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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Do Medo

O Golpe de Vento 
Hilário Silva 

Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrara a grande janela, à procura de ar fresco. 

Repousara minutos breves. 

Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim. 

Julgara haver lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte. 

Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico. 

E, não obstante espírita convicto, deixava-se levar por impressões.

Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos. 

A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro dos bacilos de Koch. 

Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas. 

Entretanto,  mal  não  acabara  de  se  convencer  do  contrário, quando,  numa  noite,  ao  sentir-se trêmulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson e foi nova luta para que lhe desanuviasse o crânio. 

Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou-lhe a pele e ei-lo  crente  de  que  fora  atacado pela  púrpura  hemorrágica,  obrigando  o  médico  e  a  família a difícil trabalho de exoneração mental. 

Naquele instante, contudo, via-se derrotado. 

Experimentando muita dor, buscara o consultório na  antevéspera  e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatóide, recomendando cuidados especiais. 

No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampagueantes no ombro esquerdo, tomou  o  livro  de  anotações  médicas  e  abriu  no  capítulo  alusivo  à  moléstia  que  lhe  fora diagnosticada. 

Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole d’água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume. 

Voltando, sobressaltado leu nas primeiras linhas da página: 

-  “A  moléstia  assume  a  forma  de  dor  pungente  e  agonizante. Geralmente  a  crise  perdura  por segundos  e  termina  com  a morte.  Sofrimento  agudo  e  invencível.  A  dor  começa  no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios”. 

Joanino rendeu-se. 

Quis gritar, pedir socorro, mas “a dor agonizante”,ali referida, crescia assustadora. 

Pensou na mulher e nos quatro filhinhos. 

Suava. 

Afligia-se como que sufocado. 

Não  podendo  resistir,  por  mais  tempo,  aos  próprios  pensamentos  concentrados  na  ideia  da desencarnação, rendeu-se à morte. 

Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele. 

O amigo abraçou-o emocionado, e falou: 

- É lamentável que você tenha vindo antes do tempo... 

-  Como  assim?  –  respondeu  Garcia,  arrasado.  –  Li  os sintomas  derradeiros  de  minha enfermidade. 

-  Houve  engano  –  explicou  o  instrutor  –  os  apontamentos  do livro  reportavam-se  à  angina  de peito e não à artrite reumatóide como a sua leitura fez supor. A corrente de ar virou a página do livro. Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com catorze anos de sobrevida... 

Entretanto, com o peso de sua tensão mental... 

Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento.

Marujo domina o mar Remando contra a maré. 

Sem sofrimento na vida, ninguém sabe se tem fé. 

Teotônio Freire Teme apenas a ti mesmo Na esfera do teu dever. 

Quem se amedronta consigo Nada mais tem a temer. 

Casimiro Cunha 
Para o homem iluminado a estrada não tem sombras. 
Mariano José Pereira da Fonseca 

Livro: Ideias e Ilustrações
Chico Xavier/ Diversos Espíritos

Francisco Rebouças