As horas sucediam-se lentas e
pesadas. O grupo que atendíamos era constituído por quase mil vítimas da tragédia
sísmica. Aparentemente pequeno era o resultado do nosso esforço, embora nos
encontrássemos empenhados com
carinho na execução
da atividade que nos foi reservada.
A noite tornava-se cada vez mais pavorosa do ponto de
vista humano, em razão dos horrores que se manifestavam sem cessar.
Na esfera física, a procura de cadáveres para identificação
era afligente, porque as pessoas choravam e
imprecavam sem lucidez
em torno do
que exteriorizavam. Era
uma catarse coletiva sob a inclemência das sombras tormentosas.
Do nosso lado, não era menos angustiante a paisagem
espiritual. Ana continuava a manter o archote
aceso derramando claridade
no local sombrio
e truanesco. Em determinado
momento, escutamos uivos
arrepiantes e vimos
em movimento uma
densa formação
agitando-se e aproximando-se como
se empurrada por
ventos suaves, imperceptíveis para nós outros. Ao acercar-se, pudemos ver em
hediondez diversos Espíritos com fácies e formas lupinas como se estivéssemos em um
cenário de imaginação doentia, observando antigos seres
humanos que se
fizeram vítimas da
zoantropia. Com aspectos repelentes e hórridos,
eliminavam baba pegajosa
pelas bocas escancaradas
e os olhos brilhantes procuravam os cadáveres cujos Espíritos estávamos
libertando.
Subitamente
tentaram atirar-se sobre
um dos montes
de membros e
corpos misturados, como se estivessem esfaimados.
Nesse comenos, Dr.
White sinalizou ao
padre Marcos que,
rápido e seguro, desdobrou uma rede de fios luminosos e de ampla proporção, no
que foi auxiliado por Ivon eOscar, atirando-a com habilidade sobre o monturo fétido. De imediato, pudemos perceber que se tratava
de uma defesa
magnética, irradiando energia
especial que apavorou
os agressores, que certamente a conheciam, fazendo que se
afastassem em tropel rápido, sem maiores perturbações para o nosso labor.
Fora a primeira vez que me deparara com cena de tal porte.
Percebendo-me as interrogações
mentais, o hábil
diretor veio-me em
socorro, explicando-me:
— Trata-se de
Espíritos muito infelizes,
cujas existências na
Terra foram terrificantes e que construíram as aparências perversas
atuais como decorrência do mal que praticaram
indiferentes ao sofrimento
que causavam. Haviam
perdido a sensibilidade
do amor e, por
isso mesmo, deformaram
psiquicamente o perispírito
que, após a 32 – (Manoel Philomeno de Miranda) Divaldo Pereira Franco desencarnação do corpo
somático, encarregou-se de
modelá-los conforme se encontram.
Sucede que a
única diferença em
relação aos demais
casos de zoantropia,
é que, normalmente, a ocorrência
é individual, no
entanto, porque constituíam
um grupo asselvajado que laborava em conjunto, o fenômeno alcançou-os
a todos, neles plasmando a deformidade
lupina que os
faz temerários, imprimindo-lhes as
necessidades alimentares típicas do gênero
canis lúpus, mantendo
a mente entorpecida.
Por automatismo, prosseguem na sanha do desequilíbrio até o momento quando a
misericórdia de Deus deles se compadeça e sejam recambiados às reencarnações expiatórias
muito dolorosas.
"A mente é sempre a geradora de bênçãos ou de desditas,
porque dela procedem as aspirações de
uma assim como
de outra natureza.
Quando as criaturas
humanas considerarem a torça do pensamento que procede do ser que
são, haverá mudança radical de comportamento moral
e social, dando
lugar b conquistas
relevantes da imortalidade triunfante.
"Por enquanto, é natural que o processo ainda se
encontre em fase preparatória, dando lugar às aberrações que tomam corpo no mundo físico,
caracterizando a decadência dos valores éticos e morais, nas esperanças de felicidades
que soçobram no mar encapelado das paixões.
"Não são poucos,
no campo das
comunicações, na Terra,
os decantados multiplicadores
de opinião, que
sintonizam com as
Entidades bestializadas, que os
submetem ao talante das suas aberrações, durante largos
períodos de desdobramento pelo sono fisiológico, imprimindo
profundamente no cerne
do ser de
cada um, a
devassidão, o desvario, a degradação moral. Retornando ao corpo somático,
recordam-se das experiências viciosas em que se comprazem e estimulam os seus aficionados,
cada vez mais, à luxúria, ao sexo açodado pelas
drogas alucinógenas, pelo
álcool, pelas substâncias
farmacêuticas estimulantes.
"Não seja de
surpreender a debandada
das gerações novas
para as músicas
de sentido infeliz, nos
bailes de procedência
primária e sensualidade,
onde a perversão
dos sentimentos é a
tônica, e o
estímulo à violência,
à rebeldia, à
agressividade constitui o panorama da revolta, afinal contra o quê? Tornam-se
adversários do denominado contexto, em vez de desenvolverem os valores dignificantes para
melhorá-lo, mergulham fundamente nas paixões mais
vis, tornando piores
para eles mesmos
e para os
outros os dias
que enfrentam. Fogem, então,
para a consumpção
por meio das
drogas, da exaustão
dos prazeres sensuais e perversos.
"De pequena monta a contribuição da responsabilidade e
do dever, ainda distantes de serem avaliados devidamente. Essa tarefa libertadora, sem
dúvida, cabe à educação das novas gerações, a fim de que sejam criados novos hábitos de
convivência e de comunicação saudável, dando lugar
ao desenvolvimento das
forças vivas do
Bem inatas em
todos os indivíduos.
"Podemos ver aqui
as paisagens defluentes
dessas condutas arbitrárias
e deslocadas no tempo
e no espaço,
transformadas em sofrimentos
de longo prazo,
que o amor irá modificar no momento próprio."
Não havia oportunidade
para mais esclarecimento e
divagações sobre o tema
relevante, porque agora
chovia energia causticante,
que fazia lembrar
os raios durante
as tempestades,
aumentando as dores
das vítimas de
si mesmas, arrebatadas
do corpo pela desencarnação em massa.
Curiosamente
relampejava na sombra
temerária, e essas
claridades eram psíquicas, que predominavam na região mesmo antes do
acontecimento terrível.
Turistas de diversos
países europeus, especialmente
nórdicos e americanos, franceses e alemães,
escolhiam aquelas regiões
para os prazeres
do corpo sem
qualquer compromisso com a
beleza das paisagens
dos mares do
sul, com a
sua natureza ainda semipreservada. Muitos viajavam para aqueles paraísos, quais
a Tailândia, as ilhas Maldivas, as ilhas Phi
Phi e outras,
para desfrutarem das
facilidades morais, sexuais,
de Jovens adolescentes
vendidos pelos pais
irresponsáveis ao comércio
da licenciosidade. Hábitos ancestrais ainda vigentes de total desrespeito pela mulher e
pelo ser humano, facultaram a larga prostituição de meninas e de meninos que serviam de
mascotes aos ocidentais que os podiam comprar a preço bastante acessível para eles.
Ao longo dos últimos anos, as mentes geraram essa psicosfera
doentia nas regiões agora afetadas pela
calamidade que teve
uma função purificadora
para toda a região, alterando os costumes
e propondo novos
comportamentos morais pela
dor, advertindo a respeito da fragilidade
e temporalidade da
vida orgânica, e
que, infelizmente, ainda
não apresentava
qualquer possibilidade de
melhora. Pelo contrário,
aconteciam a revolta,
o suborno, o desvio
dos auxílios internacionais, a
dominação dos mais
fortes so bre os
mais fracos, que ficariam à mercê da própria sorte em relação ao
futuro sombrio em cujo rumo avançavam.
Como as religiões
lentamente estavam perdendo
prestígio. mantendo regras
de comportamento na teoria
e manconunando-se com
os poderes temporais
indignos, as criaturas encontravam-se sem norte, vagando nas ocorrências
mais apeapetecidas e menos laboriosas. O dinheiro fácil era o que lhes importava, a fim
de saírem da miséria financeira e embriagarem-se no consumismo devastador.
Como faz falta a presença de Jesus no mundo, assim como dos
Seus embaixadores que, através dos tempos, vieram preparar-Lhe o advento!
As Suas propostas ricas de ternura e de esperança, de consolo
e de amor ainda não conseguiram
penetrar realmente nos
seus seguidores, menos
ainda naqueles que
o não coaliecem, dando lugar
às loucuras do
imediatismo, do desgaste
emocional e moral
nos jogos dos desejos
infrenes. A iluminação
espiritual é trabalho
de largo porte,
que exige abnegação e devotamento,
compensado através da
paz que proporciona
e da alegria
de viver sem condicionamentos extravagantes nem dependências
doentias.
Empenhados na atividade
especial de ajuda
aos irmãos aflitos,
sucediam-se os quadros de dor,
cada qual específico,
em razão de
cada pessoa ser
única e especial,
seus problemas e ambições muito próprios, caracterizando-lhe o
nível de evolução.
Abdul, suavemente iluminado,
podendo ser percebido
pela maioria dos
Espíritos perversos que disputavam
as carcaças humanas
e tentavam submeter
os seus antigos hóspedes físicos, continuava no recitativo do Alcorão,
suplicando, vez que outra, a ajuda dos Céus para os sofredores e seus algozes.
Subitamente, no círculo de aflições, destacou-se uma mulher
de olhar esgazeado que procurava a mãezinha, também vítima da catástrofe.
Gritava, já afônica, pelo nome da genitora,
tentando desembaraçar-se do
corpo sem o
conseguir, constrangendo-nos de imediato. Acerquei-me, paciente e compadecido, podendo ler no
seu pensamento o drama que experienciava e
a dor imensa
que a consumia.
Estava atendendo à
senhora idosa enferma, quando a onda
imensa arrancou-lhe a casa do
solo, levando-a de roldão com os coqueiros e outras árvores de grande porte, despedaçando tudo
à frente. A morte de ambas foi imediata, e logo
despertou agônica entre as ruínas do
que fora o lugar em que vivia. Não se apercebeu da situação, pois que, para ela, o dia não
raiara, ainda tomado pelas sombras decorrentes das vibrações
ambientais pesadas, entregando-se
ao desespero em busca da anciã.
Fortemente ligada ao corpo, tentava sair do lugar sem o conseguir, em desespero crescente.
Naquele momento, algo
de belo sucedeu,
porque na densa escuridão surgiu a mãezinha liberada do corpo físico e, lúcida, assistida por
nobre amigo desencarnado que a conduzia,
ajudando-a a acercar-se
da filha alucinada.
Vendo-nos em processo
de auxílio e esclarecida pelo seu
mentor espiritual, sorriu
e tentou agradecer
sem palavras a
nossa presença. Ato contínuo, abraçou a filha totalmente
desequilibrada e começou a cantar uma doce melodia que
falava de esperança,
de alegria e
de reencontro. A
jovem espiritual acalmou-se, a pouco e pouco, enquanto era embalada, logo
adormecendo.
Foi então que
oferecemos o nosso
contributo para a
técnica da libertação
dos despojos físicos, cujas
últimas energias foram
absorvidas pelo Espírito
que se recolheu
no regaço maternal. As
doces vibrações da
senhora e a
sua destacada estatura
espiritual irradiavam-se,
invadindo o organismo
perispirítico da filhinha,
que foi conduzida
a outra esfera que não aquela à qual nos vinculávamos.
O trabalho prosseguia sem cessar.
Embora o Sol
abençoasse a imensa
área logo ao
amanhecer, do nosso
lado continuavam as trevas densas e as aflições sem nome,
aguardando o sublime contributo da iluminação espiritual.
Livro: Transição planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
Francisco Rebouças
