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quinta-feira, 28 de maio de 2015

LIÇÕES DE ALTA MAGNITUDE



TRANSIÇÃO PLANETÁRIA
O serviço a que nos afeiçoáramos exigia esforço e abnegação, pois quanto mais atendíamos Espíritos em grande sofrimento,  outros  mais  chegavam  ao  grupo  em  que trabalhávamos,  quando  os  cadáveres  eram  trazidos  pelas  ondas  e  atirados  às  praias,  ou resultavam  da  desencarnação  daqueles  que  haviam  ficado  inconscientes,  traumatizados,  e porque  não  houvessem  recebido  assistência,  não  resistiam  aos  ferimentos,  ao  de perecimento das forças, à desnutrição, às infecções.
Ana continuava erguendo o archote de fluidos luminosos, de forma que pudesse haver claridade específica na  noite  espiritual, ao tempo em que também contribuía com  a sua valiosa ajuda.
O  padre  Marcos  falava,  naquele  momento,  a  um  pequeno  grupo  de  cristãos católicos,  que  ainda  se  imantavam  aos  despojos  materiais.  A  sua  voz  era  meiga  e  gentil, informando-os que a morte não deveria ser vista como uma grande desgraça.
  Todos, quando nascem, estão assinalados para morrer —  enunciou, amoroso
—porquanto esse é o ciclo da vida. O oposto de vida não é morte, mas renascimento.
"Jesus morreu, a fim de que pudesse ressuscitar ao terceiro dia, demonstrando a imortalidade e comunicando-se com os amigos queridos que haviam ficado na retaguarda, aguardando a confirmação das Suas palavras luminosas.
"Graças ao Seu retorno, é que o Evangelho pôde ser confirmado e a mensagem de que é portador tornou-se a esperança de todos aqueles que sofrem e se encontram à borda do abismo, sem entregar-se ao medo ou ao desânimo.
"Confiar, portanto, que há um reino além da carne que nos espera a todos, é dever de  todo  cristão,  cuja  doutrina  se  assenta  na  certeza  da  vitória  da  vida  sobre  o  decesso tumular."
Enquanto ele falava, Abdul, Ivon, Oscar e nós outro, agora acompanhados por dois Espíritos indonésios que se ofereceram para cooperar conosco, trabalhávamos na libertação dos recém-desencarnados com os vínculos fortes mantidos com os corpos, na condição de frutos espúrios do materialismo a que se aferravam.
À  medida  que  cada  um  era  liberado,  embora  atento  às  palavras  do  sacerdote, experimentava um como vagado e tombava, quase inconsciente, sendo retirado de imediato do pequeno círculo para a área de transporte.
  Felizes    continuava  o  apóstolo  da  caridade    somos,  todos  aqueles  que acreditamos em Nosso Senhor Jesus Cristo e que O temos na condição de Caminho, Verdade e  Vida.  A  Ele  vinculados  pelo  amor  que  nos    sustento  às  emoções,  morte  é  vida,  e infortúnio é bênção, porque nada acontece sem a Sua  permissão superior.
"Enfrentai  a  tormenta  do  desespero  como  os  Seus  discípulos,  quando  na  barca frágil ante a tempestade ameaçadora que, temerosos, Lhe pediram auxílio, e Ele acalmou os ventos  e tranquilizou as ondas.  Nele temos o seguro Nauta que conduzirá a barca da  nossa imortalidade ao sublime destino da paz.
"Não temais, pois, permanecendo confiantes e ajudando-nos a ajudar-vos.
"Por mais assustador se vos apresente o fenômeno da morte orgânica, a vida é um triunfo sobre todas as injunções, e nada a consegue destruir. Por isso, abandonar o veículo carnal, que já não tem utilidade, agradecendo-lhe a cooperação durante a jornada concluída e avançar  com  segurança  pelo  rumo  da  imortalidade  constitui  motivo  de  infinita  alegria.
Novamente serão reencontrados os afetos que vieram anteriormente e que vos aguardam, reorganizando  as  famílias,  através  dos  abençoados  laços  do  amor.  Portanto.  alegrai-vos  e confiai,  porque  as  dores  afugentes  de  agora  logo  mais  serão  um  capítulo  do  passado vencido."
Silenciando, por momentos, a fim de que as suas palavras pudessem ser ouvidas e entendidas, permaneceu em prece que o adornava de tênue claridade espiritual dele mesmo emanada, exteriorizando, naquele  paul  de  desespero,  a  grandeza  que  o  caracterizava  na ordem da evolução.
Tomados  de  emoção  natural,  os  ouvintes  choravam  e  imprecavam  pela  ajuda,  oque a todos nos sensibilizava.
Nesse clima de elevadas vibrações de amor e de compaixão, podíamos perceber o valor dos sentimentos da afetividade  no intercâmbio  com os irmãos mais angustiados. Se o amor não puder atender os objetivos essenciais para os quais se constitui, a  sua finalidade é utópica e vã.
Não foi por outra razão que Jesus o elegeu como a mais nobre quão indispensável conquista a que pode aspirar o ser humano.
Ao mesmo tempo em que nos alegrávamos com os resultados da convocação do padre Marcos, constatávamos os resultados infelizes decorrentes da leviandade e da ilusão a que se permitem os indivíduos que se encontram distantes do  conhecimento da realidade espiritual.
Os fenômenos dolorosos de licantropia constrangiam-nos, levando-nos à reflexão, tanto  em  relação  aos  que  lhes  padeciam  a  vicissitude,  como  àqueles  que  se  tornavam vítimas inermes desses algozes, afinal, de si mesmos.
O desconhecimento das Leis da Vida faz que o Espírito mergulhe no mais abismal estado de primitivismo,  não  se  interessando  pela  ascensão  que  o  arranque  da  situação deplorável.
Não  nos  passava  pela  mente  qualquer  sentimento  de  reproche  ou  de  censura, porquanto, de alguma forma, somos viajantes da noite de sombras densas na direção  do dia iluminado e fulgurante.
Os atavismos religiosos que lhes ofereciam primícias e estados de glória logo após a  morte  biológica,  mantinham  alguns  que  se  davam  conta  do  fenômeno  de  que  foram objeto,  aguardando  a  chegada  dos  anjos  mitológicos,  e  desesperavam-se,  tombando  na blasfêmia e na revolta, reclamando contra o abandono em que supunham encontrar-se. Essa transferência  de  responsabilidades  dos  nossos  atos  para  a  Divindade,  além  de  ser  uma atitude profundamente leviana é muito cômoda, porque proporciona uma visão totalmente distorcida da realidade, transferindo-a para o mundo da fantasia e da mágica, no qual tudo é possível.
Somente quando o  ser  humano  desperta  realmente  para  a  consciência  de  si mesmo,  das  responsabilidades  que  lhe  dizem  respeito,  é  que  tem  início  o  processo  de descobrimento da verdade e do dever.
Enquanto  isso  não ocorre, a transferência  para os outros de tudo quanto lhe  diz respeito, seja na ocorrência infeliz, aos demais culpando, ou nas necessidades da evolução, esperando  que  os  anjos  da  misericórdia  por  eles  opere  de  maneira  sobrenatural  e privilegiada, liberando-os do esforço que deve ser empreendido para a auto iluminação.
Logo após a  peroração  do  padre  Marcos,  o  nosso  mentor  acercou-se-nos,  e percebendo  as  interrogações  que  bailavam  na  minha  mente,  socorreu-me  com  alguns esclarecimentos que são preciosas lições de vida.
  O  caro  Miranda  não  ignora    começou  ele,  suavemente    que  todas  as ocorrências  contribuem  para  o  nosso  processo  de  crescimento  na  direção  de  Deus.  Até agora,  infelizmente,  as  religiões,  embora  o  imenso  respeito  que  devotamos  a  todas  elas, aliás  ainda  muito  necessárias,  firmam-se  em  condutas  mágicas  e  não  racionais,  não responsabilizando os seus fiéis a respeito dos seus atos, que respondem pelas consequências que sempre os alcançam, normalmente em clima de aflição, por causa dos seus conteúdos morais negativos.
"Apresentando os seus deuses ou profetas especiais, alguns dos quais vítimas de transtornos  de  conduta,  que  mesclaram  as  informações  superiores  com  os  próprios conflitos, dando lugar a revelações castradoras e perversas, propõem-se como responsáveis pela palavra de Deus, humanizando-O e limitando-O às suas paixões, distante da grandeza imarcescível  e  infinita  do  Criador,  dando-lhes  a  aparência  de  verdades  indiscutíveis.  Mais preocupadas com o exterior, as  fórmulas e preceitos, do  que com sentimento interno dos devotos,  laboram  pela  quantidade  de  adeptos.  sem  a  maior  preocupação  de  os  qualificar para  a  existência  breve  na  Terra  e,  a  seguir,  a  imortalidade  em  que,  desde  o  corpo,  se encontram mergulhados.
"Incapazes de  entender  a  Causalidade  Absoluta  do  Universo,  elaboram  os  seus conceitos na linguagem pobre das suas necessidades e arrastam as multidões que ainda não sabem  pensar,  trabalhando-lhes o  fanatismo  doentio,  herança  do  primarismo  espiritual, como mecanismo de salvação imediata, bastando pequenos esforços humanos para a eterna recompensa  ou,  quando  isso  não  é  conseguido,  a  terrível  punição  eterna,  sem  a  mínima possibilidade  de  receber-se  misericórdia  ou  compaixão.  Apesar  disso,  informam  com empáfia  que  o  Pai  Todo  Amor  é  também  Todo  Misericórdia,  numa  colocação  paradoxal absurda.
"Cambaleiam, então, no mundo físico, esses autômatos da fé, sendo transferidas para o mundo espiritual as multidões equivocadas e engessadas nas informações cavilosas, assimiladas sem raciocínio e  recebidas  como  herança  dos  ancestrais  que  pensam  honrar fixando-se nelas, sem a preocupação, porém, da auto iluminação. Os seus dogmas, os seus cerimoniais,  todos  elaborados  com  crueldade,  amesquinhando  o  ser  humano,  escravizam-nos  ao  temor  e  mantêm-nos  na  ignorância  em  que  se  encarceram,  sendo  muito  difícil esclarecê-los nos primeiros tentames, após o decesso tumular."
Aquietou-se por um momento, olhando, entristecido, a imensa mole espiritual que estorcegava na alucinação e no desespero sem limite, dando continuidade:
— E nesse  estágio  do  sofrimento  que  a  compaixão  dos  céus  recambia  esses sofredores  de  volta  à  abençoada  escola  terrena  para  o  ministério  da  reencarnação,  em expiações severas ou provações rudes, facultando-lhes o entendimento das leis de justiça e dos deveres que devem constituir a pauta de todas as existências.
"Mesmo negando com ferocidade a doutrina dos renascimentos carnais, isso não impede que ela seja  uma  lei  universal,  ocorrendo  em  toda  parte,  como  bênção  de incomparável significado, sem  a qual nos manteríamos nas faixas iniciais da evolução, sem chances de desenvolvimento intelecto-moral.
"Perfeitamente compatível com a lei de progresso que somente ocorre ao longo do processo das experiências pessoais, a reencarnação, a pouco e pouco, faz que o deus interno desenvolva-se e agigante-se no imo do Espírito, imanando-o a Deus.
"Acompanhando as dores  acerbas  que  dominam  esses  milhares  de  Espíritos equivocados  na  sua  maneira  de  acreditar  na  Vida  Abundante,  das  suas  fixações  nos interesses  transitórios  como  se  fossem  permanentes,  mais  uma  vez  damo-nos  conta  de como ainda vivemos na infância espiritual, as criaturas terrestres habituadas aos caprichos do egoísmo, sem as gratificações sublimes da solidariedade e do amor.
''Religiosamente, todos estamos informados de que o túmulo não  significa aniquilamento,  portanto,  sabemos  que  a  vida  prossegue.  Seria  lógico,  em  consequência, vivermos  de  maneira  compatível  com  essa  convicção,  o  que  realmente  não  ocorre.  As disputas e fixações materiais de tal maneira se fazem dominadoras em nosso mundo íntimo que, conscientemente ou  não,  postergamos  o  momento  da  partida  do  corpo, indefinidamente. Quando somos jovens, anelamos para que isso ocorra na velhice e, quando a idade provecta se nos instala, ao sentirmos a  aproximação  do  fenômeno  da desencarnação,  o  medo  se  nos  assenhoreia,  levando,  não  poucos  de  nós,  ao  transtorno depressivo, á revolta ou a outro tipo de desequilíbrio.
"Bastariam somente  alguns  momentos  de  reflexão  diária  em  torno  da transitoriedade da vida física, para nos prepararmos e aguardarmos com alegria o momento da  desencarnação.  Qual  o  encarcerado  que  não  anela  pela  liberdade,  e  que,  vendo  outro que estava na sua cela partir, não deseja lambem que lhe soe o momento grandioso? E com que júbilo enfrenta-o quando chega!
"A  metáfora  explica  bem  como  nos  deveríamos  comportar,  o  que, lamentavelmente, não ocorre.
"Dia, não muito distante,  porém,  surgirá,  em  que  as  religiões  serão  portas  de acesso  à  vida  e  não  cárcere  na  ignorância  e  no  absurdo.  Desse  modo,  lembremo-nos  que todos os profetas e fundadores de religiões, por mais elevados e nobres, não se equiparam a Jesus  Cristo que  os  enviou  à  Terra,  a  fim  de  que  diluíssem  um  pouco  as  sombras  da crueldade, para que Ele instaurasse, nos dias já recuados, as balizas do Reino dos Céus no mundo. Mesmo aqueles que vieram depois do Seu advento, são ministros do Seu reino. Por essa razão, veio o Consolador que Ele prometera, para apressar esses dias, o momento da verdadeira comunhão entre as criaturas e o Criador.
"Não desfaleçamos, portanto, e cumpramos o nosso dever."
Encontrava-me edificado e surpreso, pensando como o nobre médico  chegara  a essas  conclusões,  sabendo  que  ele  vivenciara,  na  sua  existência  anterior,  a  convicção anglicana.
Percebendo-me a reflexão, o amigo generoso sorriu e completou:
  Amigo Miranda, o conhecimento viaja daqui para a  Terra e não de lá para cá.
Desse modo, participando dos grupos de estudos  em  nossa  comunidade,  tomei conhecimento da Revelação Espírita e da sua magnitude para o ser humano.  Por isso, estou engajado na tarefa em que nosso grupo se encontra.
E porque novas questões me assomassem à  mente,  ainda  jovial  e  sábio,  ele interrompeu-me, propondo-me:
— O trabalho nos espera, e as perguntas encontrarão as suas respostas na ação do bem com Jesus.
Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda

Francisco Rebouças



TRANSIÇÃO PLANETÁRIA