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terça-feira, 3 de outubro de 2017

As Leis Divinas

Desde tempos imemoriais, a Ciência. vem-se dedicando exclusivamente ao estudo dos fenômenos do mundo físico, suscetíveis de serem examinados pela observação e experimentação, deixando a cargo  da. Religião o trato das questões metafísicas ou espirituais. 
Com  o  avanço  científico  nos  últimos  séculos,  principalmente no  19º,  o divórcio entre a Ciência e a Religião transformou-se em beligerância. 
Apoiada  na  Razão,  e  superestimando  os  descobrimentos  no campo  da matéria, a Ciência passou a zombar da Religião, enquanto esta, desarvorada e ferida  em  seus  alicerces  —  os dogmas  sem prova  —,  revidava  como  podia, lançando anátemas  às conquistas  daquela,  apontando-as  como  contrárias à Fé. 
Devido  à  posição  extremada  que  tomaram  e  ao  ponto  de vista exclusivo que defendiam, Ciência e Religião deram à Humanidade a falsa impressão de serem  irreconciliáveis  e  que  os  triunfos  de uma  haveriam  de  custar, necessàriamente, o enfraquecimento da outra. 
Não é assim, felizmente. 
O  Espiritismo,  embora  ainda  repelido  e  duramente  atacado, tanto  pela Ciência  como  pela  Religião  ditas  oficiais,  veio trazer,  no  momento  oportuno, preciosa  cota  de  conhecimentos novos,  do  interesse  de  ambas,  oferecendolhes,  com  isso,  o  elo de  ligação  que  lhes  faltava,  para  que  se  ponham  de acordo e se prestem mútua cooperação, porque, se é exato que a Religião não pode ignorar os fatos naturais comprovados pela Ciência, sem desacreditar-se, esta, igualmente, jamais chegaria a completar-se secontinuasse a fazer tábua rasa do elemento espiritual. 
Graças  ao  Espiritismo,  começa-se  a  reconhecer  que  o homem, criatura complexa que é, formada de corpo e alma, não sofre apenas as influências do meio físico em que vive, quais o clima, o solo, a alimentação, etc, mas tanto ou mais as influências da psicosf era terrena, ou seja, das entidades espirituais — boas ou mas — que coabitam este planeta (os chamados anjos ou demônios), as quais interferem em seu comportamento em muito maior escala do que ele queira admitir. Daí a recomendação do Cristo: “oraie vigiai para não cairdes em tentação.” 
Graças ainda ao Espiritismo, sabe-se, hoje, que o espírito (ou alma) não é mera  “função”  do  sistema  sensório-nervoso-cerebral, como  apregoava  a pseudo-ciência materialista, nem tão-pouco unta “centelha” informe, incapaz de subsistir por si mesma, como o imaginavam as religiões primevas ou primárias, mas sim um ser individualizado, revestido de uma substância quintessenciada, que, apesar  de  imperceptível  aos  nossos  sentidos  grosseiros,  é passível  de, enquanto  encarnado,  ser  afetado  pelas enfermidades  ou  pelos  traumatismos orgânicos, mas que, por outro lado, também afeta o  indumento (soma) de que se serve durante a existência humana, ocasionando-lhe, com suas emoções, distúrbios funcionais e até mesmo lesões graves, como o atesta a psiquiatria moderna ao fazer medicina psicossomática. 
Quanto mais o homem desenvolve suas faculdades intelectuais e aprimora suas  percepções  espirituais,  tanto  mais  vai-se inteirando  de  que  o  mundo material, esfera de ação da Ciência, e a ordem moral, objeto especulativo da Religião,  guardam  íntimas e  profundas  relações  entre  si,  concorrendo,  um  e outra,  para  a armonia  universal,  mercê  das  leis  sábias,  eternas  e imutáveis que os regem, como sábio, eterno e imutável é o Seulegislador. 
Não pode nem deve haver, portanto, nenhum conflito  entre a verdadeira Ciência  e  a  verdadeira  Religião.  Sendo,  como  são, expressões  da  mesma Verdade  Divina,  o  que  precisaxn  fazer  é ar-se  as  mâos,  apoiando-se  recíprocamente, de modo que o progresso de uma sirva para fortalecer a. outra e, juntas, ajudem o homem a realizar os altos e gloriosos destinos para que foi criado.

(Capítulo 1, questão 614 e seguintes.)

Livro: As Leis Morais
Rodolfo Calligaris

Francisco Rebouças