O incidente inesperado colheu-nos de surpresa que, certamente, não o fora para o nosso
mentor, em razão da sua admirável faculdade premonitória.
Investido de uma
tarefa de tal
envergadura, somente a
pouco e pouco,
ia -se desvelando em relação ao nosso grupo.
A informação sobre a solicitação dos Guias da Indonésia,
pedindo auxílio espiritual às
comunidades do Além,
também ecoou-nos de
forma agradável e
iluminativa. Como realmente não
existe o acaso, todos os labores
edificantes são pré-organizados. estudados com cuidado, examinadas as
possibilidades de êxito
ou de fracasso, e quando começam, o plano avança com segurança e metas
bem definidas.
Realmente,
recordava-me de quando
soaram as cornetas
em nossa Colônia, naquela manhã de 6 de dezembro e
todos nos recolhemos à oração, porque, de imediato, o nosso serviço
de comunicações informou-nos
sobre a grande
tragédia, facultando-nos acompanhar
os infaustos acontecimentos.
Ignorava, porém,
os cuidados estabelecidos
pelos Mentores e
a solicitação de ajuda solidária no mundo espiritual.
Comovido ante a
sabedoria divina e
o intercâmbio que
existe em toda
parte em nome da
solidariedade universal, pus-me
a observar os
Espíritos aflitos que se deixaram cooptar pela
palavra sábia do
orientador, ansiando pela
própria renovação, e
agora dependiam dos esforços do nosso grupo.
Dr. White fora
tomar providências com
organizações especializadas na ajuda a
esses arrependidos que
se apresentavam assinalados
por graves enfermidades
psíquicas e emocionais. Os
corpos denotavam os
sofrimentos experienciados pelos
contínuos anos de martírio
e dependência dos
verdugos que os maltratavam, reduzindo-os
à condição de escravos das suas paixões.
Agora, que começavam
a mudar de
atitude mental, começaram
a perceber o estado
deplorável em que
se encontravam, passando
a sofrer os
dardos ultrizes das enfermidades que lhes haviam ceifado a
existência física, assim como as marcas profundas dos distúrbios
ocasionados pela insânia
que se permitiam.
Ademais, em razão
do comportamento infeliz, cada perispírito assinalava os sentimentos
ultrizes antes vivenciados e agora
exteriorizava-os em forma
de úlceras pútridas,
deformações e amputações
de membros, que se encontravam envoltos em vibrações escuras de baixo
teor.
Olhando-os, com misericórdia
e carinho, constatávamos
como somos o
fruto daquilo que cultivamos mentalmente.
Reunidos em uma faixa especial, a fim de que não se
misturassem aos demais que estavam
despertando do torpor
da desencarnação, choravam
uns, outros permaneciam hebetados, diversos
apresentavam-se
enlouquecidos, formando urna
hoste de desditosos que rebolcavam
nas aflições inomináveis
que os mortificavam.
Bailavam na minha
mente algumas interrogações a respeito do diálogo mantido pelo Dr. White
e a legião de agressivos.
Ao primeiro ensejo, indaguei ao gentil orientador:
— Tendo-se em mente
que os indigitados irmãos que vieram agredir-nos estavam estruturados na
linguagem nacional, não entendendo outro idioma, como foi possível travar-se o
diálogo vigoroso que tivéramos ocasião de ouvir?
Sem demonstrar enfado, o querido amigo explicou-nos:
— Utilizei-me da
onda mental sem
a sua verbalização
em palavras. Em
face das circunstâncias e do
pensamento que a elaborava, os irmãos aflitos escutavam na sua língua de
comunicação habitual, por estarmos vibrando na mesma faixa de pensamento. Por
outro lado, os amigos
do nosso grupo,
por sua vez
ouviam o diálogo
no idioma com
o qual nos
comunicamos, qual ocorre em nossos contatos íntimos.
Constituindo um grupo de Espíritos procedentes de países diferentes, a nossa comunicação
é mental, sem a necessidade
da expressão oral, formulada nos padrões de cada idioma.
"A linguagem do Universo é o pensamento que modula
as expressões de acordo com a captação de cada ouvinte.
Essa tarefa de interpretação da linguagem é característica do perispírito
que armazena as
matrizes idiomáticas dos
países por onde
transitamos nas diversas existências
corporais. Mesmo quando
estamos diante daqueles
que procedem de regiões pelas quais não passamos no
percurso das reencarnações, a sua mente capta a onda emitida e a decodifica.
Tudo ocorre com automatismo e naturalidade, sem que haja esforço de quem quer
que seja. Nada obstante, quando ocorre uma sintonia por ideias, interesses ou
anelos, o fenômeno se torna mais eficiente e mais rápido.
"Na discussão que travamos com o chefe da grei rebelde,
usamos as formulações da língua inglesa
que eram captadas
no indonésio, no
português, no filipino,
portanto, igualmente pelo nosso
grupo de cooperadores
procedentes dos países
que se comunicam nesses idiomas."
Depois de uma breve pausa, concluiu:
"Imaginemos
uma orquestração sinfônica
que nos alcança
os ouvidos acompanhada por um
coral que se expressa em determinado idioma, e constataremos que registramos a
música e as vozes, penetrando no seu conteúdo, embora sem compreender as palavras
que os cantores enunciam. O importante
são o conjunto melódico, a emoção que nos
desperta, a alegria
que nos invade
e o imenso
bem-estar defluente do
seu efeito musical."
O momento não
permitia ampliação do
diálogo, porque, naquele
instante, havia parado a
regular distância um
veículo do qual
saltaram alguns lidadores
do Bem que se
aproximaram, apresentando-se ao Dr. White. Tratava-se da ajuda solicitada aos responsáveis
pelo acolhimento e cuidados em relação aos irmãos arrependidos que se haviam
proposto renovação e entendimento.
Diversos desses operários da caridade adentraram-se em nosso
campo de socorro e passaram a assistir os sofredores, conduzindo-os, um a um,
ao transporte que pairava no ar, a um metro, mais ou menos, acima do solo.
Alguns se movimentavam com dificuldade, embora a assistência recebida, logo
sendo acomodados, num total de oitenta.
O responsável pela condução agradeceu ao nosso mentor e, de
imediato, a nave decolou com velocidade, seguindo o roteiro estabelecido.
Sentia-me
edificado ante a
misericórdia divina que
luz para todos,
sempre ao alcance de quem a
deseja receber.
Ao meu lado, o amigo Ivon Costa considerou a sabedoria divina
e a constituição do amor vibrante em toda parte, como sua mais bela
manifestação.
Menos de duas
horas antes, aqueles
irmãos recolhidos acreditavam-se pertencentes ao submundo
infeliz da erraticidade inferior, lutando contra as leis soberanas, embora a
elas submetidos, enquanto
que, agora, rumavam
na direção da
felicidade que haviam desdenhado
por décadas de loucura e de ignorância.
Simultaneamente, os irmãos recém-despertos pela nossa
atividade, encontravam-se em área próxima, sobre um gramado verdejante e podiam
desfrutar da claridade do dia que lhes chegava tênue, embora a sombra
predominante próxima dali.
Por sua vez, eram recambiados para a Colônia de refazimento,
graças à abnegação de inúmeros servidores
polinésios, alguns procedentes
de ilhas remotas,
que eram tidos como
primitivos. Generosos e ingênuos,
dedicavam-se com alegria
infantil ao socorro
dos nossos irmãos vitimados,
entoando algumas das
canções sentimentais das
terras que habitaram antes da
desencarnação. Vestidos com simplicidade
e usando barretes coloridos, as suas roupas davam-lhes uma beleza singela e
harmoniosa. Pequenos tremores ainda
aconteciam sob as
águas profundas do
Oceano Indico, sem que novos
danos ocorressem na superfície.
Dr. White convidou-nos
ao retorno à
nossa sede, por
algum tempo, e
usando a volitação com todo o
grupo, chegamos á comunidade que se encontrava em movimentação.
Era mais um imenso
hospital a céu aberto e com alguns pavilhões onde eram recolhidos os pacientes mais
agitados, do que um lugar
de repouso. As
vibrações ambientais eram benéficas, proporcionando o refazimento
emocional que o desgaste natural na faixa em que estávamos laborando se fazia
forte.
Dirigimo-nos, imediatamente, ao núcleo de acolhimento que nos
fora reservado, e após ouvirmos as
recomendações do benfeitor,
que nos recomendava
quatro horas de revigoramento, de prece e de reflexão,
liberou-nos para o repouso necessário.
Encontrava-me
comovido ante as
messes de misericórdia
com que me
sentia agraciado. Enquanto mourejava
na Terra, abraçando
a Doutrina dos
Espíritos, tentava compreender
como seria a vida fora da vestimenta
carnal, sem o conseguir em plenitude.
Por mais que
a imaginação procurasse
encontrar parâmetros para
facultar-me o entendimento, tudo
quanto lograva conceber era muito pálido
em relação à realidade, na qual ora me encontrava.
É muito difícil
estar-se mergulhado no
mundo dos efeitos,
tentando entender as causas,
qual acontece com
o conteúdo de
qualquer natureza, que
procure imaginar como será o continente que o guarda.
A única constatação somente é de que há vida em toda parte,
movimento e ação, sendo a Terra uma pobre cópia daquele admirável mundo
pulsante, permanente, de onde nos originávamos.
Orei, então, em
favor dos irmãos
em processo de
renovação, aqueles que se
haviam rebelado contra
os divinos códigos
e se encontravam
de volta como
náufragos vencidos, mas sobrevivendo.
Ao mesmo tempo, recordei-me
dos outros, aqueles
que se fixavam pela
mente e pela
conduta às vestes
materiais que a
morte ia consumindo
e desejavam restaurar-lhes as funções, tombando em estados de loucura e
de desânimo.
Suave paz dominou-me, arrebatando-me pelo sono, facultando-me
um sonho feliz em região de beleza quase inimaginável.
Ali, tudo eram sons e harmonias. O vento, que perpassava pelo
arvoredo, as flores que desabrochavam
emitindo musicalidade especial,
as mais diversas
expressões da Natureza em
festa sonora, aves
de plumagem inigualável
e os céus
infinitamente azuis, como se o
zimbório fosse um grandioso recinto no qual se movimentavam milhares de seres luminosos
em atividade ordenada e quase mágica, emocionavam-me.
Automaticamente acompanhei pequeno
grupo que se
dirigia a uma
construção ultramoderna de substância transparente como a dos atuais
edifícios das grandes cidades, porém, mais delicada, e adentramo-nos num
recinto que parecia um templo gótico onde se celebrava uma solenidade
religiosa.
Destituída de qualquer simbolismo, a nave nua era revestida
de vibrações sonoras e coloridas, filtradas
por imensos vitrais,
que lhe davam
uma beleza especial,
singular. As pessoas encontravam-se reunidas
com júbilo na
face, quando passamos
a escutar um ser
angélico portador de grande beleza, que abordou um tema sobre a solidariedade
universal.
Ouvindo-o, embevecido, a musicalidade da sua voz penetrava-me
o Espírito mais pela emoção do que pelas palavras articuladas, que me pareciam
um canto sinfônico.
Seria muito difícil
traduzir tudo quanto
era exposto, porque
o objetivo era introjetar nos
ouvintes os sentimentos
de amor profundo,
em vez das
expressões que se confundiam com a melodia ambiental.
Encontrava-me deslumbrado, quando suavemente retornei,
despertando e mantendo as
impressões incomparáveis aqueles
momentos de desdobramento
e visita a alguma região feliz a que ainda não tivera
acesso por falta de méritos compreensíveis.
Amanhecia em nossa comunidade e, com o coração pulsante de felicidade, busquei os demais amigos para as
novas tarefas.
Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
Francisco Rebouças