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sexta-feira, 17 de julho de 2015

JUSTIÇA DE CIMA

Quatro  operários  solteiros  quase  todos  da  mesma  idade  compareceram  ao  tribunal  de Justiça de Cima, depois de haverem perdido o corpo físico, num acidente espetacular.

Na Terra, foram analisados por idêntico padrão.
 
Excelentes  rapazes,  aniquilados  pela  morte,  com  as  mesmas  homenagens  sociais  e domésticas.
 
Na vida espiritual, contudo, mostravam-se diferentes entre si, reclamando variados estudos e diversa apreciação.

Ostentando, cada qual, um halo de irradiações específicas, foi conduzido ao juiz que lhes examinara o processo, durante alguns dias, atenciosamente.

O  magistrado  convidou  um  a  um  a  lhe  escutarem  as  determinações,  em nome do Direito Universal, perante numerosa assembleia de interessados nas sentenças.

Ao  primeiro  deles,  cercados  de  pontos  escuros,  como  se  estivesse  envolvido  numa atmosfera pardacenta, o compassivo julgador disse, bondoso:

-De tuas notas, transparecem os pesados compromissos que assumiste, utilizando os teus recursos  de  trabalho  para  fins  inconfessáveis.  Há  viúvas  e  órfãos,  chorando  no  mundo, guardando amargas recordações de tua influência.

E  porque  o  interpelado  inquirisse  quanto  ao  futuro  que  o  aguardava,  o  árbitro  amigo observou, sem afetação:

-Volta  à  paisagem  onde  viveste  e  recomeça  a  luta  de  redenção,  reajustando  o  equilíbrio daqueles que prejudicaste. És naturalmente obrigado a restituir-lhes a paz e a segurança.

Aproximou-se  o  segundo,  que  se  movimentava  sob  irradiações  cinzentas,  e  ouviu  as seguintes considerações:

-Revelam  os  apontamentos  a  teu  respeito  que  lesaste  a  fábrica  em  que  trabalhavas.

Detiveste vencimento e vantagens que não correspondem ao esforço que despendeste.

E, percebendo-lhe as interrogações mentais, acrescentou:

-Torna ao teu antigo núcleo de serviço e auxilia os teus companheiros e as máquinas que exploraste  em  mau  sentido.  É  indispensável  resgates  os  débitos  de  alguns  milhares  de horas, junto deles, em atividade assistencial.

Ao  terceiro  que  se  aproximou,  a  destoar  dos  precedentes  pelo  aspecto  em  que  se apresentava, disse o juiz, generoso:

-As informações de tua romagem no Planeta Terrestre explicam que demonstraste louvável correção no proceder. Não te valeste das tuas possibilidades de serviço para prejudicar os semelhantes, não traíste as próprias obrigações e somente recebeu do mundo aquilo que te era realmente devido. A tua consciência está quite com a Lei. Podes escolher o teu novo tipo de experiência, mas ainda na Terra, onde precisas continuar no curso da própria sublimação.

Em  seguida,  surgiu o último. Vinha nimbado de belo esplendor. Raios de safira claridade envolviam-no todo, parecendo emitir felicidade e luz em todas as direções.

O juiz inclinou-se, diante dele, e informou:

-Meu  amigo,  a  colheita  de  tua  sementeira  confere-te  a  elevação.  Serviços  mais  nobres esperam-te mais alto.

O trabalhador humilde, como que desejoso de ocultar a luz que o coroava, afastou-se em lágrimas de júbilo e gratidão, nos braços de velhos amigos que o cercavam, contentes, e, em razão das perguntas a explodirem nos colegas despeitados, que asseveravam nele conhecer um simples homem de trabalho, o julgador esclareceu persuasivo e bondoso:

-O  irmão  promovido  é  um  herói  anônimo  da  renúncia.  Nunca  impôs  qualquer  prejuízo  a alguém,  sempre  respeitou  a  oficina  em  que  se  honrava  com  a  sua  colaboração  e  não  se limitou  a  ser  correto  para  com  os  deveres,  através  dos  quais  conquistava  o  que  lhe  era necessário à vida. Sacrificava-se pelo bem de todos. Soube ser delicado nas situações mais difíceis. Suportava o fígado enfermo dos colegas, com bondade e entendimento. Inspirava confiança.  Distribuía  estímulo  e  entusiasmo.  Sorria  e  auxiliava  sempre.  Centenas  de corações seguiram-no, além da morte, oferecendo-lhe preces, alegrias e bênçãos.

A Lei Divina jamais se equivoca.

E  porque  o  julgamento  fora  satisfatoriamente  liquidado,  o  tribunal  da  Justiça  de  Cima, encerrou a sessão.
Livro: Contos e Apólogos
Chico Xavier/Irmão X

Francisco Rebouças