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terça-feira, 18 de outubro de 2016

AMBIÇÃO

Era noite. 
O mentor Silvério Pires recomendou-me esperá-lo por instantes. 
Em seguida, veio a mim explicando: 
Augusto, temos serviço urgente. Venha comigo. Trata-se de um pedido de mãe devotada, em apoio de um filho enfermo. 
Obedeci, de imediato, mesmo porque o orientador é um desses professores diletos a que nos vinculamos por afetuoso reconhecimento. 
Alguns minutos voaram e atingimos um  palacete de primorosa estrutura, cercado por jardins que brilhavam ao luar, dentro da noite. 
Entramos. 
O mentor parecia familiarizado com os mínimos recantos do solar, enriquecido de tapetes e telas raras. 
Em aposento próximo, mobiliado segundo os hábitos portugueses do século XVIII, um homem, aparentando cinqüenta janeiros, escrevia e escrevia... 
Porque estacássemos, de repente, perguntei surpreso ao meu condutor: 
- Onde está o doente? 
O amigo fez um gesto de proteção, sobre a cabeça do homem que me era desconhecido e acentuou: 
- Este é o irmão Celestino que nos requisita assistência. 
Fitei o desconhecido, da cabeça aos pés e não lhe notei qualquer anormalidade. 
Entretanto, o mentor solicitou-me: 
- Tome papel e lápis e copie a carta em andamento.Trata-se de um estudo que nos cabe fazer. 
Sem vacilar, passei a escrever o texto que o desconhecido produzia à nossa frente. 
Era uma carta que ele provavelmente endereçava a algum irmão distante, e assim dizia: 
"Meu caro Aprígio: 
Segure os cinqüenta mil sacos de arroz no armazém número dois e aguardemos mais preço. Os dez mil litros de óleo para cozinha, mantenha você em estoque e os dois mil sacos de café em grão guarde no armazém quatro. Não venda bulhufas. Mais algumas semanas e estaremos numa boa. Tudo isso terá preços altos, nos próximos dias. 
E olhe: Não dê migalha alguma a ninguém. Religiosostêm vindo aqui a me pedir socorro. Dizem que os tutelados deles estão em carência.Até freiras já vieram aqui com petitórios. 
Não atenda a ninguém se você for procurado. Esse negócio de religião e caridade já era. Um certo amigo chegou a me dizer que a minha fazenda pela qual suei tanto, pertence a Deus e a mim, que eu não passo de sócio. Eu queria que esse  maluco visse os meus terrenos quando Deus estava aqui trabalhando sozinho. Era mato e cobras em  toda parte. Fique tranqüilo e nada de coração mole. Espero estar aí na próxima semana. 
Até quinta-feira. 
Um abraço do seu irmão Celestino" 
Celestino, pois esse era o nome de nosso anfitrião,colocou a caneta em lugar adequado e, logo após, levou a mão ao peito. Gemia. Afigurava-se-me que ele sentia muita dor. 
Em dado momento, pressionou o botão de uma campainha e estirou-se em larga poltrona. 
Um servidor apareceu. 
Celestino pediu um coronário-dilatador e a presençado seu médico particular. 
O cardiologista surgiu com presteza e determinou a remoção do doente para um hospital. 
Pires sentenciou: 
- Devemos acompanhá-lo. Esta é a última noite de nosso amigo na vida física. 
Internado, Celestino estava submetido a minuciosos exames. 
Silvério se dispôs à retirada e disse-me simplesmente; 
- Veja você. Tanta ambição e dentro de poucas horaso nosso amigo estará desencarnado, sob a suspeita de enfarte. Amanhã viremos buscá-lo. 
Nada mais acrescentou e eu fiquei a meditar sobre a lição recebida. 

Livro: Fotos da Vida
Chico Xavier/Augusto Cezar

Francisco Rebouças