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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

ANTE O AMIGO SUBLIME DA CRUZ

Hoje, Senhor, ajoelho-me diante da cruz onde expiraste entre ladrões... 

Amigo Sublime, digna-Te abençoar as cruzes que mereço!... 

De Ti anunciou o profeta que Te levanta-rias, junto do povo de Deus, como arbusto verde em solo  árido;  que  não permanecerias, entre  nós,  como  os  príncipes  acastelados  na glória humana,  e sim  como  homem  de  dor,  experimentado  nos trabalhos  e sofrimentos  ;  que passarias  na  Terra,  ocultando Tua grandeza aos  nossos  olhos,  à  maneira  de  leproso humilhado e desprezível, mas que, nas Tuas chagas e nas Tuas pisaduras, sararíamos as nossas iniquidades, redimindo nossos crimes; que poderias revelar ao mundo a divindade de Tua ascendência, demonstrando o Teu infinito poder e que, no entanto, preferirias a suprema renúncia, caminhando como a ovelha muda para o matadouro ; e que, embora assinalado como  o  Escolhido  Celeste, serias  sepultado  como  ladrão  comum...  Acrescentou  Isaías, porém, que, depois de Teu derradeiro sacrifício, novas esperanças desabrochariam no plano escuro  da  Terra,  através  daqueles  que seriam  os  Teus  continua  dores,  na  abnegação santificante!... 

E  as  Tuas  lágrimas,  Senhor,  orvalharam  o  deserto  de  nossos corações  e  as  abençoadas sementes de Teus ensinamentos vivos germinaram no solo ingrato do mundo. 

Mais  de  dezenove  séculos  passaram  e  tenho  ainda  a impressão de  ouvir-Te  a  voz compassiva, suplicando perdão para os algozes... 

Ah!  Jesus,  compadece-Te  de  minhas  franquezas  e  vem,  ainda, balsamizar-me  o  coração ferido e desalentado! ensina-me a despir a ultima roupagem de mundana esperança, dá-me forças para olvidar as últimas ilusões! 

Sem que merecesses, atravessaste o caminho de dor, suportando o madeiro da ignomínia! 

Ajuda-me, pois, a suportar o madeiro de lágrimas que mereço, no resgate de meus imensos débitos! 

Amigo  Sublime,  que  subiste  o  monte  da  crucificação, redimindo  a  alma  do  mundo, ensinando-nos, do cume, a estrada de Teu Reino, auxilia-me a descer para o vale fundo do anonimato, a  fim  de  que  eu  veja  as  minhas  próprias  necessidades,  na solidão  dos pensamentos humildes. 

Mestre, que representa minha dor, diante da Tua? Quem sou eu, mísero pecador, e quem és Tu, Mensageiro da Luz Eterna? 

De quantas chagas necessita o meu frágil coração para expungir os cancros seculares do egoísmo, e de quantos açoites precisarei para exterminar o orgulho impenitente? 

Abre-me a porta de tuas consolações deteve, para que me renove à luz de Tua bênção! 

Não Te peço, Senhor, como o rico da Parábola, a permissão de voltar ao mundo, a fim de anunciar aos que ainda amo a grandeza de Teu poder; entretanto, rogo o Teu auxílio, para que me não falte visão no caminho redentor. Não posso precipitar-me no abismo que separa a minha fragilidade da Tua magnificência; todavia, posso atravessá-lo, passo a passo, como peregrino de Tua misericórdia. 

Coração oprimido e cansado pelas sombras de minha própria alma, dá  que  me  desfaça,  sem  custo,  dos  derradeiros  enganos,  antes de  seguir  mais firmemente a Teu encontro! Despojado de meus transitórios tesouros, mãos limpas das jóias que me fugiram dos dedos trêmulos, concede-me o bordão dos caminheiros, aparentemente sem rumo por se destinarem aos países ignorados do Céu! 

Rendo-me,  agora,  sem  condições,  ao  Teu  amor  infinito, confio-Te  minhas  ansiedades supremas e meus sonhos mais ternos de lutador, e já que é necessário abandonar o meu velho  cântaro  de fantasias,  troca-me  a  túnica  das  ultimas  vaidades  literárias  pelo burel humilde  do  viajor,  interessado  em  atingir  o  berço distante,  embora  os  atalhos  difíceis  e pedregosos! 

Enche a solidão de meu espírito com a Tua luz, como encheste de perdão, um dia, a noite de nossa  ignorância!  Desvenda-me  a  Tua vontade  soberana,  para  que  eu  me  retive,  sem esforço, das grades infelizes do capricho terrestre! Ainda que eu não possa divisar todos os escaninhos  da  nova  senda,  dá-me  Tua  claridade misericordiosa,  para  que  meus  olhos imperfeitos não andem apagados. 

Mestre, atende ao peregrino solitário que Te fala, ao pé da cruz, com a dor sem revolta e com a amargura sem desesperação! 

Amigo Sublime, Tu, que preferiste o madeiro do sacrifício, entre o mundo que Te repelia e o Céu que Te reclamava, por amor aos homens e obediência ao Pai, orienta-me na jornada nova!  Se  é possível,  retira  da  cruz  a,  destra  generosa,  que  cravamos  no lenho  duro  da ingratidão  com  as  nossas  maldades  milenárias,  e abençoa-me  para  o  longo  roteiro  a percorrer! 

Tenho a alma sombria e enregelado o corarão! 

E  enquanto  passam,  inquietas,  as  multidões  ociosas  do  mundo, no  turbilhão  de  poeira venerada, fala-me, Senhor, como falavas aos paralíticos e cegos de Teu caminho: 

– “Levanta-te e vai em paz! A tua fé te salvou!...” 

Livro: Lázaro Redivivo
Chico Xavier/Irmão X
Francisco Rebouças