Solidarity Spiritist Societ

sábado, 27 de junho de 2015

O QUEIXOSO



Irmão X

Como tantos, o caso de  Argemiro Zaqueu é o seguinte:

Ele embaratustou   no   templo   espírita   e   se   postou   diante do   diretor   da   casa,   o   velho Epifânio Calístrato, choramingando...

–  Ai de mim!... O senhor é o presidente da casa, não é?

E, antes que Calístrato respondesse, prosseguiu:

–   Pois  é...   Pessoa   que   sofre   como   eu,   o   senhor   nunca   viu.   Já   não   aguento   mais.   É uma   penação   sem  fim,   dia   e   noite...   Já   me   tratei   de   muitos   modos,   remédio   não   dá   conta...

Saio   da   cama,   toda   manhã,   tremendo,   tremendo...   Vejo  vultos   rondando   o   aposento,   ouço vazes,  procura  saber  quem  é,  não  acho  ninguém.  É  um  enfaramento  de  tudo   e  de  todos,   que nem   sei   explicai...   Quando  olho   para   a   coitada   de   minha   mulher ,   noto   a   presença   de   outra pessoa nela...

Pessoa   que   os   demais   não   enxergam...   O   senhor   sabe   como   é...   Fico   atordoado, perco   a   cabeça,   atormentado   por   vazes   e   mais   vazes...   Se   bebo   café   ou   se   tomo   qualquer refeição,   desconfio   ser   veneno,   como   se   alguém  estivesse   soprando   ideias     estranhas   sobre   o meu pensamento... Não sei o que fazer de minha vida... Como devo agir, Seu Calístrato?

Epifânio   tornava   posição  para  responder   e  chegava  a  colocar   a  primeira   palavra  na comissura dos lábios; entretanto, Zaqueu voltava à carga:

–   Ah!   esqueci-me   de   dizer ...   Se   alguém   chega   em   casa,   alguém   que   não   seja   da família,   sinto  o  coração  batendo  acelerado  e  corro  a  esconder-me...  Tenho  medo  de  qualquer novidade.  Profissão,   já   larguei... Via   tanta  gente  que  ninguém  via  na  repartição   e  conversava tanto,   sozinho,   que  o   melhor   para   mim   foi   licença...   Sou   um   homem  desprezado...   T odos fogem   de   mim...   Meus   dois   filhos  perderam   o   respeito   e   gritam   na   minha   cara...   Minha mulher ,   por  duas  vezes,  já   me  levou  à  internação  em  casa  de  saúde,  mas   não  melhorei...  Seu Calístrato, que posso fazer?
Epifânio   debalde   tentava   dizer  alguma   coisa,   porque   Zaqueu   lhe   impunha   silêncio, lastimanda:

–  Ainda não contei o que passo na rua... Basta pôr o pé fora da porta e começa nova perturbação...  É  um  pavor  de  tudo,   que  nada  contém...  Se  um  amigo  me  toca,   de  leve,   penso que  vou  morrer .   Carro,  não  consigo  olhar  de  perto...  Barulho  de  máquina,  não  suporto...  Em toda   esquina,  tenho  a  impressão de que  pessoas   ocultas   gargalham com  sarcasmo, zombando de mim...  Ajude-me, Seu Calístrato!...

O   interlocutor   empenhava   esforço   para   dizer   qualquer   coisa;   no   entanto,   Zaqueu avançava:
– Escute... Quero ainda falar sobre a noite...  Anseio descansar, roas quem diz que eu durmo? Tudo  roda   em  meu  quarto...  Se  passo  por  ligeira  madorna,  alta  madrugada,  é  aflição em cima de aflição, pois vejo inimigos de carranca terrível, levantando punhais...

Grito,   contorço-me   desesperado,   até   que   alguém  me  acorde...   E   quando   me   vejo desperto,   as   vazes   me  rodeiam,   afrontando-me  com   injúrias...   Daí,  levanto-me  sem  saber   se estou louco...Por amor de Deus, tenha dó de mim, Seu Calístrato!...

O generoso amigo deu-se pressa em falar e ponderou:

– Bem, meu caro, tudo indica que seu caso é mediunidade, exigindo estudo... Venha à nossa reunião de amanhã e procuremos trabalhar juntos.

– Trabalhar? - indagou o visitante repentinamente desapontado.

–   Sim,   trabalhar   no   sentido   de   orar   e   estudar   em  equipe,   conjugando   as   nossas próprias energias no objetivo de amparar aqueles que sofrem mais que nós mesmos. É preciso não esquecer que auxiliando a outros é que somos auxiliados...

– Então– observou o candidato ao socorro – é necessário trabalhar?
–   Sim,   sim...  –   acentuou   o   experiente   orientador   –   venha   amanhã   e   comecemos...

Para nós todos a lei determina a obrigação de nos apoiarmos reciprocamente.

O   queixoso,   porém,   ouvindo   falar   em   responsabilidade   e  serviço,   perdeu   a loquacidade,   passando   a   despedir-se.   E,  até   hoje,   decorridos   seis   anos,   conquanto   Epifânio ainda o espere, não mais voltou.

Livro: Aulas da Vida
Chico Xavier/Espíritos Diversos


Francisco Rebouças