O serviço a que nos afeiçoáramos exigia esforço e abnegação,
pois quanto mais atendíamos Espíritos em grande sofrimento, outros
mais chegavam ao
grupo em que trabalhávamos, quando
os cadáveres eram
trazidos pelas ondas
e atirados às
praias, ou resultavam da
desencarnação daqueles que
haviam ficado inconscientes, traumatizados, e porque
não houvessem recebido
assistência, não resistiam
aos ferimentos, ao de perecimento
das forças, à desnutrição, às infecções.
Ana continuava erguendo o archote de fluidos luminosos, de
forma que pudesse haver claridade específica na
noite espiritual, ao tempo em que
também contribuía com a sua valiosa
ajuda.
O padre Marcos
falava, naquele momento,
a um pequeno
grupo de cristãos católicos, que
ainda se imantavam
aos despojos materiais.
A sua voz
era meiga e
gentil, informando-os que a morte não deveria ser vista como uma grande
desgraça.
— Todos, quando
nascem, estão assinalados para morrer —
enunciou, amoroso
—porquanto esse é o ciclo da vida. O oposto de vida não é
morte, mas renascimento.
"Jesus morreu, a fim de que pudesse ressuscitar ao
terceiro dia, demonstrando a imortalidade e comunicando-se com os amigos
queridos que haviam ficado na retaguarda, aguardando a confirmação das Suas
palavras luminosas.
"Graças ao Seu retorno, é que o Evangelho pôde ser
confirmado e a mensagem de que é portador tornou-se a esperança de todos
aqueles que sofrem e se encontram à borda do abismo, sem entregar-se ao medo ou
ao desânimo.
"Confiar, portanto, que há um reino além da carne que
nos espera a todos, é dever de todo cristão,
cuja doutrina se
assenta na certeza
da vitória da
vida sobre o
decesso tumular."
Enquanto ele falava, Abdul, Ivon, Oscar e nós outro, agora
acompanhados por dois Espíritos indonésios que se ofereceram para cooperar
conosco, trabalhávamos na libertação dos recém-desencarnados com os vínculos
fortes mantidos com os corpos, na condição de frutos espúrios do materialismo a
que se aferravam.
À medida que
cada um era
liberado, embora atento
às palavras do
sacerdote, experimentava um como vagado e tombava, quase inconsciente,
sendo retirado de imediato do pequeno círculo para a área de transporte.
— Felizes —
continuava o apóstolo
da caridade —
somos, todos aqueles
que acreditamos em Nosso Senhor Jesus Cristo e que O temos na condição
de Caminho, Verdade e Vida. A
Ele vinculados pelo
amor que nos
dá sustento às
emoções, morte é
vida, e infortúnio é bênção,
porque nada acontece sem a Sua permissão
superior.
"Enfrentai a tormenta
do desespero como
os Seus discípulos,
quando na barca frágil ante a tempestade ameaçadora
que, temerosos, Lhe pediram auxílio, e Ele acalmou os ventos e tranquilizou as ondas. Nele temos o seguro Nauta que conduzirá a
barca da nossa imortalidade ao sublime
destino da paz.
"Não temais, pois, permanecendo confiantes e
ajudando-nos a ajudar-vos.
"Por mais assustador se vos apresente o fenômeno da
morte orgânica, a vida é um triunfo sobre todas as injunções, e nada a consegue
destruir. Por isso, abandonar o veículo carnal, que já não tem utilidade,
agradecendo-lhe a cooperação durante a jornada concluída e avançar com
segurança pelo rumo
da imortalidade constitui
motivo de infinita
alegria.
Novamente serão reencontrados os afetos que vieram
anteriormente e que vos aguardam, reorganizando
as famílias, através
dos abençoados laços
do amor. Portanto.
alegrai-vos e confiai, porque
as dores afugentes
de agora logo
mais serão um
capítulo do passado vencido."
Silenciando, por momentos, a fim de que as suas palavras
pudessem ser ouvidas e entendidas, permaneceu em prece que o adornava de tênue
claridade espiritual dele mesmo emanada, exteriorizando, naquele paul
de desespero, a
grandeza que o
caracterizava na ordem da
evolução.
Tomados de emoção
natural, os ouvintes
choravam e imprecavam
pela ajuda, oque a todos nos sensibilizava.
Nesse clima de elevadas vibrações de amor e de compaixão,
podíamos perceber o valor dos sentimentos da afetividade no intercâmbio com os irmãos mais angustiados. Se o amor não
puder atender os objetivos essenciais para os quais se constitui, a sua finalidade é utópica e vã.
Não foi por outra razão que Jesus o elegeu como a mais nobre
quão indispensável conquista a que pode aspirar o ser humano.
Ao mesmo tempo em que nos alegrávamos com os resultados da
convocação do padre Marcos, constatávamos os resultados infelizes decorrentes
da leviandade e da ilusão a que se permitem os indivíduos que se encontram
distantes do conhecimento da realidade espiritual.
Os fenômenos dolorosos de licantropia constrangiam-nos,
levando-nos à reflexão, tanto em relação
aos que lhes
padeciam a vicissitude,
como àqueles que
se tornavam vítimas inermes
desses algozes, afinal, de si mesmos.
O desconhecimento das Leis da Vida faz que o Espírito
mergulhe no mais abismal estado de primitivismo, não
se interessando pela
ascensão que o
arranque da situação deplorável.
Não nos passava
pela mente qualquer
sentimento de reproche
ou de censura, porquanto, de alguma forma, somos
viajantes da noite de sombras densas na direção
do dia iluminado e fulgurante.
Os atavismos religiosos que lhes ofereciam primícias e
estados de glória logo após a morte biológica,
mantinham alguns que se davam
conta do fenômeno
de que foram objeto,
aguardando a chegada
dos anjos mitológicos,
e desesperavam-se, tombando
na blasfêmia e na revolta, reclamando contra o abandono em que supunham
encontrar-se. Essa transferência de responsabilidades dos
nossos atos para
a Divindade, além
de ser uma atitude profundamente leviana é muito
cômoda, porque proporciona uma visão totalmente distorcida da realidade,
transferindo-a para o mundo da fantasia e da mágica, no qual tudo é possível.
Somente quando o
ser humano desperta
realmente para a
consciência de si mesmo,
das responsabilidades que
lhe dizem respeito,
é que tem
início o processo
de descobrimento da verdade e do dever.
Enquanto isso não ocorre, a transferência para os outros de tudo quanto lhe diz respeito, seja na ocorrência infeliz, aos
demais culpando, ou nas necessidades da evolução, esperando que
os anjos da
misericórdia por eles
opere de maneira
sobrenatural e privilegiada,
liberando-os do esforço que deve ser empreendido para a auto iluminação.
Logo após a
peroração do padre
Marcos, o nosso
mentor acercou-se-nos, e percebendo
as interrogações que
bailavam na minha
mente, socorreu-me com
alguns esclarecimentos que são preciosas lições de vida.
— O caro
Miranda não ignora
— começou ele,
suavemente — que
todas as ocorrências contribuem
para o nosso
processo de crescimento
na direção de
Deus. Até agora, infelizmente,
as religiões, embora
o imenso respeito
que devotamos a
todas elas, aliás ainda
muito necessárias, firmam-se
em condutas mágicas
e não racionais,
não responsabilizando os seus fiéis a respeito dos seus atos, que
respondem pelas consequências que sempre os alcançam, normalmente em clima de
aflição, por causa dos seus conteúdos morais negativos.
"Apresentando os seus deuses ou profetas especiais, alguns
dos quais vítimas de transtornos de conduta,
que mesclaram as
informações superiores com
os próprios conflitos, dando
lugar a revelações castradoras e perversas, propõem-se como responsáveis pela
palavra de Deus, humanizando-O e limitando-O às suas paixões, distante da
grandeza imarcescível e infinita
do Criador, dando-lhes
a aparência de
verdades indiscutíveis. Mais preocupadas com o exterior, as fórmulas e preceitos, do que com sentimento interno dos devotos, laboram
pela quantidade de
adeptos. sem a
maior preocupação de
os qualificar para a
existência breve na
Terra e, a
seguir, a imortalidade
em que, desde
o corpo, se encontram mergulhados.
"Incapazes de
entender a Causalidade
Absoluta do Universo,
elaboram os seus conceitos na linguagem pobre das suas
necessidades e arrastam as multidões que ainda não sabem pensar,
trabalhando-lhes o fanatismo doentio,
herança do primarismo
espiritual, como mecanismo de salvação imediata, bastando pequenos
esforços humanos para a eterna recompensa
ou, quando isso
não é conseguido,
a terrível punição
eterna, sem a
mínima possibilidade de receber-se
misericórdia ou compaixão.
Apesar disso, informam
com empáfia que o
Pai Todo Amor
é também Todo
Misericórdia, numa colocação
paradoxal absurda.
"Cambaleiam, então, no mundo físico, esses autômatos da
fé, sendo transferidas para o mundo espiritual as multidões equivocadas e
engessadas nas informações cavilosas, assimiladas sem raciocínio e recebidas
como herança dos
ancestrais que pensam
honrar fixando-se nelas, sem a preocupação, porém, da auto iluminação.
Os seus dogmas, os seus cerimoniais,
todos elaborados com
crueldade, amesquinhando o
ser humano, escravizam-nos ao
temor e mantêm-nos
na ignorância em
que se encarceram,
sendo muito difícil esclarecê-los nos primeiros tentames,
após o decesso tumular."
Aquietou-se por um momento, olhando, entristecido, a imensa
mole espiritual que estorcegava na alucinação e no desespero sem limite, dando
continuidade:
— E nesse estágio do
sofrimento que a
compaixão dos céus
recambia esses sofredores de
volta à abençoada
escola terrena para
o ministério da
reencarnação, em expiações
severas ou provações rudes, facultando-lhes o entendimento das leis de justiça
e dos deveres que devem constituir a pauta de todas as existências.
"Mesmo negando com ferocidade a doutrina dos
renascimentos carnais, isso não impede que ela seja uma
lei universal, ocorrendo
em toda parte,
como bênção de incomparável significado, sem a qual nos manteríamos nas faixas iniciais da
evolução, sem chances de desenvolvimento intelecto-moral.
"Perfeitamente compatível com a lei de progresso que
somente ocorre ao longo do processo das experiências pessoais, a reencarnação,
a pouco e pouco, faz que o deus interno desenvolva-se e agigante-se no imo do
Espírito, imanando-o a Deus.
"Acompanhando as dores
acerbas que dominam
esses milhares de
Espíritos equivocados na sua
maneira de acreditar
na Vida Abundante,
das suas fixações
nos interesses transitórios como
se fossem permanentes,
mais uma vez
damo-nos conta de como ainda vivemos na infância espiritual,
as criaturas terrestres habituadas aos caprichos do egoísmo, sem as
gratificações sublimes da solidariedade e do amor.
''Religiosamente, todos estamos informados de que o túmulo não significa aniquilamento, portanto,
sabemos que a vida prossegue.
Seria lógico, em
consequência, vivermos de maneira
compatível com essa
convicção, o que
realmente não ocorre.
As disputas e fixações materiais de tal maneira se fazem dominadoras em
nosso mundo íntimo que, conscientemente ou
não, postergamos o
momento da partida
do corpo, indefinidamente. Quando
somos jovens, anelamos para que isso ocorra na velhice e, quando a idade
provecta se nos instala, ao sentirmos a
aproximação do fenômeno
da desencarnação, o medo
se nos assenhoreia,
levando, não poucos
de nós, ao
transtorno depressivo, á revolta ou a outro tipo de desequilíbrio.
"Bastariam somente
alguns momentos de
reflexão diária em
torno da transitoriedade da vida
física, para nos prepararmos e aguardarmos com alegria o momento da desencarnação. Qual
o encarcerado que
não anela pela
liberdade, e que,
vendo outro que estava na sua
cela partir, não deseja lambem que lhe soe o momento grandioso? E com que
júbilo enfrenta-o quando chega!
"A metáfora explica
bem como nos
deveríamos comportar, o que,
lamentavelmente, não ocorre.
"Dia, não muito distante, porém,
surgirá, em que as religiões
serão portas de acesso
à vida e
não cárcere na
ignorância e no
absurdo. Desse modo,
lembremo-nos que todos os profetas
e fundadores de religiões, por mais elevados e nobres, não se equiparam a Jesus Cristo que
os enviou à
Terra, a fim
de que diluíssem
um pouco as
sombras da crueldade, para que
Ele instaurasse, nos dias já recuados, as balizas do Reino dos Céus no mundo.
Mesmo aqueles que vieram depois do Seu advento, são ministros do Seu reino. Por
essa razão, veio o Consolador que Ele prometera, para apressar esses dias, o
momento da verdadeira comunhão entre as criaturas e o Criador.
"Não desfaleçamos, portanto, e cumpramos o nosso
dever."
Encontrava-me edificado e surpreso, pensando como o nobre médico chegara
a essas conclusões, sabendo
que ele vivenciara,
na sua existência
anterior, a convicção anglicana.
Percebendo-me a reflexão, o amigo generoso sorriu e
completou:
— Amigo Miranda, o
conhecimento viaja daqui para a Terra e
não de lá para cá.
Desse modo, participando dos grupos de estudos em
nossa comunidade, tomei conhecimento da Revelação Espírita e da
sua magnitude para o ser humano. Por
isso, estou engajado na tarefa em que nosso grupo se encontra.
E porque novas questões me assomassem à mente,
ainda jovial e
sábio, ele interrompeu-me,
propondo-me:
— O trabalho nos espera, e as perguntas encontrarão as suas
respostas na ação do bem com Jesus.
Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
Francisco Rebouças