Solidarity Spiritist Societ

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

UMA MANIFESTAÇÃO ANTES DA MORTE.

A carta seguinte nos foi dirigida de Marennes, no mês de janeiro Ultimo:
Senhor Allan Kardec,
Eu acreditaria faltar ao meu dever se, no começo deste ano, não tivesse vindo vos agradecer da boa lembrança que consentistes conservar de mim, em dirigindo a Deus novas preces para o meu restabelecimento. Sim, Senhor, elas lhe foram salutares, e reconheço bem aí a vossa boa influência, assim como a dos bons Espíritos que vos cercam; porque, desde 14 de maio, estou obrigado a guardar o leito de tempos em tempos em conseqüência de más febres que me tinham posto em um muito triste estado.
Há um mês, estou melhor; eu vos agradeço mil vezes, pedindo para agradecerem meu nome a todos os nossos irmãos da Sociedade de Paris, que consentiram juntar as suas preces às vossas.
Freqüentemente, tive manifestações, como o sabeis; mas uma das mais marcantes foi a do fato que vou vos reportar.
No mês de maio último, meu pai veio a Marennes passar alguns dias conosco; apenas chegado, caiu doente e morreu ao cabo de oito dias. Sua morte me causou uma dor tanto mais viva quanto dela havia sido advertido seis meses antes, mas não lhe tinha acrescentado fé. Eis o fato:
No mês de dezembro precedente, sabendo que ele deveria vir, tinha mobiliado um pequeno quarto para ele, e meu desejo era de que ninguém nele deitasse antes dele.
Desde o instante em que manifestei esse pensamento, tive a intuição de que aquele que deitasse nesse leito nele morreria, e esta idéia, que me perseguia sem cessar, me apertava o coração ao ponto que não ousava mais ir àquele quarto. No entanto, na esperança de disto me desembaraçar, fui orar junto ao leito. Acreditei ver ali um corpo amortalhado; para me tranquilizar, levantei a coberta e não vi nada; então, disse a mim mesmo, que todos esses pressentimentos não são senão ilusões ou resultados de obsessões. No mesmo instante, ouvi suspiros como de uma pessoa que se acaba, depois senti minha mão direita pressionada fortemente por uma mão lépida e úmida. Saí do quarto e não ousei mais ali reentrar sozinho. Durante seis meses fui atormentado por essa triste advertência, e ninguém ali se deitou antes da chegada de meu pai. Foi ali que ele morreu; seus últimos suspiros foram os mesmos que aqueles que eu tinha ouvido, e, antes de morrer, sem que eu lhe pedisse, apertou-me a mão direita e ma pressionou da mesma maneira que tinha sentido seis meses antes; a sua tinha o suor tépido que eu tinha igualmente notado. Não posso, pois, duvidar de que isto não me seja uma advertência que me foi dada.
Tive muitas outras provas da intervenção dos Espíritos, mas que seria muito longo vos detalhar numa carta; não me lembraria senão o fato de uma discussão de quatro horas que tive, no mês de agosto último, com dois sacerdotes, e durante a qual me senti verdadeiramente inspirado, e forçado a falar com uma facilidade da qual eu mesmo estava surpreso. Lamento não poder vos reportar essa conversa; isto não vos admiraria, mas vos diverti.
Recebei, etc.

ANGELINA DEOGÉ.
Há todo um estudo a fazer sobre esta carta. Nela vemos primeiro um encorajamento a orar pelos doentes, depois, uma nova prova da assistência dos Espíritos pela inspiração das palavras que se devem pronunciar, nas circunstâncias em que se estaria muito embaraçado para falar, estando-se entregue às próprias forças. É talvez um dos gêneros de mediunidade o mais comum, e que vem confirmar o princípio de que todo mundo é mais ou menos Médium sem disto desconfiar. Seguramente, se cada um se reportasse às diversas circunstâncias de sua vida, observasse com cuidado os efeitos que sente, ou dos quais foi testemunha, não há ninguém que não reconheça ter alguns efeitos de mediunidade inconsciente.
Mas o fato mais saliente é o da advertência da morte do pai da senhora de Ogé, e do pressentimento que a perseguiu durante seis meses. Sem dúvida, quando ela ia orar nesse quarto, e que acreditou ver um corpo na cama que ela constata estar vazia, poder-se-ia, com alguma verossimilhança, admitir o efeito de uma imaginação tocada. Poderia ocorrer o mesmo com os suspiros que ela ouviu. A pressão da mão poderia ser atribuída a um efeito nervoso, provocado pela superexcitação de seu espírito. Mas como explicar a coincidência de todos esses fatos com o que se passou na morte de seu pai? A incredulidade dirá: puro efeito do acaso; o Espiritismo diz: fenômeno natural devido à ação de fluidos cuja propriedade eram desconhecidas até hoje, submetido à lei que rege
as relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo.
O Espiritismo, ligando às leis da Natureza à maioria dos fenômenos reputados sobrenaturais, vem precisamente combater o fanatismo e o maravilhoso que o acusam de querer fazer reviver; ele dá, daqueles que são possíveis, uma explicação racional, e demonstra a impossibilidade daqueles que seriam uma derrogação às leis da Natureza. A causa de uma multidão de fenômenos está no princípio espiritual do qual eles vêm provar a existência; mas como aqueles que negam esse princípio podem admitir-lhe as conseqüências? Aquele que nega a alma e a vida extra corpórea, não pode reconhecer-lhes os efeitos.
Para os Espíritas, o fato do qual se trata nada tem de surpreendente, e se explica, por analogia, como uma multidão de fatos do mesmo gênero, cuja autenticidade não pode ser contestada. No entanto, as circunstâncias nas quais ele se produziu apresentam uma dificuldade; mas o Espiritismo jamais disse que não tinha nada mais a aprender. Ele possui uma chave da qual está ainda longe de conhecer todas as aplicações; é a estudá-las que ele se aplica, a fim de chegar a um conhecimento tão completo quanto possível das forças naturais e do mundo invisível, no meio do qual vivemos, mundo que nos interessa a todos, porque todos, sem exceção, deverão nele entrar cedo ou tarde, e vemos todos os dias, pelo exemplo daqueles que partem a vantagem que há em conhecê-lo antes.
Não saberíamos muito repeti-lo, o Espiritismo não faz nenhuma teoria preconcebida; ele vê, observa, estuda os efeitos, e dos efeitos procura remontará causa, de tal sorte que, quando formula um princípio ou uma teoria, se apoia sempre na experiência. É, pois, rigorosamente verdadeiro dizer que é uma ciência de observação. Aqueles que mostram não ver nele senão uma obra de imaginação, provam que dele não sabem a primeira palavra.
Se o pai da senhora de Ogé estivesse morto, sem que ela o soubesse, na época em que ela sentiu os efeitos dos quais falamos, esses efeitos se explicariam da maneira mais simples. O Espírito livre do corpo teria vindo até ela para adverti-la de sua partida deste
mundo, e atestar sua presença por uma manifestação sensível, com a ajuda de seu fluido perispiritual; é o que é mais freqüente. Compreendemos perfeitamente que, aqui, o efeito é devido ao mesmo princípio fluídico, quer dizer, à ação do perispírito; mas como a ação material do corpo, que ocorre no momento da morte, pôde se produzir identicamente seis meses antes dessa morte, então que nada de ostensivo, doença ou outra causa, não podia fazê-la pressentir?
Eis a explicação que disto foi dada à Sociedade de Paris:
"O Espírito do pai dessa senhora, no estado de desligamento, tinha um conhecimento antecipado de sua morte, e da maneira pela qual ela se daria. Sua visão espiritual, abarcando um certo espaço de tempo, a coisa era, para ele, como presente; mas no estado de vigília disto não conservou nenhuma lembrança. Foi ele mesmo quem se manifestou à sua filha, seis meses antes, nas condições que deveriam se reproduzir, a fim de que, mais tarde, ela soubesse que era ele, e que estando preparada uma separação próxima, ela não ficasse surpresa com sua partida. Ela mesma, como Espírito, disso tinha conhecimento, porque os dois Espíritos se comunicam em conjunto em seus momentos de liberdade; era o que lhe dava a intuição de que alguém deveria morrer naquele quarto. Essa manifestação, igualmente, ocorreu no objetivo de fornecer um assunto de instrução com respeito ao conhecimento do mundo invisível."
Fonte: Revista Espírita, Janeiro 1868.

Francisco Rebouças