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quinta-feira, 18 de junho de 2015

ENGANO


Irmão X


Desde que Dona Marina acolhera um pobre rapaz  doente, em seu próprio  carro,  por duas   vezes   consecutivas,   conduzindo-o   a tratamento   no   hospital,   que   os   mexericos principiaram...

Agitou-se o bairro.

“Dona   Marina   extraviara-se   do   lar ,   Dona   Marina   se   inimizara   com   o   marido   e aceitara   um   companheiro   diferente”,   falava-se   aqui   e   além,   a   comentários   sussurrados.

Segredo de boca em boca.

A  imaginação   doentia   completava   os   esboços   que   a   malícia   traçava.   Claro   que   o segundo homem devia  ser um moço endinheirado e  bonitão... Dona  Marina, de modo algum, se comprometeria comum João ninguém.

E,  de  bisbilhotice  em  bisbilhotice,   quando  o  assunto   chegou  ao  marido,   o  pobre  do Placidino,  devotado  contador sempre  encerrado  no  escritório,  o caso parecia  uma  corrente  de enxurrada, desembocando num recôncavo de vale tranquilo. Não ficou terra de bondade, nem planta de afeto que não tornassem lama grossa.

Placidino para logo se envenenou.

“Ah!...   –   resmungava,   interpretando   simples   passeios   da   mulher   por   encontros indesejáveis   –   bem  que   a   vejo   mudada!...   Vestidos   e   mais   vestidos,   gargalhadas   para   dar   e vender  e  automóvel   com  alta  quilometragem...” Ao  passo  que  ele,  marido   e  pai  exemplar ,   se esfalfava por cima de números, pagando o reconforto da casa, a companheira se espoliava em desequilíbrios e infidelidade – pensava em desconsolo.

Por   tudo   isso,   regressava   ao   lar ,   noite   a   noite,   derramando   reprovação   e   azedume.

Reclamava,   altercava.   Nutria   acusações,   sem   poder   exprimi-las de   viva   voz.   Queria  provas, quanto   à   deslealdade   da   mulher,   e,   enquanto   as   provas   não   vinham,   passou   a   ocultar   um revólver   carregado   de   balas   no   próprio   bolso.

E   raciocinava:   se   visse   a   esposa   com  outro, matá-la-ia sem vacilar ... E depois?... Depois, que faria da própria existência?!...

Valeria a pena sobreviver?  Não.  Encontraria  meios   de  abater   o  agressor  e  aniquilar-se.   Os  dois  filhinhos   do casal  teriam  a  proteção  dos  avós.  Ele,  Placidino,   não  aspirava  a  permanecer  no  mundo,  além da tragédia, se atragédia se consumasse.

E,  ruminando  idéias   de  homicídio   e  suicídio,   no  caldo   do  ciúme,  tampado  no  peito em   ponto   de   explosão,   Placidino   voltou   ao   lar ,   certa   noite,   em   horário   imprevisto,   com   a
empregada ausente e os filhos em férias escolares num sítio distante... Dona Marina recebeu-o alegre,   mas   naturalmente   intrigada,   indagando   que   acontecia   para   que   o   esposo   retornasse mais cedo.  Ria-se. Parecia querer  detê-la na  sala-de-estar para entendimento mais longo. Não sabia que a expectação angustiadado esposo exprimissedesconfiança e pediu-lheas razões da tristeza que lhe categorizava o abatimento. Placidino não respondeu. Desvencilhou-se-lhe das carícias,   repelindo-lhe   o   abraço   e   avançou   para   o   quarto   de   dormir ,   seguido   por   ela,   e, estarrecido,   viu   que   um   homem   se   ocultava   na   peça   íntima,   sob   cortina   espessa.   Cego   de ciúme e desesperação, não parou a mente em descontrole para pensar.

Sacou da arma, alvejou o   desconhecido,   disparou   contra   a   esposa   e,   em   seguida,   varou   o   próprio   crânio, desmontando-se no tapete.

Três mortos emalguns minutos.

E,  somente   mais  tarde,   Placidino,   desencarnado,  veio  a  saber,  na Vida  Maior,   que  o homem do  aposento, cuidadosamente enrolado no  reposteiro, era um irmão anônimo e  infeliz que ali se esconder a unicamente para roubar.


Livro: Aulas da Vida
Chico Xavier/Espíritos Diversos


Francisco Rebouças