Nos atuais dias turbulentos, aumenta, assustadora e
consideravelmente, o número dos indivíduos que se negam a viver,
a enfrentar os desafios e as dificuldades, fugindo por meio da
ingestão de drogas alucinógenas, do álcool, dos excessos
desvigorantes, ao prosseguimento da existência corporal.
Ao lado desses programas de autodestruição, surgem os casos
dos suicídios psicológicos, nos quais as vítimas se enredam nas
teias da depressão, da paranoia, da psicose, da esquizofrenia, sem
valor moral para enfrentar os problemas e dificuldades que fazem
parte da vida.
O suicídio é o ato sumamente covarde de quem opta por fugir,
despertando em realidade mais vigorosa, sem outra alternativa de
escapar.
A vida não se consome na morte física e o fenômeno biológico
não é a expressão real do ser.
Como consequência, o ex-suicida reencarnado sempre traz
as matrizes do crime perpetrado, sofrendo contínua tentação de
repetir o delito, quando defrontado por dificuldade de qualquer
natureza.
A consciência de responsabilidade e segurança não é brindada
por automatismo, antes é adquirida a esforço pessoal ingente. Essa
aquisição não é lograda de um golpe, mas no dia a dia, no hora a
hora, através dos pequenos até alcançar os grandes lances.
O indivíduo deve optar por si mesmo, como escreveu
Kierkegaard, o filósofo e teólogo dinamarquês do século XIX.
Optar por si mesmo significa o resultado de uma análise
cuidadosa da vida e das suas finalidades extraordinárias,
representando um esforço para viver, para descobrir-se que existe,
e nada, jamais, pode destruir a sua realidade.
Descobrir-se como se é, e aceitar-se, constitui a opção por si
mesmo, trabalhando-se para novos e futuros logros que levam ao
cumprimento do seu destino de ser pensante, facultando o
discernimento de realizar as suas aspirações fundamentais,
essenciais.
É cômodo e trágico fugir psicologicamente da vida, jamais o
conseguindo realmente.
O homem faz parte de um conjunto harmônico que constitui a
Criação. A sua inarmonia dificulta a ordem, o equilíbrio geral, que
ele deve esforçar-se por não desorganizar.
O egoísmo, filho da imaturidade, torna-o exigente quão ingrato,
levando-o à rebeldia quando contrariado nas suas paixões infantis,
o que lhe propicia as distonias psicológicas e os primeiros
pensamentos a respeito do suicídio.
Por outro lado, aparecem indivíduos que se aferram aos
objetivos que se lhes representam como vida: amar
apaixonadamente alguém, cuidar de outrem, dedicar-se a um
labor, a uma tarefa artística ou não, a um ideal ou a abnegação, e
que, concluída a motivação, negam-se a viver, matando-se
emocionalmente e sucumbindo depois...
Essas pessoas não optaram por si mesmas. Realizam um
mecanismo de transferência, sem que hajam experimentado a
beleza da vida e suas ulteriores finalidades.
Quem se considera livre para morrer assume um compromisso
com a liberdade para viver.
A opção por si mesmo oferece uma alta responsabilidade para
com a vida, um encanto novo para descobrir todas as belezas que
estavam sombreadas pelo pessimismo, uma liberdade em alto
grau de movimentação.
O amor se lhe expressa mais pleno, porque, amando a si mesmo,
irradia este sentimento em todas as direções e preenche todos os
vazios íntimos com alegria e realização, mediante a autodisciplina,
que se lhe torna guia eficaz dos pensamentos e atos libertadores.
Livro: Momentos de Iluminação, cap. 3
Divaldo Franco/Joanna de Ângelis.