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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

As crenças antigas

É-nos  desconhecida  a  natureza  íntima  da  alma.  Dizendo-se que ela é  imaterial, esta  palavra deve ser  entendida  em sentido relativo  e  não  absoluto,  porquanto  a  imaterialidade  completa seria  o  nada.  Ora,  a  alma  ou  o  espírito é  alguma  coisa  que pensa, sente e quer; tem-se, pois, que entender, quando a qualificamos  de  imaterial,  que  a  sua  essência  difere  tanto  do que  conhecemos  fisicamente,  que  nenhuma  analogia  guarda com  a matéria.
Não  se  pode  conceber  a  alma,  senão  acompanhada  de  uma matéria qualquer que a individualize, visto que, sem isso, impossível lhe fora se pôr em relação com o mundo exterior. Na Terra, o  corpo  humano  é  o  médium  que  nos  põe  em  contato com  a Natureza; mas, após  a morte, destruído que se acha o organismo vivo, mister se faz que a alma tenha outro envoltório para entrar em relações com o novo meio onde vai habitar. Desde todos os tempos, essa indução lógica  foi  fortemente sentida e tanto mais quanto as aparições de pessoas mortas, que se mostravam com a forma que tiveram na Terra, fundamentavam semelhante crença.
Quase sempre, o corpo espiritual reproduz o tipo que o Espírito tinha  na  sua  última  encarnação  e,  provavelmente, a essa semelhança  da  alma  se  devem  as  primeiras  noções acerca  da imortalidade.
Se também ponderarmos que, em sonho, muitas pessoas vêm parentes ou amigos que já morreram há longo tempo, que esses parentes  e  amigos  conversam  com  elas,  parecendo  vivos  como outrora,  não  nos  será  talvez  difícil  encontrar  em  tais  fatos  as causas da crença, generalizada entre os nossos ancestrais, numa outra vida.
Verifica-se,  com  efeito,  que  os  homens  da  época  pré-histórica,  a  que  se  deu  o  nome  de  megalítica,  sepultavam  os mortos, colocando-lhes nos túmulos armas e adornos. É, pois, de supor- se  que  essas  populações  primitivas  tinham  a  intuição  de uma  existência  segunda,  sucessiva  à  existência  terrena.  Ora,  se
há  uma  concepção  oposta  ao  testemunho  dos  sentidos,  é precisamente  a  de  uma  vida  futura.  Quando  se  vê  o  corpo físico tornado insensível, inerte, malgrado a todos os estímulos que se empreguem; quando se observa que ele esfria, depois se decompõe, torna-se difícil imaginar que alguma coisa sobreviva a essa desagregação total. Não obstante, se apesar dessa destruição, se observa  o  reaparecimento  completo  do  mesmo  ser,  se  ele demonstra, por atos e palavras, que continua a viver, então, mesmo aos  seres  mais  frustros  se  impõe,  com  grande  autoridade,  a conclusão  de  que  o  homem  não  morreu  de  todo.  Só,  provavelmente,  após  múltiplas  observações  desse  gênero,  foi que  se estabeleceram  o  culto prestado  aos despojos mortais  e a crença numa outra vida em continuação da vida terrestre.
 
Livro: A Alma é Imortal
Gabriel Delanne
 
Francisco Rebouças