Solidarity Spiritist Societ

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O LAR DAS CRIANÇAS

Amigos  espirituais  diversos,  estávamos  a  postos.  E  os companheiros  encarnados  iam chegando. 
Seriam  discutidos  os  estatutos  para  a  fundação  do  lar  de crianças,  junto  a  grande organização espírita. 
Mesa-redonda. 
Cada qual poderia expender francamente seus pontos de vista. Desabafo. Franqueza. Antes, porém,  o  cafezinho.  E,  ao cafezinho,  Augusto  Franco,  conselheiro  da  casa  e  dos mais experientes, argumentava: 
- Se  Deus  não  se  compadece  da  Humanidade,  estaremos perdidos.  O  campo  social  é manicômio  sem  portas.  Todos brincam  de  viver.  Há  por  toda  parte  soberano  desprezo ao trabalho, e o vício e a criminalidade vão crescendo. Abusos no cinema. Preguiça delituosa. 
Todas  as  bebidas  liberadas.  Maconha.  Máquinas  e  empregados para  todos  os  misteres. 
Residências  superluxuosas.  Festas  inoportunas. Há domicílios com  bilhares,  bar  interno, cinema próprio, salões de baile e piscinas, quando temos milhares de companheiros a quem falta  o estritamente  necessário.  Altas  rodas  passam  a noite  no  pif-paf. Pais  e  mães abandonam  meninos  a  criaturas mercenárias  que, muitas  vezes,  lhes  administram entorpecentes para estarem, durante a noite, mais à vontade. E, em conseqüência, temos a granel  quadrilhas  juvenis, tragédias passionais, crianças delinquentes  e  vagabundos inveterados. 
E alongou-se a crônica verbal. 
O  ponderado  orientador  da  casa,  tantas  vezes  esteio  firme  da instituição,  registrou  com acerto todos os desacertos do mundo. 
A pequena assembléia ouvia, ouvia... 
Nisso, porém, o horário avançou além do tempo previsto. 
- E a nossa reunião? _ perguntou Franco, percebendo que retardara. 
Os companheiros, todavia, pareciam desenxabidos... Todos monossilábicos. 
- Creio seja melhor adiar... - disse Cunha, o presidente da casa. 
E Leivas, o tesoureiro, aderiu, aprovando com a cabeça. 
- Outro dia...- acrescentou D. Ricardina, a secretária. 
E todos os demais, à uma, pronunciaram a palavra "depois". 
Franco, porém, não concordou. 
Sentia-se culpado e pedia escusas. Exigia. Que o perdoassem pela comprida conversação, 
mas vivia espantado com os desastres morais. 
II 
Não houve outro recurso senão atendê-lo. 
O prestimoso conselheiro instava com tanta humildade que Felício Cunha buscou a papelada e, como de outras vezes, pronunciou a prece de abertura, rogando a inspiração de Jesus. 
Foram  iniciados  os  estudos  para  o  lançamento  da  obra,  e, porque  todos  os  amigos gaguejassem, como se estivessem receosos de expor o pensamento, Cunha foi claro. 
- Augusto - falou, corajoso -, creio que todos nós, sem prévia combinação, preferiríamos o entendimento para outra hora, a fim de não contrariarmos a você mesmo. 
- Ora essa! Como assim? 
E Cunha, abrindo um relatório: 
- Você é o autor da maior parte de nossos planos. Veja bem. Você quer uma casa complexa. 
Esperamo-la  simples.  Você  quer  um  monumento.  Aspiramos  a um  lar.  Você  pede  a construção de trinta e dois aposentos. Pretendemos apenas quinze, e olhe lá que vão abrigar muitas crianças. Você solicita um salão de festas. Não queremos qualquer ruído inútil. Você reclama empregados pagos. Não tencionamos remunerar cooperador algum. Você julga que as  crianças  devem ser  mantidas  sem  trabalho.  Consideramos  que  todas  devem estudar e servir,  segundo  a  vocação  e  a  capacidade  delas, fazendo-se  úteis  o  mais  cedo  possível. 
Você  espera  um  parque  de  brincar,  adornado  com  uma  fonte luminosa.  Nós  tememos semelhante  aquisição,  que  viria favorecer  a  irresponsabilidade  infantil.  Você  planeja  a compra de  noventa  globos  e  dez  lustres  para  luzes  elétricas.  Estamos satisfeitos  com quarenta lâmpadas simples. Você propõe a compra de muitos metros quadrados de ladrilhos brancos e azuis. Não contamos com material dessa espécie, crendo que os ladrilhos singelos nada deixam a desejar. Você indica várias peças de mármore. Escolhemos apenas cimento. 
Você diz que precisaremos de quarenta colchões de mola. Teremos colchões vulgares. Você especifica  um  número  exagerado  de pias  e  banheiros,  tapetes  e  móveis.  Sonhamos  uma casa confortável, sem ser suntuosa, simples sem ser miserável, onde as crianças não sejam bibelôs  para  os  nossos  caprichos  e,  sim, nossos  próprios  filhos.  E  como  suspiramos  por nossos  filhos libertos  dos  prejuízos  morais  que  vergastam  a  Terra, admitimos seja  nosso dever não enganar a nós próprios, abraçando a realidade sem os perigos da fantasia, porque realmente, meu caro, o futuro vem aí... 
Augusto  Franco,  apanhado  de  surpresa,  mastigou  em  seco, tossiu,  pigarreou  e  disse desapontado: 
- É... é ..., de fato vocês têm razão ... 
E depois de um instante em silêncio, como se estivesse falando para dentro de si: 
- Meu Deus, é muita coisa sobrando! ... 
Lima, contudo, o vice-presidente da casa, pediu que fosse adiado o debate geral do assunto, e Cunha, com aquiescência de todos, orou, calmo, encerrando a reunião. 
Livro: A Vida Escreve
Chico Xavier e Waldo Vieira/Hilário Silva

Francisco Rebouças