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quinta-feira, 21 de maio de 2015

A FÉ RELIGIOSA





Em todos os tempos, o homem sonha com a pátria celestial.

As ideias do céu e inferno jazem no pensamento de todos os povos.

Os indígenas da América admitem o paraíso de caça abundante e danças permanentes, com reservas inesgotáveis de fumo.

Os esquimós localizavam o éden nas cavernas adornadas.

As tribos maori, que cultivam a guerra, por estado natural de felicidade, esperam que o céu lhes seja uma rinha eterna, em que se digladiem, indefinidamente.

Entre os hindus, as noções de responsabilidade e justiça estão fortemente associados à ideia da sobrevivência. De conformidade com a crença por eles esposadas, nas eras mais remotas,  os  desencarnados  eram  submetidos  às  apreciações  do  Juiz  dos  Mortos.  Os bons seriam destinados ao paraíso, a fim de se deliciarem, ante os coros celestes, e os maus desceriam para os despenhadeiros do império de Varuna, o deus das água, onde se  instalariam  em  câmaras  infernais,  algemados  uns  aos  outros,  por  laços  vivos  de serpentes. Situados, porém, na sementeira da verdade, sempre admitiram que do palácio celeste ou do abismo tormentoso, as almas regressariam à esfera carnal, de modo a se adiantarem na ciência da perfeição.

Os  assírios-caldeus  supunham  que  os  mortos  viviam  sonolentos  em  regiões subterrâneas, sob amplo domínio das sombras.

Na Grécia, a partir dos mistérios de Orfeu, as concepções de justiça póstuma alcançam grau  mais  alto.  No  Hades  terrificante de  Homero,  os  Espíritos  são julgados  por Minos, filho de Zeus.

Os gauleses aceitavam a doutrina da transmigração das almas e eram depositários de avançadas revelações da Espiritualidade Superior.

Os hebreus localizavam os desencarnados no "scheol", que Job classifica como sendo "terra de miséria e trevas, onde habitam o pavor e a morte".

Com Virgílio, encontramos princípios mais seguros no que se refere às leis de retribuição.

Na entrada do Orco, há divindades infernais para os trabalhos punitivos, quais a Guerra, o Luto, as Doenças, a Velhice, o Medo, a Fome, os Monstros, os Centauros e as Harpias, as Fúrias e a Hidra de Lerna, simbolizando os terríveis suplícios mentais das almas que
se fazem presas da ilusão, durante a vida física. Entre esses deuses do abismo, ergue-se o velho ulmeiro, em cujos galhos se dependuram os sonhos, aí principiando a senda que desemboca  no  Aqueronte,  enlameado  e  lodoso,  com  largos  redemoinhos  de  água fervente.

Os egípcios atravessavam a existência, consagrando-se aos estudos da morte, inspirados pelo ideal da justiça e da felicidade, além-túmulo.

Mais recentemente, Maomet estabelece novas linhas à vida espiritual, situando o Céu em sete andares e o inferno em sete sub divisões. Os eleitos respiram em deliciosos jardins, com  regatos  de  água  cristalina,  leite  e  mel,  e  os  condenados  vivem  no  território  do suplício,  onde  corre  ventania  cruel,  alimentando  estranho  fogo  que  tudo  consome,  e Dante, o vidente florentino, apresenta quadros expressivos do Inferno, do Purgatório e do Céu.

As realidades da sobrevivência acompanham a alma humana que a vida não se encontra circunscrita às estreitas atividades da Terra.

O corpo é uma casa temporária a que se recolhe nossa alma em aprendizado. Por isso mesmo,  quando  atingido  pelas  farpas  da  desilusão  e  do  cansaço,  o  espírito  humano recorda  instintivamente  algo  intangível  que  se  lhe  afigura  ao  pensamento  angustiado como sendo o paraíso perdido.

Desajustado na Terra, pede ao Além a mensagem de reconforto e harmonia. Semelhante momento,  porém,  é  profundamente  expressivo  no  destino  de  cada  alma,  porque,  se  o coração  que  pede  é  portador  da  boa  vontade,  a  resposta  da vida superior  não  se faz esperar e um novo caminho se desdobra à frente da alma opressa e fatigada que se volta para o Além, cheia de amor, sofrimento e esperança.
Livro: Roteiro
Chico Xavier/Emmanuel


Francisco Rebouças