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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Coluna - Reflexão

PAIXÃO E AMOR


907. Será substancialmente mau o princípio originário das paixões, embora esteja na natureza?

R. “Não; a paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as paixões podem levá-lo à realização de grandes coisas. O abuso que delas se faz é que causa o mal.”

(Livro dos Espíritos)

“As paixões são alavancas que decuplicam as forças do homem e o auxiliam na execução dos desígnios da Providência. Mas, se, em vez de as dirigir, deixa que elas o dirijam, cai o homem nos excessos e a própria força que, manejada pelas suas mãos, poderia produzir o bem, contra ele se volta e o esmaga.”


(Comentários de Allan Kardec à resposta da questão nº 908, do Livro dos Espíritos)

Contrariamente ao que muitos de nós pensamos, a paixão, em determinada fase do processo evolutivo, foi essencial ao avanço do Espírito, instrumento divino para a busca da sobrevivência.

Assim, as paixões que dominam as criaturas humanas são resultado das heranças instintivas dos primórdios de sua evolução quando não tinham a razão e o discernimento para compreenderem os valores ético-morais.

No entanto, a medida que o senso moral foi se desenvolvendo, surgiu a necessidade de administrar as emoções violentas para bem viverem em sociedade.

O surgimento do respeito aos direitos do outro, lentamente deu margem à educação das tendências perversas e insanas, que passaram a ser direcionadas com objetivos mais elevados, além da necessidade de conviver socialmente de forma mais harmônica para uma melhor qualidade de vida.

Conta-nos o Espírito Joanna de Ângelis, no Livro Lições para a Felicidade, em seu Capítulo 27, que:

As paixões, em si mesmas, são neutras, porque procedem das heranças atávicas. O uso que se lhes dá é que responde pelas conseqüências felizes ou destrutivas de que se revestem.


Ninguém pode viver sem as paixões, que lhe constituem parte do ser que é, em trânsito para a realidade espiritual. Enquanto viceje a carne, ei-las impulsionando, numa como noutra direção, dignificante ou perturbadora, conforme a sua estrutura emocional.


A cada um, portanto, cabe o dever de as bem conduzir, assim adquirindo autocontrole e conseguindo as metas dignificantes a que se propõe. (...).


O ser humano marcha para a saúde plena, e as paixões que nele remanescem devem ser encaminhadas para os ideais de crescimento interior e de realização externa, ampliando os horizontes de felicidade do planeta. (...).”
Por trazermos intrinsicamente em nosso ser as paixões, inevitavelmente, as transferimos, quando deseducadas, para as nossas relações afetivas, desestruturando-as.


O Espírito Joanna de Ângelis, ainda no livro anteriormente mencionado, em seu capítulo 26, comenta que “ o desenvolvimento da afetividade decorre do amadurecimento psicológico do ser que cresce, a esforço moral, ampliando a capacidade de entendimento emocional e cultural. Nem sempre porém, resulta da aquisição de cultura, mas sim da perfeita harmonia entre sentir e saber, de modo que se possam evitar os distúrbios que, não raro surgem durante o processo de evolução.

Temos que aprender a diferenciar o real sentimento do amor com o desejo, o interesse, a paixão. A verdade é que quando as emoções surgem em volúpia, ante o encontro com outra pessoa, e é para este tipo de afetividade que vamos direcionar as nossas reflexões, produzindo impacto de alta pressão, que se transforma em desejo, esse não é um real sentimento de amor, mas sim de paixão. E, nesse sentido, o Espírito Joanna de Ângelis, no mesmo capítulo 26, do Livro Lições para a Felicidade, esclarece que “a paixão, invariavelmente, é um fenômeno de transferência psicológica, mediante o qual o indivíduo se deslumbra, por si mesmo, refletido naquele que o atrai e lhe provoca encantamento. (...). No começo o relacionamento é intenso, a admiração é constante, porque a imagem projetada inspira todo esse encantamento e interesse. A medida, porém, que a convivência demitiza o sobrenatural da afetividade desequilibrada, a realidade assume o inevitável papel de controle das emoções, e o despertamento traz o desencanto e a amargura que passam a conviver com os parceiros, quando não o desentendimento, a agressividade, a violência, o crime... Normalmente, após o estabelecimento de qualquer fenômeno de paixão afetiva, surgem o acordar da consciência e o conflito de comportamento, que levam a sofrimentos que poderiam ser evitados, caso se houvesse agido com eqüidade e maturidade psicológica. Esse tipo de arrebatamento que conduz ao imaginoso, à fantasia, ao mítico, atribuindo virtudes e belezas a outrem, que os não possui, de um para outro momento, é como o fogo-fátuo, de efêmera duração, sendo efeito da combustão de gases que evolam dos cemitérios e pântanos, que brilham e logo desaparecem...”

Não há como não se concluir que o móvel de nossa afetividade ainda é a paixão.
Somos convidados constantemente em razão dos desastres emocionais que provocamos em nós mesmos e em nosso próximo, ao amadurecimento psicológico, iniciando-se pela conquista de nós mesmos (autodescobrimento), educando emoções, estudando para entender melhor a vida, a forma como nos comportamos nos grupos sociais em que vivemos, processo que deve começar pela estruturação de nossa mente, observando o que pensamos, o que buscamos, quais são nossas aspirações, o nosso projeto superior de vida. Sim... porque quem lê estas singelas ponderações, já é alguém que busca outros valores, que não são só os materiais; é alguém que acredita na imortalidade da alma, na destinação para a qual todos fomos criados, ou seja, é alguém que se sente sensibilizado para a vivência dos valores reais do Espírito, de que Jesus foi e é o grande mensageiro.

O amor é dúlcido, sem violência nem arroubos desesperados, que incendeiam e aniquilam. A sua mensagem é real, sem o imaginário do desequilíbrio nem do fantasioso, constituindo estímulo para quem ama sem sofrer desgaste, tanto quanto para o ser amado que não se submete.


Na paixão sempre existem os componentes da dominação, do ciúme, da insegurança, do desespero, enquanto que, no amor, todo sentimento se enriquece de paz e de alegria, construindo o futuro a dois, sem perda da identidade nem da personalidade de qualquer um deles.


Enquanto a paixão é feita de impulsos imediatistas e extravagantes, o amor se expressa pela ternura e pela confiança, contribuindo para o crescimento moral do indivíduo, que avança no rumo de mais altas aquisições.


Na raiz de muitas conquistas do gênero humano encontra-se uma admirável história de amor, que não se desfaz em tragédia nem se despedaça no fragor dos desentendimentos afetivos.


O ser humano é convidado pela vida ao encontro da própria alma, à conquista do seu espaço interior, que não pode ser violado por ninguém, e o amor é o inspirador dessa viagem de segurança, que faculta o descobrimento da realidade e o equipa com instrumentos próprios para administrá-la de maneira eficiente a serviço do progresso moral e da plenitude.


Sob a inspiração do amor a alma é conquistada, mas, por outra forma, a alma não pode prescindir dos estímulos do amor.


Eis porque se pode asseverar que o amor é de conteúdo divino, enquanto que a paixão é uma conseqüência dos tormentos humanos.


A paixão se nutre dos desejos que defluem do magnetismo sexual, enquanto que o amor é fruto do amadurecimento psicológico e do discernimento espiritual.


A paixão é rápida e deixa escombros, enquanto que o amor é duradouro e oferece sementeira de bênçãos. (...)


A grande paixão de Jesus é a criatura humana, mas as paixões humanas, normalmente são caracterizadas pelos instintos e desejos desenfreados, exceto quando direcionadas para as construções do bem e do amor em qualquer lugar onde se apresentem.”


(do Livro Lições para a Felicidade, cap. 26, psicografia de Divaldo Pereira Franco, do Espírito Joanna de Ângelis)

Todos nós, indistintamente, aspiramos amar e ser amados, contudo, é preciso repensar o que temos feito dos nossos sentimentos. Quantas vezes nos sentimos decepcionados, frustrados e desiludidos com o amor ? Quantas vezes atribuímos os supostos insucessos nesta área ao nosso parceiro, a vida, ao azar, a nossa estrela que não brilha ? Em que situações voltamos o olhar para nós mesmos e procuramos verificar o que precisa ser melhorado, ou até completamente reformulado em nosso jeito de ser ? Em que momento paramos para repensar os valores que nos motivam ao interesse por alguém e mesmo aprender com o que não deu certo ?

Estamos na era do corpo escultural, da beleza física, dos bens materiais, do consumismo, dos ditos prazeres do mundo que não se pode perder sob pena de não se viver. Será ? Será que se perde alguma coisa por não aderir ao modismo de um mundo extremamente materialista, que não está nem um pouco preocupado com o bem estar íntimo de seus habitantes mas unicamente com as moedas que podem ser gastas em momentos rápidos e ilusórios de prazer ?

O que pode ser mais precioso do que ter felicidade, paz e serenidade íntimas, sentir-se plenificado e interiormente preenchido ? Que dinheiro pode comprar equilíbrio e que momento de prazer vale a conquista destas aquisições interiores ?

De fato, é uma questão de escolha... Escolher o real e duradouro ou o imaginário, fugaz, passageiro.

Claro que a luta é grande. Conquista é conquista, principalmente quando se refere ao nosso mundo íntimo, quando diz respeito a milênios de trevas e uma réstia de luz.

Precisamos investir mais em nossa iluminação interior. Traçar metas, projetos de vida, insistir neles, perseverar... Afinal, somos Espíritos Imortais, criados para aurir da felicidade real, da alegria sincera, do amor incondicional.

Caros leitores, talvez se perguntem intimamente: mas, isto é muito difícil, fora de nossa realidade, tenho tantos defeitos... Digo que todos temos muitos defeitos mas eles não podem ser mais justificativa para que nos mantenhamos na inércia, na preguiça, no comodismo de sempre.

Devemos acordar todos os dias e ao agradecer por mais uma oportunidade de aprender no mundo, pensarmos o que podemos melhorar hoje, o que não vamos repetir mais. Isto é viver!!!!

Penso que se conseguirmos buscar respostas para tantas indagações, descobriremos, com certeza, um roteiro seguro por onde haveremos de trilhar com mais sucesso espiritual, muito mais paz, muito mais felicidade ...

Que Jesus, o Mestre de Nazaré, possa fortalecer-nos para a luta contra nós mesmos, dando-nos coragem para agir nos momentos certos, fé, esperança e confiança em sua assistência que se faz sempre presente.

Muita luz e amor no coração.

Perseverar é o grande segredo.

Autora: Nadja Cruz de Souza


Francisco Rebouças