Precisamos ter o necessário cuidado em tudo que
falamos e escrevemos em relaçāo a doutrina espírita, pois, o que se vê, lê e
escuta de muitos dos ditos “estudiosos”
de nossa doutrina, em programas de televisão, artigos, e nas palestras públicas,
têm nos deixado realmente perplexes.
Muitos deles trazem à tona assuntos doutrinários, de
vital importância para a aceitaçāo e compreensāo dos fundamentos de nossa
doutrina, sob a sua particular interpretaçāo, exclusivamente elaborados nos
achismos e modismos tāo comuns e aceitos por muitos espíritas, sem a precisa e
imprescindível atençāo ao que o expositor está se referindo, sem se incomodarem
em analisar se o que ouvem, leem ou
veem, está em conformidade com a fabulosa e gigantesca obra codificada por
Kardec.
Alguns acreditam mesmo que se é seu “fulano”
que está dizendo aquilo é verdadeiro, pois o conhece como verdadeiro
“estudioso” conhecedor da doutrina espírita, por isso mesmo, isento de qualquer
tipo de suspeita. E afirmam mais, ele conviveu
muito com o Chico, e com o Divaldo Franco, como se isso lhes garantissem
uma perfeita compreensāo e sabedoria para uma correta, segura e legítima divulgaçāo dos postulados espíritas.
Quando solicitados por aqueles que desejam informações
sobre as fontes de origem de tais explicações, se sentem afrontados,
incomodados e se aborrecem facilmente.
Nós espíritas, temos o direito de saber a origem de
tais informações, pois a própria Espiritualidade Superior é quem nos solicita o
cuidado que devemos ter de manter a Doutrina Espírita livre de enchertos e
distorçoões, pura, clara e simples como nos foi enviada pelos Amigos do Cristo,
sob seu comando e orientaçāo.
Ouçamos o Espírito Erasto sobre o assunto na própria
codificaçāo: “Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade,
uma só teoria errônea. Efetivamente, sobre essa teoria poderíeis edificar um sistema
completo, que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento
edificado sobre areia movediça, ao passo que, se rejeitardes hoje algumas
verdades, porque não vos são demonstradas clara e logicamente, mais tarde um
fato brutal, ou uma demonstração irrefutável virá afirmar-vos a sua
autenticidade”. (1)
O conhecido e respeitado escritor espírita
Josė Herculano Pires, nos trás algumas sérias advertências sobre o assunto,
conforme segue.
As normas de Kardec
“Mas o desenvolvimento dos
princípios espíritas não pode ser feito de maneira arbitrária, pois no campo do conhecimento há leis de
lógica e de logística que regem o processo cultural. Kardec estabeleceu
as normas que temos de observar para não cairmos nos enganos e nas ilusões tão
comuns à nossa precipitação. Essas normas, elas
mesmas, estão hoje sendo acrescidas de meios novos de verificação da realidade
através da Ciência e da Filosofia. O bom senso, como ensinou
Kardec, é o fio de prumo que nos garante a construção de um conhecimento mais
amplo e mais rico, mas ao mesmo tempo mais preciso.
Usar do bom senso é o primeiro preceito da normativa de Kardec. Examinar
com rigor a linguagem dos Espíritos comunicantes, submetê-los a testes de bom
senso e conhecimento, verificar a relação de realidade dos conceitos por eles
enunciados (relação do seu pensamento com os fatos, as coisas e os seres),
enquadrar os seus ensinos e revelações no contexto cultural da época,
verificando o alcance abusivo ou não das afirmações mais
audaciosas – eis os elementos que temos de observar no trato da
mediunidade, se não quisermos cair em situações difíceis, a que fatalmente nos
levariam espíritos imaginosos ou pseudo-sábios. E ao lado disso submeter tudo
quanto possível à comprovação experimental, à pesquisa.
Bem sabemos que tudo isso requer espírito metódico, um fundo
básico de conhecimentos gerais, capacidade normal de discernimento, superação
da curiosidade doentia, controle rigo- roso da ambição e da vaidade, equilíbrio
do raciocínio, maturi- dade intelectual, critério científico de observação e
pesquisa e firme decisão de não se deixar levar pelas aparências, aprofun-
dando sempre o exame de todos os aspectos dos problemas e das circunstâncias.
Sim, tudo isso é difícil, mas sem isso não faremos ciência e sem ciência não
teremos Espiritismo. Se alguém notar que não dispõe dessas qualidades deve
reconhecer-se inábil para a investigação espírita. É melhor aceitar com
humildade as próprias limitações do que aventurar-se a realizações impossíveis”.
A luta necessária
"Infelizmente
a maioria das criaturas não gosta de reconhecer os seus limites. A vaidade e a
ambição levam muita gente a dar passos mais largos do que as pernas permitem. É o que
hoje vemos, de maneira assustadora, em nosso meio espírita. Os casos de
fascinação multiplicam-se ao nosso redor. Pessoas
que podiam ser úteis se transformam em focos de confusão e perturbação,
entravando a marcha do Espiritismo com a sustentação de teorias absurdas que
levam a doutrina ao ridículo. Em nosso país esses casos se tornam
mais graves por causa da falta geral de cultura. As pessoas incultas e ingênuas
se deixam levar muito facilmente ao fanatismo, ante o brilho fictício de
pessoas inteligentes e cultas, mas dominadas por fascinações perigosas.
A mania do
cientificismo vem produzindo grandes estragos em nosso movimento espírita. Qualquer
possuidor de diplomas de curso superior se julga capacitado a transformar-se em
cientista do dia para a noite. E logo consegue uma turma de adeptos vaidosos,
prontos a seguir o iluminado que lhes empresta um pouco do seu falso brilho. O
desejo de elevar-se acima dos outros, conhecendo mais e sabendo mais, é
praticamente incontrolável na maioria das pessoas. O resultado é o que vemos. Há mais joio do que trigo em nossa seara
espírita.
A luta contra essa situação é das mais árduas. Mas, árdua ou não,
tem de ser enfrentada pelos que vêem as coisas de maneira mais clara. Temos de
ferir suscetibilidades, magoar o amor próprio de amigos e companheiros,
levantar no próprio meio espírita inimigos gratuitos, provocar revides
apaixonados. Mas, de duas, uma: ficamos
com a verdade ou ficamos com o erro, defendemos a doutrina ou nos acomodamos na
falsa tolerância, clamando por uma paz de pantanal, que nada mais é do que
covardia e traição à verdade. Aí estão, diante de nossos olhos, as fascinações
da vaidade nos empantanando os caminhos da evolução natural e necessária da
doutrina. Ou lutamos contra elas ou incentivaremos a sua propagação e
proliferação.
Podemos enumerar as mais acentuadas e nefastas: o roustainguismo, defendido e semeado sob
o prestígio da FEB; o Divinismo ou Espiritismo
Divinista, que contradiz a própria essência racional do Cristianismo e do
Espiritismo; o ramatisismo, que
conseguiu envenenar a própria FEESP e ainda hoje não foi completamente
eliminado da sua estrutura; o
heterodoxismo ou armondismo (mistura de doutrinas ocultistas com o
Espiritismo), que anda de mãos dadas com o ramatisismo;
a teoria do continuum mediúnico, que vem de fora, com ares de
teoria sociológica, estabelecendo confusões, com suposto apoio científico,
entre Espiritismo e Umbanda; o andreluizismo,
que à revelia de André Luiz é sustentado por instituições que se apoiam
na caridade para desviar adeptos ingênuos da verdadeira compreensão
doutrinária; e outras subcorrentes
que amanhã se tornarão fortes e dominadoras, se não forem sustadas a tempo.
Todos esses movimentos se valem de uma arma contra os que
perseveram no campo limpo da doutrina: a acusação de sectarismo. Fazem seitas e acusam os outros de
sectários. Clamam pelo direito de alargar e arejar os conceitos
fundamentais de Kardec, sem que os seus expoentes se lembrem de que não possuem
condições culturais para essa tarefa de gigantes. Afrontam e amesquinham
Kardec, na vaidosa suposição de que o estão auxiliando, quando não o agridem
abertamente, com o menosprezo à sua missão espiritual e à sua qualificação
cultural. Não foram ainda capazes de encarar a missão de Kardec e a obra de
Kardec sem pensar primeiro em si mesmos e nas suas supostas capacidades
culturais ou supostas habilitações espirituais".
Somos pois, responsáveis por tudo o que divulgamos como mensagem espírita e devemos zelar pela pureza doutrinária nela contida.
Bibliografia:
1 – Kardec,
Allan. O Livro dos Médiuns, 62 ediçāo -
Cap. XX , item 230.
2 - Pires, J.
Herculano. Livro: A Pedra e o Joio - Crítica à
Teoria Corpuscular do Espírito.
3- Grifos
nossos.
Francisco Rebouças.
