Solidarity Spiritist Societ

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

PESCADORES DE ALMAS

Pairavam no ar desconhecidas vibrações de paz e alegria.

Quase inaudível, escutava-se uma sinfonia que chegava de longe, tão suave como nunca se ouvira antes.

Aquela era uma região aprazível e abençoada. O lago, espelho imenso refletindo o céu, emoldurava-se de praias largas, adornadas de árvores vetustas, e da grama verde que parecia escorregar dos aclives cortados por ribeirinhos, nos quais se amontoavam as casas de pedras, que se multiplicavam nos vilarejos, povoados e cidades.

A Galileia, bela e simples, fora o cenário escolhido pelo Cantor, para apresentar a Sua mensagem e embalar o mundo com a Sua voz.

Em Cafarnaum todos se conheciam. Suas praias e ancoradouros sempre regurgitavam de pescadores, de negociantes, de homens da terra.

A profissão tradicional de amantes do mar passava de pais para filhos, de geração em geração.

Homens rudes e generosos, face ao trabalho a que se dedicavam, confraternizavam com vinhateiros, agricultores, as gentes humildes, raramente se envolvendo com as questões discutidas na sinagoga, desinteressados dos problemas das classes abastadas.

A vida pulsava naquelas áreas, no mercado, e os viajantes de outras províncias ali narravam os acontecimentos dos lugares distantes, causando deslumbramento.

As caravanas que venciam o Jordão, no rumo dos países fabulosos, seguiam outros caminhos, e os acontecimentos ali permaneciam inalterados.

A natureza bordara a paisagem com tons escarlates, e as boninas misturavam-se com as papoulas de haste esguia salpicando cores em toda parte.

Os problemas do cotidiano repetiam-se quase monótonos, sem alterarem o ritmo de vida das pessoas.

Por isso mesmo, percebia-se, sem palavras, que algo estava por acontecer.
                                                      
A  notícia  chegou  aos  ouvidos  do  povo  como  uma  eclosão  de  alegrias,  embora confusamente.

Narrava-se que um homem singular e profeta aparecera e informara ser o Filho de Deus.

Não trazia insígnias, nem se fazia acompanhar de séquito algum deslumbrante.

Surgira  inesperadamente  e  manifestara-se  a  pessoas  diferentes,  esclarecendo  que viera fundar um reino de amor e de justiça para os deserdados e sofredores.

O  mundo  sempre  esteve  repleto  de deserdados  e  sofredores.  Marginalizados,  em todos os tempos, buscavam consolo e a herança da paz.

Nunca houve quem os quisesse escutar ou socorrer, e, formando multidões, viviam escassamente, na miséria, na sordidez, no abandono...

Alguém interessar-se por eles, era-lhes uma grande surpresa, desconcertante ventura a que não se encontravam acostumados.

A boa nova, portanto, espalhou-se com velocidade, adiantando-se que, no sábado, Ele falaria num monte próximo a Cafarnaum.

Simão, também conhecido como Cefas, era irmão de André, ambos pescadores.

As suas preocupações restringiam-se às necessidades básicas da família, da vida. Sem aspirações maiores, limitavam-se à faina da pesca, à venda dos frutos do mar e aos deveres consequentes de uma existência simples.

Os  amigos  narraram-lhes  as  novidades,  acrescentando,  naturalmente,  detalhes  da própria imaginação.

As  criaturas  anelam  por  salvadores,  que  lhes  solucionem  os  problemas,  ajam  no momento dos desafios e atuem por elas. Há uma latente irresponsabilidade, que deseja viver o trabalho, sem o sofrimento.

Em razão disso, a esperança de paz sempre se turba com a ambição da ociosidade.

Simão era homem céptico, sem sutilezas de comportamento.

Portador dos conflitos humanos naturais, enrijecera a fibra moral na atividade a que se entregava, desinteressando-se praticamente de tudo mais.

Ouvindo as informações e sentindo o entusiasmo ingênuo dos amigos, experimentou um  desconhecido  ressentimento  do  estranho  Profeta,  que  certamente  era  mais  um mistificador que vivia explorando a ignorância das massas.

Recusou-se a ir ouvi-LO.

Algo, porém, remoía-se-lhe intimamente, e uma estranha curiosidade empurrou-o, pela  madrugada  do  sábado,  a  empreender  a  marcha  na  direção  do  lugar  onde  Ele  iria apresentar-se.

Respirando o ar balsâmico e frio do amanhecer, o pescador viu-se surpreendido pelo número de pessoas silenciosas que seguiam pela estrada real.

Os rostos apresentavam-se expectantes uns, tensos outros; em todos, porém, estavam os sinais da esperança.

Enfermos de vários matizes eram conduzidos: cegos, coxos, paralíticos carregados, obsidiados, dementes, anciãos e outros cujas doenças eram a idade avançada, o desgaste, o abandono irrecuperável...

Um misto de piedade e ira tomou Simão.

Como as pessoas lhe pareciam estúpidas, entregando-se a qualquer aventureiro que surgisse — pensava, contrariado.

Quando atingiu o acume do cerro, a multidão era densa.

Dali podia-se ver o mar querido, refletindo o fogo do dia nascente.
Procurou ouvir alguns comentários. Todos falavam sobre as próprias necessidades e expectativas de receberem ajuda, solução para os problemas.

Naturalmente, acercou-se das primeiras filas, que renteavam uma larga pedra, qual se
fora um palco natural no imenso cenário da natureza.

À  medida  que  o  Sol  bordava  de  luz  a  terra,  o  vozerio  aumentava  e  as  queixas misturavam-se nas bocas dos sofredores.
Subitamente Ele apareceu. Esguio e belo, o rosto magro e queimado adornava-se de barba  e  cabelos  à  nazarena,  onde  brilhavam  olhos  transparentes  como  duas  estrelas engastadas. A túnica descia-lhe até os pés, tecida na roca, em tom carregado de mármore...

Majestático, a Sua figura impôs silêncio sem dizer nada.

Uma exclamação de júbilo escapou dos lábios da multidão ao vê-LO.

Após os momentos de expectativa, Ele falou:

— A hora é esta, para a grande revolução pelo Reino de Deus.

Enquanto no mundo, a criatura somente experimenta aflições, porque tudo a quanto se aferra é efêmero. São passageiros os prazeres, o poder, a fortuna, a saúde, o próprio corpo... Essa ilusão de gozo é a geradora dos sofrimentos, em razão da transitoriedade dele e de como passam todas as coisas, por mais sejam aguardadas. Quando chegam e começam a  ser  fruídas,  já  se  encontram  em  deperecimento,  de  passagem,  deixando  memórias, frustrações, ansiedades novas, amarguras...

O homem, prudente e sábio, que pensa no amanhã, reserva-se bens duradouros, que lhe favorecem tranquilidade e repouso. Esses bens imorredouros são as ações de amor, que proporcionam paz, o esforço para domar as paixões inferiores, que oferece a felicidade.

Fez um silêncio oportuno, a fim de facultar entendimento, reflexão, aos ouvintes.

Logo mais, prosseguiu:

— Eu vos convido a virdes comigo, para a fundação da Nova Era, que se instalará nos corações, modificando as estruturas atuais e instaurando o primado do amor...

Quando ia prosseguir, uma mulher, que trazia nos braços uma criança cega, rogou:

— Senhor, cura minha filha, e eu Te seguirei.

Os olhos da multidão n"Ele cravados, voltaram-se na direção daquela que se atrevera a interrompe-LO.

Por encontrar-se atrás de Simão, e porque, trêmula, chorava, o pescador tomou-lhe a menina nos braços e avançou até a primeira fila.

Jesus  acercou-se  e  mergulhou,  nos  olhos  de  Simão,  o  seu  doce  olhar,  sem  uma palavra. No entanto, emocionado, ele pareceu escutar no íntimo, a Sua voz, que dizia : Eu te conheço Simão, desde ontem...

Acompanhou-lhe a mão, cujos dedos tocaram os olhos mortos da criança, e ouviu-O falar: Vê, filha, em nome de meu Pai.

A criança começou a chorar e gritar: Eu vejo, eu enxergo!

A mãe avançou e arrebatou-a, estuante.

Quando  Ele  desceu  o  braço,  a  manga  da  túnica  rociou  o  tórax  de  Simão,  que estremeceu, mergulhado na luz dos Seus olhos, e ali ficou, paralisado, havendo perdido o contato com o mundo sensorial.

Ao retornar, à realidade, sob a ardência do dia, estava a sós; todos se haviam ido; a hora avançava.

Simão, profundamente comovido, desceu a Cafarnaum.

Já não era o mesmo. Nunca mais voltaria a ser o que fora. O que se passou nele, modificou-lhe a vida para todo o sempre, a partir daquele momento.

Interrogando-se, desejava saber de onde e desde quando O conhecia e O amava...

Na acústica da alma, ressoava-lhe a voz, confirmando, desde ontem...

André, os amigos notaram-lhe a modificação e a súbita tristeza que lhe refletia no rosto.

O  encontro  com  a  verdade  liberta  e  algema  o  ser.  Desencarcera-o  do  mundo,  e aprisiona-o à Vida. Produz júbilo e traz melancolia. É pão que alimenta, mas, nutre somente a pouco e pouco até satisfazer plenamente.

Simão  fez-se  taciturno,  como  quem  aguarda,  embora  permanecesse  gentil  e cumpridor dos deveres.

Foi nesse estado de espírito que, em formosa manhã, enquanto organizava as redes com o irmão, foi surpreendido pela presença do Amigo, que se lhes acercou e, com uma voz inesquecível, convidou-os:

— Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens. (*)

Sem nenhuma contestação, eles abandonaram as redes e, embevecidos, dominados pela Sua presença, O seguiram.

Amo que chama os servos, senhor que conduz escravos, Ele os tomou e fez de suas vidas um poema de felicidade, com eles escrevendo a mais comovedora história do mundo, enquanto lançava as fundações do Reino de Deus nos corações.

Pescadores de almas, Ele os fez!

Mateus - 4:19 (Nota da Autora espiritual)


Livro: Trigo de Deus
Divaldo Franco/Amélia Rodrigues


Francisco Rebouças