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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O SERVIÇO DE ILUMINAÇÃO

As horas sucediam-se lentas e  pesadas.  O grupo que atendíamos era  constituído por quase mil vítimas da tragédia sísmica. Aparentemente pequeno era o resultado do nosso esforço,  embora  nos  encontrássemos  empenhados  com  carinho  na execução  da  atividade que nos foi reservada.
A noite tornava-se cada vez mais pavorosa do ponto de vista  humano, em razão dos horrores que se manifestavam sem cessar.
Na esfera física, a procura de cadáveres para identificação era afligente, porque as pessoas  choravam  e  imprecavam  sem  lucidez  em  torno  do  que  exteriorizavam.  Era  uma catarse coletiva sob a inclemência das sombras tormentosas.
Do nosso lado, não era menos angustiante a paisagem espiritual.  Ana continuava a manter  o  archote  aceso  derramando  claridade  no  local  sombrio  e  truanesco.  Em determinado  momento,  escutamos  uivos  arrepiantes  e  vimos  em  movimento  uma  densa formação  agitando-se  e  aproximando-se  como  se  empurrada  por  ventos  suaves, imperceptíveis para nós outros. Ao acercar-se, pudemos ver em hediondez diversos Espíritos com fácies e formas lupinas como se estivéssemos em um cenário de imaginação doentia, observando  antigos  seres  humanos  que  se  fizeram  vítimas  da  zoantropia.  Com  aspectos repelentes  e  hórridos,  eliminavam  baba  pegajosa  pelas  bocas  escancaradas  e  os  olhos brilhantes procuravam os cadáveres cujos Espíritos estávamos libertando.
Subitamente  tentaram  atirar-se  sobre  um  dos  montes  de  membros  e  corpos misturados, como se estivessem esfaimados.
Nesse  comenos,  Dr.  White  sinalizou  ao  padre  Marcos  que,  rápido  e  seguro, desdobrou uma rede de fios luminosos e de ampla proporção, no que foi auxiliado por Ivon eOscar, atirando-a com habilidade sobre o monturo fétido.  De imediato, pudemos perceber que  se  tratava  de  uma  defesa  magnética,  irradiando  energia  especial  que  apavorou  os agressores, que certamente a conheciam, fazendo que se afastassem em tropel rápido, sem maiores perturbações para o nosso labor.
Fora a primeira vez que me deparara com cena de tal porte.
Percebendo-me  as  interrogações  mentais,  o  hábil  diretor  veio-me  em  socorro, explicando-me:
  Trata-se  de  Espíritos  muito  infelizes,  cujas  existências  na  Terra  foram terrificantes e que construíram as aparências perversas atuais como decorrência do mal que praticaram  indiferentes  ao  sofrimento  que  causavam.  Haviam  perdido  a  sensibilidade  do amor  e,  por  isso  mesmo,  deformaram  psiquicamente  o  perispírito  que,  após  a 32 – (Manoel Philomeno de Miranda) Divaldo Pereira Franco desencarnação  do  corpo  somático,  encarregou-se  de  modelá-los  conforme  se encontram.
Sucede  que  a  única  diferença  em  relação  aos  demais  casos  de  zoantropia,  é  que, normalmente,  a  ocorrência  é  individual,  no  entanto,  porque  constituíam  um  grupo asselvajado que laborava em conjunto, o fenômeno alcançou-os a todos, neles plasmando a deformidade  lupina  que  os  faz  temerários,  imprimindo-lhes  as  necessidades  alimentares típicas  do  gênero  canis  lúpus,  mantendo  a  mente  entorpecida.  Por  automatismo, prosseguem na sanha do desequilíbrio até o momento quando a misericórdia de Deus deles se compadeça e sejam recambiados às reencarnações expiatórias muito dolorosas.
"A mente é sempre a geradora de bênçãos ou de desditas, porque dela procedem as  aspirações  de  uma  assim  como  de  outra  natureza.  Quando  as  criaturas  humanas considerarem a torça do pensamento que procede do ser que são, haverá mudança radical de  comportamento  moral  e  social,  dando  lugar  b  conquistas  relevantes  da  imortalidade triunfante.
"Por enquanto, é natural que o processo ainda se encontre em fase preparatória, dando lugar às aberrações que tomam corpo no mundo físico, caracterizando a decadência dos valores éticos e morais, nas esperanças de felicidades que soçobram  no mar encapelado das paixões.
"Não  são  poucos,  no  campo  das  comunicações,  na  Terra,  os  decantados multiplicadores  de  opinião,  que  sintonizam  com  as  Entidades  bestializadas,  que os submetem ao talante das suas aberrações, durante largos períodos de desdobramento pelo sono  fisiológico,  imprimindo  profundamente  no  cerne  do  ser  de  cada  um,  a  devassidão,  o desvario, a degradação moral. Retornando ao corpo somático, recordam-se das experiências viciosas em que se comprazem e estimulam os seus aficionados, cada vez mais, à luxúria, ao sexo  açodado  pelas  drogas  alucinógenas,  pelo  álcool,  pelas  substâncias  farmacêuticas estimulantes.
"Não  seja  de  surpreender  a  debandada  das  gerações  novas  para  as  músicas  de sentido  infeliz,  nos  bailes  de  procedência  primária  e  sensualidade,  onde  a  perversão  dos sentimentos  é  a  tônica,  e  o  estímulo  à  violência,  à  rebeldia,  à  agressividade  constitui  o panorama da revolta, afinal contra o quê? Tornam-se adversários do denominado contexto, em vez de desenvolverem os valores dignificantes para melhorá-lo, mergulham fundamente nas  paixões  mais  vis,  tornando  piores  para  eles  mesmos  e  para  os  outros  os  dias  que enfrentam.  Fogem,  então,  para  a  consumpção  por  meio  das  drogas,  da  exaustão  dos prazeres sensuais e perversos.
"De pequena monta a contribuição da responsabilidade e do dever, ainda distantes de serem avaliados devidamente. Essa tarefa libertadora, sem dúvida,  cabe à educação das novas gerações, a fim de que sejam criados novos hábitos de convivência e de comunicação saudável,  dando  lugar  ao  desenvolvimento  das  forças  vivas  do  Bem  inatas  em  todos  os indivíduos.
"Podemos  ver  aqui  as  paisagens  defluentes  dessas  condutas  arbitrárias  e deslocadas  no  tempo  e  no  espaço,  transformadas  em  sofrimentos  de  longo prazo,  que  o amor irá modificar no momento próprio."
Não  havia  oportunidade  para  mais  esclarecimento  e  divagações  sobre  o  tema relevante,  porque  agora  chovia  energia  causticante,  que  fazia  lembrar  os  raios durante  as tempestades,  aumentando  as  dores  das  vítimas  de  si  mesmas,  arrebatadas  do  corpo  pela desencarnação em massa.
Curiosamente  relampejava  na  sombra  temerária,  e  essas  claridades  eram psíquicas, que predominavam na região mesmo antes do acontecimento terrível.
Turistas  de  diversos  países  europeus,  especialmente  nórdicos  e  americanos, franceses  e  alemães,  escolhiam  aquelas  regiões  para  os  prazeres  do  corpo  sem  qualquer compromisso  com  a  beleza  das  paisagens  dos  mares  do  sul,  com  a  sua  natureza  ainda semipreservada. Muitos viajavam para aqueles paraísos, quais a Tailândia, as ilhas Maldivas, as  ilhas  Phi  Phi  e  outras,  para  desfrutarem  das  facilidades  morais,  sexuais,  de  Jovens adolescentes  vendidos  pelos  pais  irresponsáveis  ao  comércio  da  licenciosidade.  Hábitos ancestrais ainda vigentes de total desrespeito pela mulher e pelo ser humano, facultaram a larga prostituição de meninas e de meninos que serviam de mascotes aos ocidentais que os podiam comprar a preço bastante acessível para eles.
Ao longo dos últimos anos, as mentes geraram essa psicosfera doentia nas regiões agora  afetadas  pela  calamidade  que  teve  uma  função  purificadora  para  toda  a região, alterando  os  costumes  e  propondo  novos  comportamentos  morais  pela  dor,  advertindo  a respeito  da  fragilidade  e  temporalidade  da  vida  orgânica,  e  que,  infelizmente,  ainda  não apresentava  qualquer  possibilidade  de  melhora.  Pelo  contrário,  aconteciam  a  revolta,  o suborno,  o  desvio  dos  auxílios  internacionais,  a  dominação  dos  mais  fortes  so bre  os  mais fracos, que ficariam à mercê da própria sorte em relação ao futuro sombrio em cujo rumo avançavam.
Como  as  religiões  lentamente  estavam  perdendo  prestígio.  mantendo  regras  de comportamento  na  teoria  e  manconunando-se  com  os  poderes  temporais  indignos,  as criaturas encontravam-se sem norte, vagando nas ocorrências mais apeapetecidas e menos laboriosas. O dinheiro fácil era o que lhes importava, a fim de saírem da miséria financeira e embriagarem-se no consumismo devastador.
Como faz falta a presença de Jesus no mundo, assim como dos Seus embaixadores que, através dos tempos, vieram preparar-Lhe o advento!
As Suas propostas ricas de ternura e de esperança, de consolo e de amor ainda não conseguiram  penetrar  realmente  nos  seus  seguidores,  menos  ainda  naqueles que  o  não coaliecem,  dando  lugar  às  loucuras  do  imediatismo,  do  desgaste  emocional  e  moral  nos jogos  dos  desejos  infrenes.  A  iluminação  espiritual  é  trabalho  de  largo  porte,  que  exige abnegação  e  devotamento,  compensado  através  da  paz  que  proporciona  e  da  alegria  de viver sem condicionamentos extravagantes nem dependências doentias.
Empenhados  na  atividade  especial  de  ajuda  aos  irmãos  aflitos,  sucediam-se  os quadros  de  dor,  cada  qual  específico,  em  razão  de  cada  pessoa  ser  única  e especial,  seus problemas e ambições muito próprios, caracterizando-lhe o nível de evolução.
Abdul,  suavemente  iluminado,  podendo  ser  percebido  pela  maioria  dos  Espíritos perversos  que  disputavam  as  carcaças  humanas  e  tentavam  submeter  os  seus antigos hóspedes físicos, continuava no recitativo do Alcorão, suplicando, vez que outra, a ajuda dos Céus para os sofredores e seus algozes.
Subitamente, no círculo de aflições, destacou-se uma mulher de olhar esgazeado que procurava a mãezinha, também vítima da catástrofe. Gritava, já afônica, pelo nome da genitora,  tentando  desembaraçar-se  do  corpo  sem  o  conseguir,  constrangendo-nos  de imediato. Acerquei-me, paciente e compadecido, podendo ler no seu pensamento o drama que  experienciava  e  a  dor  imensa  que  a  consumia.  Estava  atendendo  à  senhora  idosa enferma, quando a onda  imensa arrancou-lhe a casa  do solo, levando-a de roldão com os coqueiros e outras árvores de grande porte, despedaçando tudo à frente.  A morte de ambas foi  imediata, e logo despertou agônica  entre as ruínas do que  fora o lugar em que vivia. Não se apercebeu da situação, pois que, para ela, o dia não raiara, ainda tomado pelas sombras decorrentes  das  vibrações  ambientais  pesadas,  entregando-se  ao  desespero  em busca  da anciã.
Fortemente ligada ao corpo, tentava sair  do lugar sem o conseguir, em desespero crescente.  Naquele  momento,  algo  de  belo  sucedeu,  porque  na  densa escuridão  surgiu  a mãezinha liberada do corpo físico e, lúcida, assistida por nobre amigo desencarnado que a conduzia,  ajudando-a  a  acercar-se  da  filha  alucinada.  Vendo-nos  em  processo  de  auxílio  e esclarecida  pelo  seu  mentor  espiritual,  sorriu  e  tentou  agradecer  sem  palavras  a  nossa presença. Ato contínuo, abraçou a filha totalmente desequilibrada e começou a cantar uma doce  melodia  que  falava  de  esperança,  de  alegria  e  de  reencontro.  A  jovem  espiritual acalmou-se, a pouco e pouco, enquanto era embalada, logo adormecendo.
Foi  então  que  oferecemos  o  nosso  contributo  para  a  técnica  da  libertação  dos despojos  físicos,  cujas  últimas  energias  foram  absorvidas  pelo  Espírito  que  se recolheu  no regaço  maternal.  As  doces  vibrações  da  senhora  e  a  sua  destacada  estatura  espiritual irradiavam-se,  invadindo  o  organismo  perispirítico  da  filhinha,  que  foi  conduzida  a  outra esfera que não aquela à qual nos vinculávamos.
O trabalho prosseguia sem cessar.
Embora  o  Sol  abençoasse  a  imensa  área  logo  ao  amanhecer,  do  nosso  lado continuavam as trevas densas e as aflições sem nome, aguardando o sublime contributo da iluminação espiritual. 
 
Livro: Transição planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
 
Francisco Rebouças