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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

NOVAS EXPERIÊNCIAS

Após  algum  tempo  de  repouso  e  de  meditação,  deixei-me  inspirar  pela  oração, entregando-me  ao  Senhor  da  Vida  para  o  ministério  que  deveria  exercer  com  os  nobres Espíritos que logo mais visitaríamos a Terra.
Um  balsâmico  bem-estar  inundou-me  os  sentimentos  e  não  pude  conter  as lágrimas de alegria e de gratidão aos Céus, por permitir-me aprender no trabalho e com o exemplo dos mais abnegados.
Às  18  horas,  encontramo-nos,  e  após  uma  oração  pronunciada  pelo  Dr.  Charles White,  tomamos  o  veículo  especial  que  nos  conduziu  à  cidade  de  Sumatra,  na  Indonésia, considerado o quarto país mais populoso da Terra,  que fora assolada entre outras cidades dos  muitos  países  atingidos,  onde  deveríamos  instalar-nos  com  os  demais  grupos  que  nos anteciparam. A cidade tivera mais de dois terços da sua área afetada pela inundação e pela destruição.  Igualmente considerada o país mais populoso dentre os muçulmanos, seu povo, espalhado  pelas  inúmeras  ilhas,  não  podia  imaginar  a  grandeza  da  calamitosa  ocorrência, por  falta  de  comunicação  entre  aquelas  de  origem  vulcânica  e  as  outras  de  formação calcária.
Alguns Espíritos nobres acercaram-se da região no começo de dezembro, a fim de organizarem  as  comunidades  transitórias  para  receberem  os  que  desencarnariam  em aflição, no terrível futuro evento sísmico.
Transcorrido algum tempo de viagem, chegamos à comunidade espiritual situada sobre  a  área  tristemente  atingida.  Embora  houvéssemos  acompanhado  alguns  lances  da tragédia em nossa Colônia, podíamos agora ver diretamente os danos causados pela onda imensa  e  as  que  a  sucederam,  destruindo  tudo  com  a  velocidade  e  a  força  ciclópica  do terremoto  nas  águas  profundas  do  oceano  Indico,  e  logo  depois,  as  contínuas  vibrações  e seguidos choques destruidores.
A força tempestuosa espalhara-se pelas costas da índia, do Sri Lanka, da Tailândia, das  Ilhas  Phi  Phi,  das  Maldivas,  de  Bangladesh,  de  parte  da  África,  embora  com  efeitos menores que alcançaram outras regiões do referido oceano.
Como  resultado  lastimável  ocorreram  alterações  na  massa terrestre,  no  seu movimento,  na  inclinação  do  eixo,  que  embora  não  registradas  com  facilidade  pelos  seus habitantes, foram detectadas por instrumentos sensíveis.
A  primeira  onda  avassaladora  ceifara  mais  de  150.000  vidas,  enquanto  as sucessivas carregadas de destroços de casas, barcos e construções de todo tipo, de árvores arrancadas e pedras, semearam o horror, arrasando as comunidades litorâneas.
A  psicosfera  ambiental  era  densa,  denotando  todos  os  sinais  inequívocos  das tragédias  de  grande  porte.  Ouvíamos  o  clamor  das  multidões  desvairadas,  enlouquecidas pelo  sofrimento  decorrente  da  morte  dos  seres  queridos,  assim  como  em  relação  aos desaparecidos, à perda de tudo, vagando como ondas humanas sem destino.
De  imediato,  começaram  a  chegar  as  contribuições  internacionais,  porém,  os instintos  agressivos  dominavam  grupos  de  exploradores,  de  vadios  e  criminosos  que  se aproveitara da oportunidade para ampliar a rapina e o terror.
Tempestades vibratórias descarregavam energias densas sobre o rescaldo humano e geográfico, confrangendo-nos sobremaneira.
Logo  após  encontrarmos  o  lugar  que  nos  deveria  servir  de  suporte  para  as incursões ao planeta, onde igualmente se alojavam outros grupos espirituais socorristas, o nosso  gentil  doutor  explicou-nos  qual  a  tarefa  que  deveríamos  desempenhar  naqueles primeiros  minutos  e,  orientando-nos,  mergulhamos  na  densa  noite  que  se  abatia  sobre  a região devastada.
Os  corpos  em  decomposição  amontoavam-se  em  toda  parte,  após  ligeira identificação  de  familiares  e  a  remoção  de  alguns  para  outros  lugares,  chamando -nos  a atenção  as  fortes  ações  espirituais  mantidas  pelos  recém-desencarnados,  que  sequer  se haviam  dado  conta  da  ocorrência  grave.  Imantados  aos despojos,  estorcegavam, experimentando  a  angústia  do  afogamento,  as  dores  das  pancadas  produzidas  pelos destroços, o desespero defluente da ignorância. De quando em quando escutavam-se preces e súplicas dirigidas a Alá, logo seguidas de blasfêmias e imprecações tormentosas.
Movimentavam-se  muitos  encarnados  em  atividades  de  auxílio,  apesar  da  noite densa,  demonstrando  a  solidariedade  humana,  inúmeros  dos  quais  haviam  chegado  de outros  países,  especialistas  nesse  tipo  de  socorro,  que  se  misturavam  aos caravaneiros  do Além, igualmente dedicados ao amor ao próximo.
O  Dr.  White  caminhou  entre  os  muitos  destroços  e  cadáveres  na  direção  de  um grupo de desencarnados, que me fazia recordar uma alcateia de lobos famintos, ou chacais disputando  os  despojos  das  presas  mortas.  A  balbúrdia  era  expressiva,  e  o  pugilato  entre alguns Espíritos era igualmente vergonhoso.
—  Disputam  as  energias  dos  recém-desencarnados  —  elucidou  o  respeitável médico.
"Com  essa  atitude,  agridem  os  Espíritos  em  desespero,  que  mais  se  apavoram  e tentam absorver-lhes as energias animais de que se nutrem, iniciando o infeliz processo de vampirização. Identificando-se com aqueles cujas existências foram  de irresponsabilidade, o que lhes permite a sintonia vibratória, buscam exauri-los, o que apressará a decomposição cadavérica,  arrastando-os  para  regiões  de  desdita  onde  os  submeterão  a  sevícias  e exploração mental de longo curso.
"E como são profundamente infelizes, disputam as vítimas como fariam os animais ferozes com os despojos das caças que acreditam pertencer-lhes.
"Nosso compromisso de momento é afastá-los do local e tentar despertá-los para a sua realidade espiritual."
Aproximamo-nos,  e  a  um  sinal  do  médico,  Abdul,  que  se  encontrava  com  a indumentária muçulmana convencional, levantou a voz e recitou um ayat (versículo) de uma das  Suras  (capítulos)  do  Corão,  em  tonalidade  ritmada,  qual  faria  um  muzlim  no  seu recitativo na torre da mesquita.
Com vibração especial e profunda, o amigo continuou emitindo o som que envolvia as  palavras,  e,  subitamente,  houve  um  silêncio  aterrador,  com  os  bandoleiros  espirituais como  que  despertando  da  alucinação.  Nesse  momento,  Ana  aproximou-se  carregando  um archote que clareava o ambiente, erguido com o braço  direito acima da cabeça e, tomados de espanto, os vampiros e exploradores pararam a agressividade. Um deles destacou-se com
o semblante fescenino e cruel, gritando que nada tinha a temer, e que todos se voltassem contra os invasores e os submetessem.
Abdul, porém, manteve-se irretocável, continuando a recitar o Livro, com respeito e seriedade, o que produzia impacto muito grande na massa alucinada.
Foi então, que o Dr. White explicou-lhes a ocorrência que tivera lugar pouco tempo antes,  naquele  dia  26  —  era  ainda  dezembro  —  a  partir  das  8h  da  manhã,  e  todos  eles, colhidos pela morte, necessitavam de justo repouso, assim como os seus despojos deveriam ser cremados coletivamente, a fim de serem evitadas as epidemias que sucedem após esses infaustos acontecimentos, recordando que já se anunciavam algumas.
Ante  o  espanto  natural  que  tomou  conta  dos  desordeiros espirituais,  o  padre Marcos tomou das mãos que pareciam garras de um deles, o Espírito que se debatia entre os fluidos  materiais  como  resultado  das  ligações  do  perispírito  ainda  não  totalmente interrompidas,  o  que  lhe  proporcionava  angústias  inenarráveis  e  o  pavor  pelo  que experimentava decorrente do rude verdugo, que não resistiu ao gesto bondoso.
Observando  os  vínculos  que  se  alongavam  até  um  dos  cadáveres  em  deplorável estado  de  decomposição,  o  religioso,  com  movimentos  circulares,  no  sentido  oposto  aos ponteiros  do  relógio,  trabalhou  o  chakra  coronário,  deslindando  o  Espírito  que  gemia  e retorcia-se  em  agonias  inenarráveis,  até  que  descargas  densas  e  pútridas  que  eram eliminadas,  a  pouco  e  pouco  foram  diminuindo  de  volume  e  esgarçando-se  até  diluir-se totalmente. Vi, então, o desencarnado cambalear e desfalecer.
Ajudado  por  Ivon,  o  benfeitor  retirou-o  do  magote,  colocando-o  a  regular distância, em sono agitado, dando prosseguimento com outro infeliz.
O  agitador  que  ameaçava  Abdul,  disparou  em  velocidade  abandonando  o  grupo, enquanto o servidor do Bem continuava conclamando-os à paz, ao respeito pelas vítimas, à compaixão e misericórdia preconizados pelo seu livro sagrado.
Ato contínuo, embora prosseguisse a agressão de alguns mais rebeldes, seguimos a atitude do padre Marcos e procuramos atender alguns sofredores em comovedora aflição, que  se  libertavam  das  mãos  perversas  que  os  exploravam,  trabalhando-lhes  as  fixações perispirituais,  de  modo  a  atenuar-lhes  os  sofrimentos  acerbos.  À  medida  que  eram diminuídas as ligações com os cadáveres a que se encontravam imantados, experimentavam o torpor da desencarnação, entrando em sono agitado, típico das últimas imagens captadas antes da morte física.
Colocados  um  pouco  distante  da  zona  infectada  pelos  fluidos  densos  e  danosos, grupos  de  padioleiros  que  se  dedicavam  a  transferi-los  para  nossa  comunidade  espiritual temporária, conduziam-nos silenciosamente.
Enquanto ocorria essa atividade, Abdul falava diretamente com alguns obsessores e  zombeteiros  que  se  encontravam  presentes,  explicando-lhes  o  sentido  da  vida  e  as  Leis que  regem  o  Universo,  naturalmente  incluindo  o  sombrio  mundo  em  que  se  agitavam tentando manter o  mesmo comportamento vivenciado na Terra. Tratava-se da necessidade de transformação moral para melhor, a fim de poderem viver  realmente, libertando-se da névoa que lhes entorpecia a inteligência e alucinava os sentimentos.
Conhecedor  da  alma  humana,  o  hábil  esclarecedor  não  se  intimidava  ante  as ameaças  de  alguns  seres  hediondos  que  dele  escarneciam,  assim  como  de  todos  nós, gritando  epítetos  vulgares  e  aberrantes,  ameaçando-nos  de  combate  em  defesa  dos  seus interesses.
Sem enfrentamento verbal ou mental,  continuávamos cuidadosamente em nosso mister,  diminuindo  o  número  daqueles  que  se  mantinham  fixados  nos  corpos  danificados, desejando  reerguê-los,  retomá-los,  para  prosseguirem  na  caminhada  humana.  Dando-se conta  da  impossibilidade,  caindo  na  realidade  que  não  desejavam  aceitar,  perdiam completamente  a  lucidez  e  atiravam-se  de  encontro  ao  solo ou  uns  contra  os  outros, revoltados e em  pranto  de agonia, impedindo qualquer ajuda  de nossa  parte. Era natural, portanto, que houvesse um ponto de contato que nos facilitasse a execução do mister a que nos dedicávamos.
Não  existem  violências  nas  Leis  de  amor,  sendo  necessária  qualquer  forma  de identificação  entre  aqueles  que  necessitam  e  quem  se  predispõe  a  ajudá-los.  Eis  por  que, não poucas vezes, o sofrimento ainda  é a  melhor psicoterapia de que a vida se utiliza para despertar os dementados pelo prazer e os aficionados da crueldade.
O  labor  era  exaustivo  e  de  grande  significado,  porque  o  auxílio  liberador  a  cada Espírito  que  se  beneficiava  com  a  dádiva  do  sono  e  a  imediata  transferência  para  um  dos setores  de auxílio em nossa Esfera, assinalava-lhe o novo caminho a correr, após despertar do letargo que passariam experimentando por algum tempo.
Momentos  houve  de  agitação,  porque  alguns  dos  exploradores  de  energia recusavam ceder as suas vítimas ao nosso apoio,  ficando e apresentando-se em condições próprias para um pugilato físico, distante de qualquer método de equilíbrio.
O  Dr.  White,  porém,  comunicava-se  mentalmente  conosco,  estimulando-nos  ao prosseguimento, aproveitando-se indecisão de alguns verdugos,  vinculando-nos a Jesus no ministério  de  amor  junto  aos  obsidiados  a  quem  socorrera,  vindo  da  Sua  autoridade,  e, desse modo, continuamos.
A patética da gritaria infrene  e  da desolação em volta  doía-nos, no entanto, não podíamos deslocar-nos mentalmente da atividade que nos dizia respeito naquele reduto de putrefação e loucura.
Atendendo a uma mulher desvairada que segurava uma criança também lacrimosa e  inconsolável,  percebi-lhe  a  alienação  defluente  do  momento  em  que  se  desejou  salvar com a filhinha de poucos anos de idade, buscando a parte superior da casa em que viviam, e a onda arrancou-a dos alicerces despedaçando-a e esmagando contra os destroços ambos os corpos.  Podia-se  ver-lhe  os  registros  na  mente  alucinada.  Não  parava  de  gritar  suplicando socorro, acreditando-se, como realmente se encontrava, perseguida por seres demoníacos que a desejavam submeter.
Tocando-lhe  a  fronte  espiritual  e  emitindo  sucessivas  ondas  de  amor  e  de  paz, percebi que me captava o pensamento e, porque estivesse estimulada à fé religiosa, pôde perceber-me  em  seu  e  no  auxílio  à  filhinha,  deixando-se  conduzir  para  fora  do  círculo  em que se encontrava aprisionada,  embora ainda vinculada ao corpo reduzido a frangalhos. A
pequenina encontrava-se  livre da injunção perispiritual da matéria, e logo asserenou-se ao receber as vibrações que se exteriorizavam deste servidor em sua direção.
Ivon veio em meu  socorro e começamos a concentrar a nossa  atenção nos laços que a mantinham presa ao veículo carnal  sem qualquer utilidade naquele momento. Algum tempo  depois,  após  conseguirmos  esgarçar  as  ataduras  energéticas  entre  o  Espírito  e  a matéria, por fim, acalmou-se, deixando-se conduzir, enquanto chorava comovedoramente, lamentando o acontecimento da desencarnação de que se dava conta.
Buscamos  falar-lhe  de  imortalidade  através  do  pensamento  que  ela  captava, apresentando-lhe  a  filhinha  de  quem  deveria  cuidar,  prosseguindo  como  se  estivesse  na Terra e preparando-se para auxiliar aos demais familiares que, se não estivessem conduzidos pelo  carro  da  morte,  muito  necessitariam  da  sua  cooperação  para  poder  continuar  no processo de recuperação nos dias porvindouros.
Convidada à reflexão da família, o instinto maternal apresentou-se-lhe mais forte e ela  acedeu  em  acalmar-se.  Conseguiu  locomover-se,  embora  com  alguma  dificuldade, abraçando a criancinha que adormecera no seu regaço, e a conduz  a um grupo de auxiliares especiais  que,  a  partir  daquele  momento,  se  ncarregariam  das  providências  compatíveis com o seu estado.
Ainda não víramos tudo de que a natureza humana faz enquanto lhe predominam as forças brutais do primarismo. Estávamos absortos no atendimento daquela mole sofrida, quando  alguns  indivíduos,  ainda  reencarnados,  começaram  a  remover  os  corpos  sem qualquer consideração, aproveitando-se das sombras terríveis da noite.
— Trata-se de assaltantes de cadáveres — informou-nos Dr. White —  que os estão
vasculhando  em  busca  de  qualquer  coisa  de  valor,  considerando-se  que  a  morte  os surpreendeu um momento de atividade normal, sem aviso prévio.
"Embora  as  autoridades  estejam  tentando  pôr  ordem  ao  caos,  os  infelizes aproveitadores recorrem a todos os expedientes possíveis, objetivando lucrar com a desdita dos outros. Removendo os cadáveres em putrefação, não receiam contaminação de alguma
natureza  e  suportam  os  odores  terríveis  dominados  pelo  álcool  que  antes  ingerem  e  pela ambição desmedida de amealhar algo para os prazeres degradantes.
"Continuemos  sem  prestar-lhes  atenção,  desde  que  estamos  em  camposvibratórios muito diferentes."


Livro: Transição Planetária
Divaldo franco/Manoel Philomeno de Miranda

Francisco Rebouças