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domingo, 22 de outubro de 2017

APRENDIZES E ADVERSÁRIOS

Jonathan,  Jessé  e  Eliakim,  funcionários  do,  Templo  de  Jerusalém,  passando  por Cafarnaum, procuraram Jesus no singelo domicílio de Simão Pedro.
Recebidos pelo Senhor, entregaram-se, de imediato, à conversação.
― Mestre ― disse o primeiro ―, soubemos que a tua palavra traz ao mundo as Boas Novas do Reino de Deus e, entusiasmados com as tuas concepções, hipotecamos ao teu ministério o nosso aplauso irrestrito. Aspiramos, Senhor, à posição de discípulos teus...
Não obstante as obrigações que nos prendem ao sagrado Tabernáculo de Israel, anelamos servir-te, aceitando-te as idéias e lições, com as quais seremos colunas de tua causa na cidade
eleita do Povo Escolhido... Contudo, antes de solenizar nossos votos, desejamos ouvir-te quanto
à conduta que nos compete à frente dos inimigos...
― Messias, somos hostilizados por terríveis desafetos, no Santuário ― exclamou o segundo ―,
e, extasiados com os teus ensinamentos, estimaríamos acolher-te a orientação.
― Filho de Deus ― pediu o terceiro ―, ensina-nos como agir...
Jesus meditou alguns instantes, e respondeu:
― Primeiramente, é justo considerar nossos adversários como instrutores. O inimigo vê junto de nós  a  sombra  que  o  amigo  não  deseja  ver  e  pode  ajudar-nos  a  fazer  mais  luz  no caminho que nos é próprio. Cabe-nos, desse modo, tolerar-lhe as admoestações, com nobreza e serenidade, tal qual o ferro, que após sofrer, paciente, o calor da forja, ainda suporta os golpes do malho com dignidade humilde, a fim de se adaptar à utilidade e à beleza.
Os visitantes entreolharam-se, perplexos, e Jonathan retomou a palavra, perguntando:
― Senhor, e se somos injuriados?
― Adotemos o perdão e o silêncio ― disse Jesus. ― Muita gente que insulta é vítima de perturbação e enfermidade.
― E se formos perseguidos? ― indagou Jessé.
― Utilizemos a oração em favor daqueles que nos afligem, para que não venhamos a cair no escuro nível da ignorância a que se acolhem.
― Mestre, e se nos baterem, esmurrarem? ― interrogou Eliakim. ― que fazer se a violência nos avilta e confunde?
―Ainda assim ―esclareceu o brando interpelado ―, a paz íntima deve ser nosso asilo e o amor fraterno  a  nossa  atitude,  porquanto,  quem  procura  seviciar  o  próximo  e  dilacerá-lo  está louco e merece compaixão.
― Senhor ― insistiu Jonathan ―, que resposta oferecer, então, à maledicência, à calúnia e à perversidade?
O Cristo sorriu e precisou:
― O maledicente guarda consigo o infortúnio de descer à condição do verme que se alimenta com o lixo do mundo, o caluniador traz no coração largas doses de fel e veneno que lhe flagelam a vida, e o perverso tem a infelicidade de cair nas armadilhas que tece para os outros. O perdão é a única resposta que merecem, porque são bastante desditosos por si mesmos.
― E que reação assumir perante os que perseguem? ― inquiriu Jessé, preocupado.
― Quem  persegue os semelhantes tem o espírito em densas trevas e mais se assemelha ao cego desesperado que investe contra os fantasmas da própria imaginação, arrojando-se ao fosso do sofrimento.
Por esse motivo, o socorro espiritual é o melhor remédio para os que nos atormentam...
― E que punição reservar aos que nos ferem o corpo, assaltando-nos o brio? ― perguntou Eliakim espantado. ― Refiro-me àqueles que nos vergastam a face e fazem sangrar o peito...
― Quem golpeia pela espada, pela espada será golpeado também, até que reine o Amor Puro na Terra ― explicou o Mestre, sem pestanejar. ― Quem se rende às sugestões do crime é um doente  perigoso  que  devemos  corrigir  com  a  reclusão  e  com  o  tratamento  indispensável.  O sangue não apaga o sangue e o mal não retifica o mal...
E, espraiando o olhar doce e lúcido pelos circunstantes, continuou:
― É imperioso saibamos amar e educar os semelhantes com a força de nossas convicções e conhecimentos,  a  fim  de  que  o  Reino  de  Deus  se  estenda  no  mundo...  As  Boas  Novas  de Salvação  esperam  que  o  santo  ampare  o  pecador,  que  o  são ajude o  enfermo, que  a  vítima auxilie o verdugo...
Para  isso,  é  imprescindível  que  o  perdão  incondicional,  com  o  olvido  de  todas  as  ofensas, assegure a paz e a renovação de tudo...
Nesse ínterim, uma criança doente chorou em alta voz num aposento contíguo.
O  Mestre  pediu alguns instantes de espera e  saiu para  socorrê-la, ,as, ao regressar, debalde buscou a presença dos aprendizes fervorosos e entusiastas.
Na sala modesta de Pedro não havia ninguém.

Livro: Contos Desta e Doutra Vida
Chico Xavier/Irmão X

Francisco Rebouças