem sobre o mito e a lenda. Desde a publicação de Descartes a mente humana não para de perquirir e sua ideia básica, questionar, desmon-tar os conceitos estabelecidos (des-construção), para reconstruí-los seguindo um raciocí-nio lógico passa a ser aplicado às atividades intelectuais, gerando novos conceitos, liber-tos do misticismo, das superstições e dogmatismos fideístas. Estabelece-se dessa forma o clima necessário ao advento da nova Doutrina, o que se consolida em Abril de 1857 com a publicação de “O Livro dos Espíritos” por Allan Kardec. O caminho percorrido para a intelectualização fora longo e penoso, cheio de perseguições e acusações cruéis e infa-mantes, mas a liberdade do Espírito estava lançada definitivamente.
E o Espiritismo é o triunfo decisivo da razão sobre o místico, o irracional, e o dogmático. Por isso pode Kardec afirmar:

- “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as etapas da humanidade”.

Encontramos suas bases já nas linhas iniciais, na introdução do livro, e especificamente no item VI, no qual é apresentado um resumo da Doutrina. Temos as razões que fazem do Espiritismo uma inabalável, porque acima de tudo racional, fazendo seus seguidores “entenderem”, “compreenderem” os fundamentos filosóficos e não apenas acreditarem porque alguém disse, alguém esse, que se autonomeia único representante da divindade no mundo. Vejamos alguns conceitos:

- “Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo poderoso, soberanamente justo e bom”;

Note o leitor, aqui o conceito de DEUS é filosófico, não cabendo a visão antropomórfica tão divulgada pelas religiões convencionais, tornando o Criador um ser semelhante a nós, suas criaturas. Sendo filosófico, nos faz entender que a maravilha que é o Univers o vislumbrado por nós aqui da Terra só pode existir em havendo um Criador, um “Ser Supremo”. A partir desta conceituação, podemos passar a dizer que sabemos que Deus existe. Deixa de ser uma questão de fé, crença, para passar a ser um “conhecimento”. A dúvida, tantas vezes presente, simplesmente desaparece... “Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal e os seres imateriais o mundo invisível ou espírita, ou seja, dos Espíritos”; A grande dúvida do ser humano (morreu, acabou?) aqui se dilui. Aquilo que a lógica, o raciocínio ou mesmo o instinto nos dizia, Kardec nos esclarece de vez. Acabam-se os misticismos do céu, inferno e purgatório. E de qualquer outra coisa que se queira inventar a respeito. O Espírito não é mais algo que se imagina, ou se cria, mas um ser existente...

“Entre as diferentes espécies de seres corporais Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a um certo grau de desenvolvimento, o que lhes dá superioridade moral e intelectual perante as demais”; A escolha pela lógica, pois o corpo do ser humano é o único, dentre as várias espécies corporais, que tem condições de permitir a manifestação da inteligência, do raciocínio continuado. Já aqui denota-se o conceito de evolução com a expressão “certo grau de desenvolvimento”, e da responsabilidade com “superioridade moral e intelectual”, colocando-nos em nosso lugar, como responsáveis pelos nossos atos.

“A alma é um Espírito encarnado e o corpo é apenas o seu invólucro”;
Completa-se aqui o raciocínio dos mundos visível e invisível. Os participantes do mundo invisível encarnam-se, e tem em seu corpo, um envoltório, um instrumento do qual se valem para suas tarefas. Tal definição trazemos instintivamente, pois afinal de contas somos Espíritos. Coloca-nos ainda uma pedra em nosso raciocínio, como “o corpo é apenas invólucro do Espírito?” Só se pensarmos em que o mundo dos Espíritos é o verdadeiro mundo, e naturalmente, em reencarnação...

“A alma tinha sua individualidade antes da encarnação e a conserva após a separação do corpo”; “No seu regresso ao mundo dos Espíritos a alma reencontra todos os que conheceu na Terra e todas as suas existências anteriores se delineiam na sua memória, com a recordação de todo o bem e de todo o mal que tenha feito”;
Aqui o raciocínio se fecha. A individualidade, o indivíduo, não a personagem, é preexistente à encarnação. Encarna-se tal qual é. Com as limitações que possui, e ao retornar à espiritualidade, pela morte do corpo físico, conserva com suas limitações, a individualidade que possuía antes da encarnação. Daqui uma ilação - Se eu continuo o mesmo ser que era antes da encarnação, eu não morro, o que morre é apenas o meu corpo...
Outra ilação - Se eu reencontro os meus após a morte do corpo físico, eu estava com eles antes de encarnar...
Então eu tenho uma família no mundo dos Espíritos.... Mais uma - Recordar todo o bem e todo o mal que se tenha feito deve dar uma satisfação muito grande no caso do bem praticado; e “dor de consciência” no caso do mal praticado... E aí, naturalmente, querer-se-á reparar o mal praticado. É o lógico.

“Os Espíritos são atraídos na razão de sua simpatia pela natureza moral do meio que os evoca”; Nosso cotidiano nos diz que esta afirmação é correta, pois agimos da mesma maneira. Agrada-nos apenas a companhia de pessoas às quais nutrimos, com reciprocidade, algum tipo de simpatia e afinidade. E também aquelas com as quais temos interesses em comum, o que gera, pelo menos temporariamente, uma empatia. Interesseira, bem verdade, mas ainda uma empatia. Se a convivência iniciada desta maneira gerar confiança mútua, resultará em amizade, cuja convivência será buscada. Se assim é conosco, Espíritos encarnados, somente assim poderá ser, com os desencarnados.

“Distinguir os bons e os maus Espíritos é extremamente fácil. A linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, cheia da mais alta moralidade, livre de qualquer paixão inferior, seus conselhos revelam a mais pura sabedoria e têm sempre por alvo nosso progresso e o bem da humanidade. A dos Espíritos inferiores, é inconsequente, quase sempre banal e mesmo grosseira; se dizem às vezes coisas boas e verdadeiras, dizem com mais frequência falsidades e absurdos, por malícia ou ignorância; zombam da credulidade e divertem-se à custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade e embalando-lhes os desejos com falsas esperanças”.

Como pode ver nosso leitor, estes poucos conceitos aqui transcritos já nos dão uma ideia da lógica que a Doutrina Espírita contem. Ela nos dá razão de ser para todos os momentos de nossa vida, tanto encarnado como desencarnado. A obra de Kardec significa a libertação da alma humana dos vínculos escravizantes do misticismo e do dogmatismo. A liberdade do Espírito. A obra de Kardec significa, finalmente a descoberta de sermos Espíritos em evolução, livres em nossas ações, e responsáveis por elas.

(Fontes - O Espírito e o Tempo, J. Herculano Pires - Edicel - 4ª edição - 1982; O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - Trad. J. Herculano Pires - LAKE - 57ª edição - 1997)

Francisco Rebouças