Segunda parte da matéria.
PROPORÇÃO RELATIVA DOS ESPÍRITAS.

I. Sob o aspecto das nacionalidades. - Não existe, por assim
dizer, nenhum país civilizado da Europa e da América onde não haja espíritas.
Aquele em que são mais numerosos, são os Estados Unidos da América do Norte. Ali seu número é avaliado, por uns, em quatro
milhões, o que já é muito, e, por outros, em dez milhões. Esta última cifra é
evidentemente exagerada, porque compreenderia mais de um terço da população, o
que não é provável. Na Europa, essa cifra pode ser avaliada em um
milhão, no qual a França figura com mais ou menos seiscentos mil. Pode se
estimar o número de espíritas do mundo inteiro em seis a sete milhões. Quando
não fosse senão a metade, a história não oferece nenhum exemplo de uma doutrina
que, em menos de quinze anos, tenha reunido um semelhante número de adeptos,
disseminados sobre toda a superfície do globo. Se nisso se compreendessem os espíritas
inconscientes, quer dizer, aqueles que não o são senão por intuição, e se tornarão
mais tarde espíritas de fato, somente na França, poder-se-iam contá-los vários milhões.
Do ponto de vista da difusão de idéias espíritas, e da facilidade com
que são aceitas, os principais Estados da Europa podem ser assim classificados
como se segue:
1 ° França. - 2° Itália. - 3° Espanha. -4° Rússia. - 5° Alemanha. -6°
Bélgica. -7° Inglaterra. -8°- Suécia e Dinamarca. -9° Grécia. -10° Suíça.
II. Sob o aspecto do sexo; sobre 100: homens, 70; -mulheres, 30.
III. Sob o aspecto da idade', de 30 a 70 anos, máximo; - de 20 a
30 anos, número médio; - de 70 a 80, mínimo.
IV. Sob o aspecto da instrução. O grau de instrução é muito fácil
de apreciar pela correspondência; sobre 100: instrução cuidada, 30; -simples
letrados, 30; - instrução superior, 20; - meio letrados, 10; -iletrados, 6; -
sábios oficiais, 4.
V. Sob o aspecto das idéias religiosas; sobre 100: católicos
romanos, livres pensadores, não apegados ao dogma, 50; - católicos gregos,
15;-judeus, 10; protestantes liberais, 10; católicos apegados aos dogmas, 10; -
protestantes ortodoxos, 3; - muçulmanos 2.
VI. Sob o aspecto da fortuna; sobre 100: mediocridade, 60;
-fortunas médias: 20; - indigêncía, 15; - grandes fortunas, 5.
VII. Sob o aspecto do estado moral, abstração feita da fortuna,
sobre 100: aflitos, 60; - sem inquietação, 30; - felizes do mundo, 10;
-sensualistas, 0.
VIII. Sob o aspecto da classe social. Sem poder estabelecer
nenhuma proporção nesta categoria, é notório que o Espiritismo conta entre seus
adeptos: vários soberanos e príncipes reinantes; membros de famílias soberanas,
e um grande número de personagens titulados.
Em geral, é nas classes médias que o Espiritismo conta mais adeptos; na
Rússia, é quase que exclusivamente na nobreza e a alta aristocracia; foi na
França que se propagou mais na pequena burguesia e na classe operária.
IX. Estado militar, segundo o grau: 1° tenentes e sub-tenentes; -
2° sub-oficiais; - 3° capitães; - 4° coronéis; - 5° médicos e cirurgiões; - 6°
generais; - 7° guardas municipais; - 8° soldados da guarda; - 9° soldados da
linha.
Nota. Os tenentes e sub-tenentes espíritas estão quase
todos em atividade de serviço; entre os capitães, os há em torno da metade em
atividade, e a outra metade aposentada; os coronéis, médicos, cirurgiões e
generais aposentados estão em maioria.
X. Marinha; 1 ° marinha militar; - 2° marinha mercante.
XI. Profissões liberais e funções diversas. Nós os agrupamos em
dez categorias, classificadas segundo a proporção dos adeptos que elas
forneceram ao Espiritismo.
1° Médicos homeopatas. - Magnetistas (1). (1) A palavra magnetizador revela
uma idéia de ação; a de magnetista uma idéia de adesão. O magnetizador é
aquele que exerce por profissão ou outro modo; pode-se ser magnetista sem ser
magnetizador. Dir-se-á: um magnetizador experimentado, e um magnetista
convicto.
2° Engenheiros. - Professores primários; senhores e senhoras de pensão.
- Professores livres.
3° Cônsul. - Padres católicos.
4° Pequenos empregados. - Músicos. -Artistas líricos. -Artistas
dramáticos.
5° Porteiros. - Comissários de polícia.
6° Médicos alopatas. - Homens de letras. - Estudantes.
7° Magistrados. -Altos funcionários. - Professores oficiais e dos
liceus. – Pastores protestantes.
8° Jornalistas. - Artistas pintores. - Arquitetos. - Cirurgiões.
9° Notários. -Advogados. –Procuradores judiciais.-Agentes de negócios.
10° Agentes de câmbio. - Banqueiros.
XII. Profissões industriais, manuais e comerciais, igualmente
agrupadas em dez categorias.
1 ° Alfaiates. - Costureiras. 2° Mecânicos. - Empregados de estradas de
ferro. 3° Operários tecelões. - Pequenos negociantes - porteiros. 4°
Farmacêuticos. - Fotógrafos. - Relojoeiros. - Viajantes de comércio.
5° Agricultores. - Sapateiros.
6° Padeiros. - Açougueiros. - Salsicheiros.
7° Marceneiros.-Opera rios tipógrafos.
8° Grandes industriais e chefes de estabelecimentos.
9° Livreiros. - Impressores.
10° Pintores de edifícios. - Pedreiros. - Serralheiros. - Merceeiros. -
Domésticos.
Deste levantamento, resultam as conseqüências seguintes:
1° Que há espíritas em todos os graus da escala social;
2° Que há mais homens do que mulheres espíritas. É certo que, nas
famílias divididas pela crença com respeito ao Espiritismo, há mais maridos contrariados
pela oposição de suas mulheres do que mulheres pela de seus maridos. Não é
menos constante que, em todas as reuniões espíritas, os homens estão em
maioria.
É, pois, erradamente que a critica pretendeu que a Doutrina é recrutada principalmente
entre as mulheres por causa de sua tendência ao maravilhoso. Ao contrário, é
precisamente essa tendência ao maravilhoso e ao misticismo que as torna, em
geral, mais refratárias do que os homens; essa predisposição fá-las aceitarem
mais facilmente a fé cega que dispensa todo exame, ao passo que o Espiritismo,
não admitindo senão a fé raciocinada, exige a reflexão e a dedução filosófica
para ser bem compreendido, e ao que a educação estreita dada às mulheres, as
torna menos aptas do que os homens. Aqueles que sacodem o jugo imposto à sua
razão e ao seu desenvolvimento intelectual, freqüentemente, caem num excesso
contrário; elas se tornam o que elas chamam as mulheres fortes, e são de uma
incredulidade mais tenaz;
3° Que a grande maioria dos espíritas se encontra entre as pessoas
esclarecidas e não entre as ignorantes. Por toda a parte o Espiritismo se
propagou de alto o baixo da escala social, e em nenhuma parte desenvolveu-se em
primeiro lugar nas classes inferiores;
4° Que a aflição e a infelicidade predispõe às crenças espíritas, em
conseqüência das consolações que elas proporcionam. É a razão pela qual, na
maioria das categorias, a proporção dos espíritas está em razão da
inferioridade hierárquica, porque é ali que há mais necessidades e sofrimentos,
ao passo que os titulares das posições superiores pertencem, em geral, à classe
dos satisfeitos; é preciso deles excetuar o estado militar onde os simples
soldados figuram em último lugar.
5° Que o Espiritismo encontra um acesso mais fácil entre os incrédulos
em matérias religiosas do que entre aqueles que têm uma fé retida;
6° Enfim, que depois dos fanáticos, os mais refratários às idéias
espíritas são os sensualistas e as pessoas das quais todos os pensamentos são
concentrados sobre as posses e os gozos materiais, qualquer seja a classe a que
pertençam, o que é independente do grau de instrução.
Em resumo, o Espiritismo é acolhido como um benefício por aqueles que
ele ajuda a suportar o fardo da vida, e é repelido ou desdenhado por aqueles
que ele dificulta no gozo da vida. Falando-se deste princípio, explica-se
facilmente a classe que ocupam, nesse quadro, certas categorias de indivíduos,
apesar das luzes que são uma condição de sua posição social. Pelo caráter,
gostos, hábitos, gênero de vida das pessoas, pode-se julgar antecipadamente sua
aptidão em assimilar as idéias espíritas. Em alguns, a resistência é uma
questão de amor-próprio, que segue quase sempre o grau do saber; quando esse saber
lhes fez conquistar uma certa posição social que os coloca em evidência, não querem
convir que puderam se enganar e que outros podem ter visto mais justo. Oferecer
as provas a certas pessoas é lhes oferecer o que elas mais temem: e de medo
de reencontrá-las fecham os olhos e os ouvidos, preferem negar a priorie se
abrigar atrás de sua infalibilidade, da qual estão bem convencidas, o que quer
que disso digam.
Explica-se menos facilmente a causa da classe que ocupam, nessa
classificação, certas profissões industriais. Pergunta-se, por exemplo, porque
os alfaiates ali ocupam a primeira classe, ao passo que a livraria e a
imprensa, profissões bem mais intelectuais, estão quase em último. É um fato
constatado há muito tempo, e do qual ainda não nos demos conta.
Se, no levantamento acima, em lugar de não compreender senão os
espíritas de fato, se tivessem considerado os espíritas inconscientes, aqueles
em que essas idéias estão no estado de intuição e que fazem o Espiritismo sem o
saber, várias categorias teriam sido certamente classificadas diferentemente;
os literatos, por exemplo, os poetas, os artistas, em uma palavra, todos os
homens de imaginação e de inspiração, os crentes de todos os cultos estariam,
sem nenhuma dúvida na primeira classe. Certos povos, entre os quais as crenças
espíritas são, de alguma sorte, inatas, ocupariam também um outro lugar. É por
isto que essa classificação não poderia ser absoluta, e se modificará com o tempo.
Os médicos homeopatas estão à frente das profissões liberais, porque,
com efeito, é aquela que, guardadas as proporções, contém em suas fileiras o
maior número de adeptos do Espiritismo; sobre cem médicos espíritas, há ao
menos oitenta homeopatas.
Isto se prende a que o próprio princípio de sua medicação os conduz ao
espiritualismo; também os materialistas são raros entre eles, se bem que os há,
ao passo que são numerosos entre os alopatas. Melhor do que estes últimos
compreenderam o Espiritismo, porque encontraram nas propriedades fisiológicas
do perispírito, unido ao princípio material e ao princípio espiritual, a razão
de ser de seu sistema. Pelo mesmo motivo, os espíritas puderam, melhor do que
os outros, se darem conta dos efeitos desse modo de tratamento. Sem ser
exclusivo com relação à homeopatia, e sem rejeitar a alopatia, compreenderam a
sua racionalidade, e os sustentaram contra os ataques injustos. Os homeopatas,
achando novos defensores nos espíritas, não tiveram a imperícia de atirar-lhes a
pedra.
Se os magnetistas figuram na primeira classe, no entanto, depois dos
homeopatas, apesar da oposição persistente e freqüentemente acerba de alguns, é
que os opositores não formam senão uma pequeníssima minoria junto à massa
daqueles que são, pode-se dizer, espíritas de intuição. O magnetismo e o
Espiritismo são, com efeito, duas ciências gêmeas, que se completam e se
explicam uma pela outra, e das quais aquela das duas que não quer se imobilizar,
não pode chegar a seu complemento sem se apoiar sobre a sua congênere;
isoladas uma da outra, elas se detêm num impasse; elas são reciprocamente como
a física e a química, a anatomia e a fisiologia. A maioria dos magnetistas
compreendem de tal modo por intuição a relação íntima que deve existir entre as
duas coisas, que se prevalecem geralmente de seus conhecimentos e magnetizam,
como meio de introdução junto aos espíritas.
De todos os tempos, os magnetistas estiveram divididos em dois campos:
os espiritualistas e os fluidistas; estes últimos, muito menos
numerosos, fazendo ao menos abstração do princípio espiritual, quando não o
negam absolutamente, tudo relacionam com a ação do fluido material;
conseqüentemente, estão em oposição de principio com os espíritas. Ora, há que
se observar que, se todos os magnetistas não são espíritas, todos os espíritas,
sem exceção, admitem o magnetismo. Em todas as circunstâncias, deles se fizeram
os defensores e os sustentáculos. Deveram, pois, se admirar de encontrar adversários,
mais ou menos malevolentes, naqueles mesmos dos quais vinham reforçar as
fileiras; quem, depois de ter sido, durante mais de meio século alvo aos
ataques, às zombarias e às perseguições de todas as espécies lançam a seu
turno, a pedra, os sarcasmos e, freqüentemente, a injúria aos auxiliares que
lhes chegam, e começam a pesar na balança por seu número.
De resto, como o dissemos, essa oposição está longe de ser geral, muito
ao contrário, pode-se afirmar, sem se afastar da verdade, que ela jamais está
na proporção de mais de 2 a 3 porcento sobre a totalidade dos magnetistas; ela é
muito menor ainda entre aqueles da província e do estrangeiro do que de Paris.
Fonte: Revista Espírita
– Janeiro 1869
Francisco Rebouças