Por mais problemático que seja o
nosso convívio com alguns dos nossos parentes mais difíceis, deveremos ter para
com eles a mesma generosidade e compreensão que temos para com os demais. Na
certeza de que as Leis de Deus não nos enlaçam uns com os outros sem causa
justa, e que essa convivência para nós é necessária, positiva e importante
experiência na aprendizagem da vida em busca da nossa tão sonhada ascendência
moral.
O parente-problema é sempre um
teste com que a vida nos examina e avalia o aprendizado no campo das virtudes
do espírito imortal onde, muitas vezes, essas criaturas complicadas que nos
fazem companhia no restrito grupo familiar, trazem consigo as marcas de
sofrimento ou deficiências que lhe foram impostas por nós mesmos em passadas
reencarnações. Com absoluta certeza não agimos para com elas de acordo com os
ensinamentos cristãos, e por isso mesmo, estão de volta ao nosso convívio.
Não devemos de modo algum exigir
dos familiares, que ora pensam e agem diferentemente do nosso modo de pensar e
agir de hoje, um comportamento igual ao nosso. Porquanto cada qual se
caracteriza pelas experiências boas ou más, negativas ou positivas que
representam na atualidade para cada indivíduo as vantagens ou prejuízos que
acumulamos na própria alma.
Nada justifica descartarmo-nos
deles enviando-os para as casas de repouso, com internações, na maioria das
vezes, desnecessárias. A forma de pagamento em tais casos não é com o dinheiro
representado pela moeda corrente do país. A desvinculação real de nossos
compromissos para com a Lei de Justiça e Amor só se dará no emprego do nosso
árduo trabalho com boa-vontade e com sincero desejo de vê-los recuperados em
seu equilíbrio e em sua paz, utilizando-nos para isso dos processos ensinados
pelo doce Nazareno no “Amar ao próximo como a nós mesmos”, se quisermos lograr
êxito na quitação dos próprios débitos ante a Vida Maior.
A parentela corporal e a
parentela espiritual
“Os laços do sangue não criam
forçosamente os liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o
Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da
formação do corpo. Não é o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não
faz do que lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto,
auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral do filho, para fazê-lo
progredir.
Os que encarnam numa família,
sobretudo como parentes próximos, são, as mais das vezes, Espíritos simpáticos,
ligados por anteriores relações, que se expressam por uma afeição recíproca na
vida terrena. Mas, também pode acontecer sejam completamente estranhos uns aos
outros esses Espíritos, afastados entre si por antipatias igualmente
anteriores, que se traduzem na Terra por um mútuo antagonismo, que aí lhes
serve de provação. Não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de
família e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os quais prendem os
Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Segue-se que dois seres
nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o
fossem pelo sangue. Podem então atrair-se, buscar-se, sentir prazer quando
juntos, ao passo que dois irmãos consanguíneos podem repelir-se, conforme se
observa todos os dias: problema moral que só o Espiritismo podia resolver pela
pluralidade das existências. (Cap. IV, nº 13.)
Há, pois, duas espécies de
famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços
corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela purificação e se perpetuam
no mundo dos Espíritos, através das várias migrações da alma; as segundas,
frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem
moralmente, já na existência atual. Foi o que Jesus quis tornar compreensível,
dizendo de seus discípulos: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, isto é, minha
família pelos laços do Espírito, pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai
que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
A hostilidade que lhe moviam seus
irmãos se acha claramente expressa em a narração de São Marcos, que diz terem
eles o propósito de se apoderarem do Mestre, sob o pretexto de que este perdera
o espirito. Informado da chegada deles, conhecendo os sentimentos que nutriam a
seu respeito, era natural que Jesus dissesse, referindo-se a seus discípulos,
do ponto de vista espiritual: “Eis aqui meus verdadeiros irmãos.” Embora na
companhia daqueles estivesse sua mãe, ele generaliza o ensino que de maneira
alguma implica haja pretendido declarar que sua mãe segundo o corpo nada lhe
era como Espírito, que só indiferença lhe merecia. Provou suficientemente o
contrário em várias outras circunstâncias.”. (1)
É preciso entender que os
conflitos do lar terrestre quase sempre foram dívidas que contraímos por
atacado. E que o Soberano Criador nos concede a bênção de podermos quitar cada
uma delas pelo sistema de suaves prestações por não dispormos, até a presente
oportunidade, de valores suficientes para nos livrar com a mesma facilidade com
que as contraímos no uso exclusivo do nosso livre arbítrio tendencioso e
equivocado de outrora.
Referência:1 – Kardec, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIV, item 8.CAPÍTULO XIV.
Francisco Rebouças
