Solidarity Spiritist Societ

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

ROTEIROS TERRESTRES

Para mim, pessoalmente, aquela era uma noite muito especial. Reflexionando em torno  da  mensagem  ouvida  a  respeito  do  futuro  da  Humanidade,  não  pude  sopitar  uma inefável alegria de viver os momentos tão significativos em torno da construção da Nova Era.
Desde  as  remotas  páginas  do  Evangelho  de  Jesus,  assim  como  das  narrações  do Apocalipse, e mesmo  antes, existem revelações em torno de um mundo feliz na Terra, após as terríveis flagelações que alcançariam as criaturas e as dilacerações que sofreria o planeta.
Os  sucessivos  acontecimentos  que  estarreceram  a  sociedade,  convidando-a  à análise em torno  das convulsões que sacodem o mundo físico periodicamente, enquanto os atos hediondos de terrorismo e de atrocidade repetiam-se de maneira aparvalhante, eram sinais inequívocos da grande mudança que já estaria tendo lugar no orbe terrestre.
Passados,  porém,  os  primeiros  momentos  explorados  pela  mídia  insaciável  de tragédias, outros fatos se tornavam relevantes, substituindo aqueles que deveriam merecer mais  estudos  e  aprofundamento  mental,  de  maneira  a  encontrarem-se  soluções  para  os terríveis efeitos da poluição da atmosfera, do envenenamento das fontes de vida no planeta.
É  verdade que alguns movimentos bradavam em convites à responsabilidade das nações e dos  governos  perversos,  responsáveis  pela  emissão  dos  gases  venenosos,  para  logo tomarem  vulto  os  planos  de  divertimentos  globais  e  de  novas  conquistas  para  o  gozo  e  a alucinação.
Ainda  o  pranto  das  vítimas  não  secara  nos  olhos  e  os  efeitos  trágicos  dos acontecimentos nem sequer diminuíram, e as contribuições da solidariedade eram desviadas para  fins  ignóbeis,  enquanto  os  sofredores  observavam  a  indiferença  com  que  eram tratados, relegados à própria sorte, após a tragédia que sofreram.
As  praias  de  diversos  países  do  Oceano  Indico  estavam  juncadas  de  cadáveres, dezenas  de  milhares  jaziam  sob  os  escombros  das  frágeis  construções  destruídas  e  a insensatez  turística  já  planejava  novos  pacotes  para  outros  paraísos  e  lugares  de  lazer  e perversão que não foram danificados.
Felizmente,  mulheres  e  homens  nobres,  organizações  e  entidades  humanitárias sensibilizaram-se  com  a  dor  do  seu  próximo  e  acorreram  com  generosidade,  oferecendo alguns recursos que podiam diminuir o desespero das vítimas, dos sobreviventes que tinham necessidade de reconstruir os lares e continuar as experiências humanas.
O espetáculo espiritual nas regiões atingidas, no entanto, era muito grave. De igual maneira,  em  razão  da  decomposição  dos  cadáveres  humanos  e  de  animais  outros  e  da ausência de água potável, era grande a ameaça do surgimento de epidemias, e os Espíritos, abruptamente arrancados  do domicílio orgânico, vagavam, perdidos e desesperados, pelas áreas  onde  sucumbiram,  transformadas  em  depósitos  de  lixo  e  de  destroços,  numa  noite sem  término,  pesada  e  ameaçadora.  Os  gritos  de  desespero,  os  apelos  de  socorro  e  os fenômenos  de  imantação  com  outros  desencarnados  infelizes,  constituíam  a  geografia extrafísica dos dolorosos acontecimentos.
Acompanhávamos os tristes acontecimentos desde nossa comunidade, através de recursos especiais que nos projetavam as imagens terríveis, recolhendo-nos às reflexões do que seria possível contribuir para atenuar tanto desespero e cooperar pelo restabelecimento da ordem.
O  banditismo  aproveitava-se  da  situação  deplorável  para  estrangular  as  suas vítimas,  exploradores  hábeis  negociavam  sobre  os  despojos  dos  perdidos  e  alienados, conspirações  hediondas  forjavam  hábeis  manobras  para  a  usurpação  do máximo  daqueles que nada quase possuíam.
Era esse, de alguma forma, o espetáculo horrendo pós-tragédia do tsunami.
No dia seguinte, deveríamos reunir-nos com os organizadores da jornada à região conflagrada,  de  modo  a  tomarmos  conhecimento  dos  serviços  de  emergência  a  serem realizados.
Amanhecera  de  forma  esplêndida,  com  o  céu  azul  turquesa nimbado  de  suave claridade que iluminava toda a nossa comunidade.
Embora nos encontremos sob a mesma ação das leis que vigem na manutenção do orbe terrestre, a luz do Sol que nos alcança, porque não encontra obstáculos materiais para produzir o aquecimento contínuo, tem sempre a mesma temperatura, também resultado de camadas especiais de energia emanada dos fótons que envolvem o nosso campo vibratório.
Dessa  forma,  não  ocorrem  alterações  como  aquelas  sofridas  no  planeta  e decorrentes da sua posição em relação ao Astro-rei.
Deveríamos  encontrar-nos  às  10  horas,  à  sombra  de  venerando  cedro  no  jardim que circunda o Templo ecumênico, onde todos os religiosos das mais diferentes convicções podem reunir-se para vivenciar as suas doutrinas.
O  órgão  derramava  musicalidade  especial,  e  quando  nos  aproximamos,  Oscar  e nós,  os  demais  membros  se  nos  acercaram  jovialmente.  Ivon  Costa  acompanhava  o responsável  pelo  grave  empreendimento,  cabendo-lhe  o  dever  de  apresentar-nos,  o  que ocorreu sem maiores circunlóquios.
—  Temos  o  júbilo  —  começou  o  amigo  —  de  pôr-vos  em  contato  com  o  nosso benfeitor, que está encarregado de conduzir-nos aos labores terrenos.
O novo amigo sorriu discretamente e ampliou os esclarecimentos, informando:
—  Quando,  no  corpo  somático,  vivi  o  maior  período  da  existência  na  região  da Polinésia. Fiz parte dos conquistadores que, em nome da civilização europeia, se impuseram aos ilhéus de uma larga faixa dos mares do Sul…
"Guardando  conceitos  equivocados,  considerávamo-nos  superiores  aos  que chamávamos indígenas e, em nome dos nossos falsos valores, lutamos para aculturá-los com a nossa presunção de senhores do conhecimento.
"Ledo  engano!  À  medida  que  convivíamos  com  eles  descobrimos  a  sabedoria  de que  eram  portadores,  no  seu  aparente  primitivismo.  Encontramos,  nos  seus  cultos, considerados  grosseiros,  informações  profundas,  que  eram  passadas  de  uma  para  outra geração  oralmente  e  pelos  trabalhos  a  que  se  afeiçoavam.  Seus  xamãs,  em  momentosas comunicações  espirituais  eram,  ao  mesmo  tempo,  sacerdotes  e  médicos,  pensadores  e sábios, conselheiros, administradores e psicólogos eficientes.
"Com  eles tomamos conhecimento da interferência dos  mortos na existência dos vivos  e  aprendemos  que  a  terapia  mais  eficiente  diante  dos  desafios  do  binômio  saúde doença é sempre o amor expresso no respeito recíproco e nos cuidados que são oferecidos por todos aos membros do clã.
"Com o suceder do tempo, optei por viver com a sua ingenuidade, assimilando os seus costumes e as suas habilidades.
"A existência tornou-se longa e proveitosa, permitindo-me amar sem condições e receber o tributo do respeito e do afeto dos seus sentimentos puros.
"A desencarnação de maneira nenhuma afastou-me da  sua convivência, e agora, quando  a  desolação  e  a  tragédia  assolam,  entre  aqueles  que  muito  lhes  devemos, candidatei-me a participar de uma das caravanas de auxílio em nome da gratidão."
Calou-se, por um pouco, e, emocionado, concluiu:
—  Sou o vosso irmão Charles White, de origem inglesa, que exercera a medicina convencional.
"Encontramo-nos em vossa Colônia, realizando um estágio, para o qual trouxemos diversos  amigos,  que  vestiram  a  indumentária  de  diferentes  nacionalidades,  a  fim  de treinarmos técnicas de socorro especial com os vossos guias e podermos aplica-las em nossa área de atendimento, conforme, logo mais, teremos oportunidade de o fazer.
"Indispensável  que  conheçais  aqueles  com  os  quais  convivereis  por  um  mês  em atividade de amor, exercitando solidariedade na região que nos aguarda, no amado planeta terrestre.
"Sede bem-vindos à nossa caravana."
Ivon,  logo  depois,  apresentou-nos  jovem  Espírito  na  feminilidade,  que  servia  de auxiliar  de  enfermagem  ao  esculápio  e  mais  dois  outros  dedicados  servidores  que  se radicaram anteriormente nas Filipinas.
De  imediato,  estabelecemos  laços  de  simpatia  e  amizade, desde  que  estaríamos juntos a partir daquele momento, abraçando as responsabilidades do Bem.
—  Nosso empreendimento —  explicou-nos o Dr. Charles  —  está dividido em duas fases: a primeira delas terá lugar na região do tsunami, e a segunda na psicosfera do Brasil, preparando as mentes e os sentimentos para as reencarnações especiais.
Depois  de  expor  o  projeto  em  que  nos  encontrávamos comprometidos,  liberou-nos, estabelecendo às 18 horas, como a ocasião de ser realizada a viagem ao planeta amado.
A  curiosidade  espicaçava-me  a  mente,  considerando  a  magnitude  do  labor desenhado, especialmente em razão da convivência que teríamos com Espíritos de culturas diferentes e hábitos com os quais não me encontrava familiarizado.
Os amigos filipinos logo se permitiram identificar: o mais idoso informou-nos haver sido sacerdote católico numa das  muitas ilhas e chamava-se Marcos. Havia-se dedicado ao ministério da fé religiosa e à educação infantil, havendo desencarnado nos idos do ano de 1954  aos  setenta  anos  de  idade.  O  outro,  mais  jovem  e  sorridente,  vestia-se  de  maneira própria do seu povo, e  logo se desvelou, elucidando que pertencia à religião muçulmana e era conhecido  como  Abdul  Severin,  que  desencarnara  vitimado por  febre  palustre  aos  40 anos de idade.
A  caravana,  portanto,  se  constituía  de  membros  de variada formação  espiritual, que possuía como ponto comum de entendimento o amor que vige soberano no Universo, como uma das forças de equilíbrio cósmico, considerando-se ser de essência divina.
Por  nossa  vez,  Oscar  expôs  a  sua  formação  judaica,  e  nós  outro  referimo-nos  à adoção do comportamento espírita.
De  maneira  comovedora  demo-nos  conta  de  pertencermos   à mesma  grei, conforme assinalou Ivon, jovialmente: O Bem Imarcescível!
Nossos  diálogos  prolongaram-se,  enquanto  o  Dr.  Charles  e  sua  auxiliar  Ana,  de formação  anglicana,  providenciavam os equipamentos  necessários  à  primeira  fase  das próximas atividades.
O  padre  Marcos,  que  conhecia  a  região  que  visitaríamos,  esclareceu-nos  que  o insólito e trágico choque das placas  tectônicas  gerador das imensas ondas destrutivas, era aguardado,  e  que  providências  espirituais  haviam  sido  tomadas,  inclusive,  construindo-se um  posto  de  socorro  espiritual  sobre  a  região  que  sofreu  mais  danos  decorrentes  do epicentro da catástrofe.
Engenheiros  e  arquitetos  desencarnados  movimentaram-se  com  rapidez  e edificaram  uma  comunidade  de  emergência,  que  a  todos  nos  albergaria  logo  mais,
recebendo também aqueles aos quais socorrêssemos.
Curiosamente ampliou os esclarecimentos, informando que os ocidentais em férias que  se  fizeram  vítimas,  mantinham profunda  ligação  emocional  com  aquele  povo  e foram atraídos  por  forças  magnéticas  para  resgatar,  na  ocasião,  velhos  compromissos  que  lhes pesavam na economia moral.
— Nada acontece, sem os alicerces da causalidade! — concluiu.
Surpreso,  perguntei-lhe  como  conciliava  o  conceito da reencarnação  com  os dogmas esposados pela sua formação católica.
Gentil e educado, esclareceu-me:
—  O  caro  Miranda  não  ignora  que  as  formulações  da  Verdade  partem  deste mundo real na direção da Terra, e que as religiões as vestem de superstições, de lendas e dogmas, conforme os níveis de consciência das criaturas que lhes aderem, velando umas e liberando outras. Nada obstante, quando retornamos ao país da imortalidade desaparecem as fórmulas,  dando lugar ao surgimento  da essência que  logo assimilamos  por afinidade  e pela lógica do Bem universal.
Sorrimos, agradavelmente, e prolongamos a edificante conversação até duas horas antes de iniciarmos o novo empreendimento.
Ivon  e  nós  outro,  deveríamos  participar  da  experiência  iluminativa,  como  um estágio  de  aprimoramento  espiritual,  na  região  sofrida,  acompanhados  por  Oscar,  que  se encontrava estagiando em nossa comunidade, para o mesmo empreendimento.
 
Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
 
Francisco Rebouças