No entanto, Maria Souza, a
médium “curadora”, já organizara considerável movimento.
Conclamara companheiros para conversa íntima,
com o objetivo de convencê-los sobre os seus propósitos. Os adversários,
contudo, lhe apareciam em sonhos com propostas extravagantes, prometiam-lhe
destaque, publicidade, aparecimento na mídia, garantiam-lhe verdadeiros
prodígios com as suas “faculdades curativas”. Tendo recebido
estas orientações falsas, do plano espiritual inferior, mas tomadas como
verídicas pela própria médium, passava, agora, a planejar a concretização das
“orientações” recebidas.
Conclamara companheiros para conversa íntima,
com o objetivo de convencê-los sobre os seus propósitos. Os adversários,
contudo, lhe apareciam em sonhos com propostas extravagantes, prometiam-lhe
destaque, publicidade, aparecimento na mídia, garantiam-lhe verdadeiros
prodígios com as suas “faculdades curativas”. Tendo recebido
estas orientações falsas, do plano espiritual inferior, mas tomadas como
verídicas pela própria médium, passava, agora, a planejar a concretização das
“orientações” recebidas.
Em pequena reunião,
executada na residência de um dos companheiros igualmente fanatizados,
traçaram diretrizes, ouviram
os mentores”, através
da psicofonia, e resolveram conversar com os responsáveis pelo Centro, a
fim de convencê-los a autorizar as atividades cirúrgico-mediúnicas de Maria
Souza.
Castro e Israel, comunicados
mais tarde, aceitaram o convite, dedicando toda atenção e fraternidade
possíveis.
No dia marcado, compareceram
os responsáveis pela Casa, a médium “curadora” e um pequeno grupo, representando
as cerca de trinta pessoas partidárias das ideias da intérprete fanática.
Minutos antes do início da
conversação, Elvira, a substituta eventual de Júlio César, apresentou-se
envolvendo de maneira intensa a mente da medianeira.
Castro sugeriu fosse feita
uma prece antes do início das atividades, a fim de buscar comunhão com os benfeitores
da vida maior. Quando o respeitável presidente pronunciou as primeiras
palavras, envoltas em sincera emoção, eis que o mentor da Instituição se
apresentou colocando-se ao lado dos representantes da Casa, dando demonstração
amorosa da promessa que lhes fizera sobre o concurso superior. O benfeitor,
acompanhado de abnegados tarefeiros espirituais, fizeram-se visíveis para as
entidades infelizes, como que
lhes demonstrando que a
atuação inferior estava dentro de certos limites.
Quando Elvira viu os
espíritos superiores, fitando-a gravemente, e verificando uma pequena parcela
de suas capacidades espirituais, representadas pela intensa luz que partia
deles, pensou em desistir, mas recordou-se das ameaças de Júlio César. Instantaneamente, anulou os propósitos de abortar
a missão, fixando-se junto à médium,
dando prosseguimento ao plano destruidor.
Os responsáveis pelo Centro
deram, então, respeitosamente, oportunidade da palavra a Maria Souza que
iniciou a conversa com estas colocações:
— Estou
aqui para fazer
algumas solicitações. Vocês não desconhecem
a minha produção mediúnica e as orientações dos meus mentores sobre a
utilização de minhas faculdades. Segundo afirmam meus guias, eu tenho uma
grande missão para executar neste Centro e solicito que vocês me permitam
trabalhar nesta Casa com a cirurgia espiritual. Já estamos nos organizando e
verificamos que ficaríamos bem instalados na sala “Allan Kardec”. É um espaço adequado, mesmo porque, segundo
informações dos meus superiores, logo,
logo estarei recebendo mensagens e receitas do próprio codificador!
Já temos companheiros à
disposição, inclusive financeiramente, para fazer anúncios em jornais
conceituados a respeito dos grandiosos trabalhos que se vão iniciar neste
Centro. Nossa Instituição haverá de crescer consideravelmente sob as orientações
destes novos mentores. Pensem no público, na quantidade de pessoas beneficiadas,
nas grandes campanhas promovidas por nós. Em pouco tempo, afirmam meus tutores
espirituais, estaremos na televisão e aí, já posso ver: pesquisadores americanos,
alemães, russos etc. desejando estudar
minhas faculdades, o reconhecimento público, títulos de cidadã desta e
daquela cidade. É claro que tudo isso eu, pessoalmente, reverterei para a
Doutrina Espírita, edificaremos hospitais, creches e orfanatos.
Castro interrompeu
respeitosamente a fala da médium alucinada, acrescentando com lucidez:
— Minha irmã, entendemos os
seus propósitos, acreditamos esteja de fato desejosa de contribuir com a obra
do bem, mas desejamos lhe oferecer um tempo maior de experimentação da mediunidade,
a fim de que possa se estruturar no campo doutrinário, conhecer melhor a sua faculdade,
analisarmos os fenômenos com rigor. De forma que, antes de pensarmos no grande
público, que tal se, reservadamente, durante um certo período, com alguns
enfermos, sob segura orientação doutrinária, pudéssemos catalogar as
enfermidades, verificar se a ação fluídica realmente produziu efeito, dialogar
serenamente com os seus guias, verificando suas orientações. Assim, continuou o
presidente, você terá oportunidade de, ao longo do tempo, se estruturar num
trabalho discreto e despretensioso. Nesta hora, Elvira envolveu a médium,
fazendo-a retrucar desta maneira:
— Mas o que é isso? Você
está com medo de que eu seja considerada mais importante que a sua pessoa. Não
sabe que trago grandes compromissos a realizar, que esta Casa poderá ser
projetada como nunca imaginamos antes!
Israel, num desejo
verdadeiro de orientar, não se conteve e interrompeu a expositora vaidosa com
estas lúcidas orientações:
— Minha amiga, parece que
você está mais interessada na notoriedade do que na própria Doutrina Espírita,
cuja finalidade é promover a transformação moral das criaturas humanas. O objetivo precípuo do Espiritismo não é curar
corpos e sim almas. Poderemos, certamente, aproveitar os recursos fluídicos que
Deus nos concede, em benefício dos enfermos, e não lhe faltará oportunidade
para isso. Terá toda nossa atenção e dedicação, contudo, pensamos seja melhor
estruturar um pouco mais as suas capacidades medianímicas por meio do estudo
doutrinário e do exercício paciencioso e discreto ao longo dos anos.
Você desconhece os
inconvenientes da fama, o quanto os adversários espirituais podem envolver
aqueles que se destacam; e se não estiver preparada para suportá-los, poderá ser
a sua queda. Por que não se estrutura primeiro, trabalhando anônima e
discretamente durante alguns anos? Não
estamos lhe negando a oportunidade de serviço nesta área, mas estamos lhe
alertando quanto à responsabilidade e à necessidade de averiguarmos até onde
suas capacidades magnéticas podem
beneficiar as pessoas. E sem contar, continuou Israel inspirado, que você
poderá ser enquadrada no crime de prática ilegal da medicina ao desejar cortar
corpos. Já pensou nisso?
Assim, trabalhando discretamente,
poderá verificar suas potencialidades e granjear, com trabalho verdadeiro e
cristão, a simpatia dos bons espíritos.
Lembre-se de que médiuns
respeitáveis do nosso movimento, e que hoje se destacam pelos trabalhos de
verdadeira benemerência, laboraram em silêncio durante anos, permanecendo no
anonimato até que estivessem amadurecidos para assumirem tarefas maiores.
A fama, minha irmã, tem afastado
muitas almas do caminho reto! Você desconhece os inconvenientes que a
notoriedade traz. Guarda a ideia de que ser médium é sinônimo de privilégios
espirituais. A mediunidade bem equilibrada exige estudo assíduo e atuação despretensiosa.
O médium, em verdade, quando dispõe de
tarefas maiores, igualmente
deve testemunhar na
mesma proporção as informações que recebe, aplicando-as
primeiramente a si. Desta maneira, antes
de se lançar à busca frenética pela fama, utilizando-se de recurso sagrado,
como é a mediunidade, trabalhe interiormente, a fim de que os seus sentimentos
sublimados a façam merecedora de uma assistência espiritual superior,
compreendendo que, no campo mediúnico, discrição e humildade são qualidades
essenciais para o êxito da tarefa. E, além disso, prosseguiu Israel de maneira calma
e fraterna, não estamos interessados
em projetar a
nossa Casa, não
desejamos que nosso
Centro esteja lotado de
pessoas procurando simplesmente
fenômenos. Temos a
simples pretensão de fazer vibrar entre as paredes desta Instituição os
ensinos de Jesus e Kardec.
Para nós,
o mais importante
é receber fraternalmente os
que nos procuram, socorrê-los quanto
possível, oferecer conhecimento
doutrinário, despertando as criaturas para a transformação moral; o
resto é consequência deste processo bem realizado. Assim, nos preocupamos com
os males morais das criaturas, oferecendo condições de que, com ajuda do
Espiritismo, se processe em cada um de nós uma auto cura sob as bênçãos de
Jesus.
Todavia, nós lhe
convidamos para continuar
exercitando suas capacidades espirituais ao longo dos anos, e
nos comprometemos a acompanhá-la, orientando-a, como fazemos a todos os
médiuns.
Continue trabalhando pacientemente
nas reuniões de
fluidoterapia, fazendo com simplicidade
de intenção o que estiver
ao seu alcance,
beneficiando as criaturas com os
seus melhores sentimentos.
Maria Souza, admirada,
perguntou:
— Devo entender estas
palavras como uma negação aos meus pedidos?
— Deve
considerá-las, disse Israel
afetuosamente, como incentivo
para um dedicado período
de trabalho em
benefício do próximo,
a fim de
que suas faculdades possam se
aprimorar pelo exercício discreto e anônimo.
Se aceitar
a proposta de
Castro, teremos grande
alegria em organizar
um pequeno grupo para,
durante algum tempo,
lhe permitir o
exercício de suas capacidades curativas,
a fim de
verificarmos suas condições
magnéticas, analisando as orientações dos espíritos que lhe assistem,
ouvindo respeitosamente quais as orientações que desejam para o trabalho com a
mediunidade.
— O
quê?! Retrucou Maria
Souza espantada. Você
acha que eu vou
perder tempo com um grupo pequeno? Já estou pronta para o trabalho, meus guias já me prepararam muito
bem! Um espírito
médico, de nome
Dr. Júlio César
já se prontificou a me conduzir
por caminhos retos. Bem que ele me avisou das dificuldades!
Além do mais, qualquer Casa
Espírita iria adorar contar com alguém com as minhas capacidades espirituais,
me receberiam de braços abertos!
Vocês estão desperdiçando
uma extraordinária oportunidade!
Nesta hora, Elvira envolveu
a médium com mais intensidade, enquanto os benfeitores espirituais irradiavam
sobre os representantes do Centro lucidez e bom senso.
Maria Souza, quase fora de
si, continuava argumentando:
— Se
não posso trabalhar
à minha maneira,
então me retiro
desta Casa e levarei comigo muitas pessoas.
— Minha irmã, considerou
Castro, não desejamos sua ausência, a Casa precisa de todos
nós, não nos
tenha na conta
de inimigos. É nosso
dever, como responsáveis por este
Centro, zelar pela pureza de nossa
Doutrina, e o Espiritismo possui objetivos bem definidos, O que você está nos pro
pondo é prática ilegal da medicina; aceitar os seus propósitos é infringir as leis
humanas.
Procure refletir na hipótese
de estar envolvida por adversários espirituais, com o fim de lhe afastar deste
núcleo de amor.
E imprimindo nas palavras
compreensão e ternura, prosseguiu:
— Continue conosco, todos
desejamos trabalhar e não almejamos títulos. E se
você realmente tiver uma
grande tarefa a desempenhar, ela naturalmente aparecerá.
— Era só o que faltava,
interrompeu a médium, agora, meus protetores são obsessores! Bem original, não
acha?
Muito bem, minha decisão
está tomada: Vou me retirar desta Casa hoje mesmo!
Espiritualmente, Elvira
gargalhava desassombradamente. Os amigos espirituais, entretanto, procuravam
emanar jatos defluidos amorosos junto a Castro e Israel, ao mesmo tempo que os
protegiam dos adversários do bem.
Levantando-se, Maria Souza
saiu da sala com passos firmes sem se despedir dos respeitáveis tarefeiros
encarnados, sentindo-se intimamente insultada. Os acompanhantes da médium
fanática igualmente se retiraram deixando-os sozinhos.
Os nobres tarefeiros,
reflexivos, porém, de consciência tranquila, conversavam entre si:
— Israel, disse: Castro, é
uma pena que isso tenha acontecido!
— Não se preocupe, meu
amigo, sem dúvida fizemos o melhor.
Isso me faz pensar que nossa
Casa esteja passando por provações! Vários companheiros de trabalho estão
atravessando momentos difíceis, entre eles está Márcia Boaventura, nossa
coordenadora do atendimento fraterno. A propósito, continuou o responsável pela
área doutrinária, estava pensando em fazer uma visita para nossa irmã no desejo
de levar nosso apoio. Segundo me informaram, parece que o marido a teria
proibido de continuar suas tarefas, dizem que ele se entregou a uma seita
fanática.
— Sem
dúvida, respondeu Castro,
haveremos de visitá-la
em momento oportuno.
Livro: Aconteceu na Casa
Espírita
Emanuel Cristiane/Nora.
Francisco Rebouças.