As atividades prosseguiam árduas,
tendo-se em vista o
número de vítimas
que foram arrebatadas pela grandiosa tragédia.
Lamentavelmente, sem
qualquer preparação para o enfrentamento
da realidade espiritual,
debatiam-se nas amarras fortes do corpo em putrefação, tentando reanimá-lo, a fim
de recomeçaram o banquete dantesco das ilusões. Quando os esforços não se coroavam de êxito,
o que jamais
acontecia, o desespero
alucinava-as, demonstrando que
viveram apenas para as sensações.
Certamente, havia
muitos Espíritos enobrecidos
pelo trabalho e
pela dignidade, pela fé religiosa
esposada, pelos valores morais a que se entregavam, que eram socorridos por familiares
queridos que os
anteciparam na romagem
da Imortalidade, por
abnegados mentores que os auxiliaram na jornada terrestre.
Referimo-nos à
maioria, à mole
humana descuidada, para
a qual a
existência é apenas uma viagem ao
país das quimeras, sem o sentido profundo de que se reveste.
Como, porém, o amor de Deus está
sempre presente, não lhes faltavam socorros efetivos do
mundo espiritual, como
ocorria em relação
ao nosso pequeno
grupo de afeiçoados ao Bem.
Encontrava-me atendendo
a uma senhora
desencarnada, ajudado pelo
irmão Oscar, que tentava
romper inutilmente os
liames perispirituais, experimentando muitas angústias.
Dei-me conta
do seu estado
adiantado de gestação,
notando a presença
do Espírito-feto, que se
encontrava adormecido após a morte
orgânica, porém, i mantado
ao corpo da mãezinha.
Sem saber como proceder, recorri
à ajuda do benfeitor que, solícito, acercou-se-nos, sugerindo que, primeiro,
tentássemos adormecer a genitora, a fim de ser providenciado o parto.
Concentrando-nos, ambos,
aplicamos energias calmantes
na senhora aflita,
que lentamente asserenou-se, adormecendo.
O Dr. Charles
pediu a Ana
que atendesse ao filhinho,
enquanto ele aplicava
recursos especiais na
área do chakra
coronário do pequenino, diluindo
a energia densa,
que se foi
alterando, mudando de
tonalidade e de formato até diluir-se como um fio
que se esgarça, sendo separadas totalmente as
fibras de energia que os uniam.
Vide nosso livro "PAINÉIS DA OBSESSÃO", capítulo XV - Trama do ódio. Editora LEAL — Nota do autor espiritual.
Nesse comenos, observamos que a
gestante movimentou-se, embora adormecida, e expeliu uma espessa massa informe,
como se fora o parto. Logo nos demos conta de que se tratava da condensação
mental de ambos, filho e genitora, acumulada no útero, em cujo claustro
desenvolvia-se a gestação.
A partir desse momento, o seu
sono tornou-se reparador tranquilo. Na
etapa final do processo, o Espírito,
que não lograra
a benção da
reencarnação, experimentou um grande choque, enquanto vimos o corpo da
desencarnada absorver os fluidos densos que o retinham, sendo atraídos pelo seu
cadáver.
Notei, curiosamente
que, de imediato,
o processo de
decomposição tornou-se mais rápido,
apesar de já
o haver iniciado.
As bactérias encarregadas
da destruição dos tecidos pareceram vitalizadas, e
aumentaram infinitamente, com voracidade que
não tivera ocasião de perceber anteriormente.
Dr. Charles explicou-nos
que a flora e a fauna microbiana que
se encarregam de estruturar e
desorganizar a aparelhagem física, são mantidas por uma lei natural, porem, é o
fluido universal que lhes dá vitalidade
ou que se encarrega de aniquilá-las, quando já não se fazem necessárias.
No caso em
tela, as impressões
físicas transmitidas pelo
Espírito, de alguma forma,
preservavam determinadas áreas orgânicas menos sensíveis à decomposição, retardando
lhes o processo degenerativo.
O recém-liberado foi conduzido
por Ana, a uma das áreas especiais, de onde seria conduzido para o
despertamento fora daquele campo, indo habitar uma comunidade infantil própria
ao seu futuro desenvolvimento.
A mãezinha, adormecida, logo
depois, foi recambiada para o lugar de onde seria também transferida com
aqueles que podíamos
considerar como melhorados
e que, ao despertarem campo de refazimento,
padeceriam menos angústias.
Ela esperara o filhinho com essa
ternura infinita de
quem deseja a
maternidade dignificada. O
esposo, conforme elucidou Dr.
Charles — após
alguma reflexão —
houvera também desencarnado, não
ali, mas numa
das ilhas do
país, onde se
encontrava em atividade
comercial.
Certamente, em razão
da lei das
afinidades, logo despertasse,
teria meios de reencontrar os
seres queridos, utilizando-se
dos recursos de
orientação e esclarecimento que foram instalados em nossa
esfera de ação.
Encontrava-me edificado
com as lições
que acabara de
registrar. E porque necessitasse de
alguns esclarecimentos, solicitei
ao nobre amigo
que me auxiliasse
no entendimento da dolorosa
ocorrência: a desencarnação
da gestante e
do seu filhinho, naquelas circunstâncias,
considerando-se que se encontrava quase no momento de renascer no corpo físico.
Sem fazer-se
rogado, o nobre
amigo reflexionou por
um pouco, e
narrou-nos, a mim e ao irmão
Oscar:
—
A nossa irmã viveu, em sua penúltima reencarnação, em uma das milhares
de ilhas da Indonésia,
exatamente aquela em
que, há pouco,
desencarnou o seu
esposo, naquela ocasião também seu consorte…
"Entregavam-se, então, a
práticas mágicas e supersticiosas muito comuns em toda parte, especialmente em muitas das
ilhas de cultura
ainda primitiva, porque
distantes da civilização, vivendo
costumes tribais. Tidos como possuidores de dons espirituais, em muitas das
suas atividades, ela e os Espíritos infelizes com os quais se homiziava,
exigiam sacrifícios de crianças, por
serem inocentes, e
cujas vidas dariam
alegria, saúde e
felicidade àqueles que se
permitissem utilizá-las. Assassinaram, desse moda algumas crianças indefensas,
cujos pais, ignorantes e perversos, permitiam a sua imolação, vitimados pelos
costumes bárbaros.
"Ao desencarnarem, foram
surpreendidos por algumas
das suas vítimas,
que os arrastaram a punições
severas, encarceramentos terríveis, submissões humilhantes. Sempre estarão em
sintonia os devedores e os seus insensíveis cobradores.
"Como, porém, sempre estando
presente a justiça, o amor apresentou-se-lhes em forma de misericórdia e os
recambiou à atual reencarnação, na qual foram constrangidos a encerrá-la de
maneira dolorosa, superlativamente triste.
"Terminado o
resgate, que se
impuseram por necessidade
iluminativa, recomeçarão, noutra oportunidade, o processo de crescimento
para Deus, edificando um lar no qual estarão presentes numa família numerosa
alguns dos desafetos, hoje desditosos e sedentos de
vingança. O amor é a
luz que apaga
a escuridão do
ódio, diluindo-o em claridades de ternura e de
compreensão."
Silenciou, por um pouco, para
logo concluir:
— O filhinho, que lhe veio
imantado ao perispírito, após havê-los perdoado, sofreu a reparação pelo mal
que lhes impusera
no período em
que estiveram na
erraticidade inferior. Voltará ao carreiro físico, também, rico de esperança
e de alegria.
"O genitor desencarnou na mesma ilha onde praticara
magia negra e cometera os hediondos
crimes, havendo sofrido
um processo prolongado
antes de concretizar-se o fenômeno
biológico da morte
orgânica. Foi lento
o deslindar -se das
amarras carnais, experimentando
aflições superlativas, até a consumpção total.
"As Soberanas Leis sempre se
encarregam de reequilibrar a ordem onde se hajam manifestado a agressividade e
o crime, o despautério e a crueza dos
sentimentos. Ninguém, que agrida a
vida, prosseguirá em
liberdade, porque ficará
imantado ao erro,
até que reconquiste a paz
resultante do dever nobremente exercido e da consciência harmonizada.
"Por outro
lado, onde se
encontre o agressor
sandeu, a de
vinculada estará a vítima que, não o havendo perdoado,
estabelecerá seus planos de vingança.
"Sempre, portanto, que se
viva com harmonia, desincumbindo-se dos deveres que lhe dizem respeito com
seriedade e elevação, será lograda a felicidade real, aquela que nada consome."
Quando silenciou,
deixou-nos uma sensação
de coragem, assinalada
pela alegria de viver no serviço
de auto iluminação.
À
noite, porém, prosseguia
lúgubre, ameaçadora. De
certo modo, relâmpagos
e trovões, chuvas intermitentes
tornavam o nosso
trabalho mais penoso.
Não se tratava de fenômenos
terrestres, mas de
tormentas espirituais defluentes
das vibrações grosseiras
e dos campos magnéticos sobrecarregados de energias deletérias.
Na imaginação de alguém menos
experimentado, logo se teria ideia de tratar-se ali do Inferno mitológico, onde
não luzem a misericórdia, nem a compaixão.
A diferença, é que o amor de Deus
ali se encontrava em atividade, diminuindo as tenazes constritoras do
sofrimento que colhera
rapidamente aquelas dezenas
de milhares de existências em
plena exuberância fisiológica e demorada ilusão física.
Não havia,
porém, tempo, para
aprofundar reflexões, que
ficariam para ocasião própria, sendo-nos
indispensável servir, quanto
nos estivesse ao
alcance, sem medirmos esforços para
libertar os irmãos
equivocados, pouco importando
as suas origens,
as circunstâncias da desencarnação, a religião que professavam.
O Bem não se detém ante qualquer
tipo de fronteira, limite, preconceito, porque é emanação divina para a
edificação da vida.
Constatava, mais
uma vez, que
cada criatura é
um ser especial,
verdadeiro universo a descobrir, desconhecido por ela própria. Em
consequência, cada desencarnação é especial, típica de cada indivíduo, porque
caracterizada pela sua realidade pessoal.
Muito difícil
estabelecerem-se regras comparativas
sobre a existência
e a desencarnação dos
seres. Certamente, há
biótipos que servem
de padrão para
que se realizem paralelos que
ajudam no entendimento das circunstâncias e das suas ocorrências.
Compreensivelmente, defrontávamos
essa diversidade de
comportamento entre aqueles desencarnados, que
se lançavam à
aceitação do fenômeno
que se consumara, arrebatando-os da esfera física.
As circunstâncias imprevistas, manifestando-se com a força titânica da
destruição, surpreendera-os, sem que houvessem tido tempo sequer de entender o
que lhes estava acontecendo. A onda gigante fora tão veloz e avassaladora que
arrastou de roldão tudo quanto se lhe encontrava à frente, deixando um rastro
de destruição inimaginável.
Transferidos coletivamente
para o
mundo espiritual, sem perceberem os
demais que foram recambiados
juntos, cada qual
permanecia prisioneiro das
suas sombras e encantamentos, sem estrutura emocional para
conceber o que lhes acabara de acontecer, deixando-os enlouquecidos.
Ainda meditava
em torno do
drama da senhora
gestante desencarnada, quando tive a atenção despertada para uma
dama que se encontrava profundamente vinculada aos despojos em estado
deplorável. Gritava muito, inspirando nossa compaixão e sarcasmo na chusma de
perversos obsessores, que a martirizavam com motejos vulgares, enquanto ela intentava
romper os vínculos para ir procurar o filhinho cujo paradeiro desconhecia.
Estava, mais ou menos, informada sobre a morte que a arrebatara, não
compreendendo as forças que a mantinham presa ao corpo, quase totalmente.
Chamava pelo
filho com voz
pungente, logo se
alucinando, tentando arrancar
os cabelos, ferir-se, atirando-se
ao solo contínuas
vezes, buscando levantar
os destroços materiais.
Dr. Charles
acercou-se e auscultou-a
psiquicamente, procurando ler
nas suas paisagens mentais as
ocorrências, momentos antes da tragédia coletiva.
Falou-nos que
se encontrava distante
da praia, na
residência humilde, quando
a mesma desabou sob a força incoercível da onda poderosa que diminuíra
de volume.
Desencarnara, imediatamente, sob
os destroços que
a esmagaram. O choque adormeceu-a por largo período,
havendo despertado em desespero, menos de um dia após, dando-se conta, relativamente,
do que acontecera.
—
A sua angústia maior — elucidou-nos
— era o fato de ignorar o que
sucedera com o filhinho, razão que fora da sua existência, no período de viuvez
que a surpreendera meses antes.
Com bondade paterna e sabedoria
haurida na sua nobre existência, ele procurou detê-la por um pouco, mediante
projeção de raios luminosos que a envolveram, limitando lhe os movimentos,
e após
dizer algumas palavras
à sua enfermeira
dedicada, pôs-se a conversar com a desesperada.
O seu
forte pensamento era
captado pela enferma
de maneira clara,
através de imagens decodificadas
pelo Espírito sofredor, conseguindo acalmá-la, a pouco e pouco.
Nesse comenos, Ana chegou,
trazendo nos braços, sorridente e bela, uma criança de pouco
mais de um
ano de idade,
que desencarnada, logo
se recuperara do
drama, apresentando-a ao médico.
Esse, por sua vez, colocou-a nos
braços da desafortunada o filhinho jovial, que a fez sorrir e acalmar-se, logo
passando a cantar uma balada para o adormecer.
De imediato, fomos
convidados a diluir os liames
perispirituais que a retinham ao corpo, conseguindo, alguns momentos depois, a
total liberação.
Aturdida, no instante da
emancipação do corpo, pareceu perder o equilíbrio, em razão da gravidade ambiente,
no que foi
socorrida por Ana,
que lhe tomou
o filhinho, enquanto nós
a segurávamos e o Dr.
Charles hipnotizava-a, a fim de
que, serena, adormecesse, o que
aconteceu sem detença. Logo após, os padioleiros a transferiram para a área
pertinente, levando, também, o filhinho adormecido.
Os milagres que o amor opera são
contínuos e ricos de beleza, vencendo mesmo o denominado abismo da morte.
As horas, em consequência,
naquele báratro, arrastavam-se. lentas
e afligentes,carregadas de
acontecimentos insólitos, que nos enterneciam num momento, doíam-nos em outro,
e despertavam-nos sempre o amor e a compaixão em todos os casos.
Divaldo Franco/Manoel Philomeno
de Miranda
Francisco Rebouças
