Havíamos sido informados anteriormente que nossa comunidade
receberia a visita de nobre
Entidade residente em
outra dimensão, que
viria trazer-nos notícias
preciosas a respeito do futuro
programa de atividades que seriam realizadas proximamente na Terra, no qual nos
encontrávamos inscritos Oscar e nós.
O dia transcorrera, portanto, assinalado por doces
expectativas. À noite, no horário convencionado,
enquanto os Céus bordavam-se com os diamantes estrelares, dirigimo-nos, o amigo
e nós, ao recinto dedicado às conferências especiais. Tratava-se de um edifício
semicircular, cercado por jardins bem cuidados, nos quais
se destacavam árvores frondosas e fontes luminosas, cujas
águas bailavam no ar ao som de deliciosas melodias, em área ampla, no coração
da Colônia.
A sala reservada para eventos dessa magnitude comportava
duas mil
pessoas especialmente
convidadas. Outras salas de menor
porte havia, preparadas, porém, para encontros
menores e especializados, devidamente equipadas de recursos tecnológicos que permitissem
melhor apreensão dos conteúdos
apresentados. A cúpula
superior era composta por
substância transparente que permitia ver-se o zimbório de veludo escuro da
noite com os seus pingentes de prata fulgurante. De todo
lugar, no auditório elegante, tinha-se a perfeita visão convidativa à reflexão,
à viagem interior.
Pairava no ambiente a psicosfera resultante
das atividades que
ali se realizavam com regular frequência.
A pouco e
pouco, discretamente ou
em conversação gentil
e tonalidade meiga, foram-se repletando
as poltronas confortáveis,
com os que
chegavam, enquanto se aguardava o acontecimento.
Antes das 20 horas, conforme os relógios terrestres, a sala
se encontrava repleta.
O nosso governador
geral fizera-se presente
acompanhado por outros
membros responsáveis pela nossa comunidade, demonstrando o alto significado
daquela ocorrência.
Recebêramos vagas informações a respeito
do nobre Orion,
que viria da constelação do
Touro, particularmente de uma das
Plêiades, a fim
de apresentar-nos considerações
relevantes a respeito do momentoso projeto sobre reencarnações em massa, conforme vinha
acontecendo no amado
planeta, desde a
segunda metade do
século passado, e ora se intensificaria.
A mesa em
destaque à frente
do auditório repousava
sobre um estrado
que a colocava em posição que
permitia a perfeita visão por todos os presentes.
Antes de serem convidados os membros que a constituiriam, o
grupo Coral Infantil apresentou-se cantando o Miserere, que se
refere ao Salmo
51, também chamado
da penitência, composto por Gregório Allegri e numa adaptação de Mozart,
no século XVIII, que muito jovem ainda,
ao ouvi-lo por
primeira vez, memorizou-o
e o adaptou
com ligeiras alterações.
A bela música
se inicia com uma súplica:
Senhor, tende misericórdia
de mim, e prossegue, comovedora, caracterizada pelo
arrependimento dos erros praticados e rica de certezas do divino amor…
As emoções tomaram-nos a todos, enquanto as
vozes angélicas rogavam compaixão para as nossas imperfeições
e nós as acompanhávamos em estado oracional.
Quando se deu o silêncio profundo, o mestre de
cerimônias convocou o administrador e mais alguns dirigentes
valorosos para que completassem a mesa diretora.
A seguir, solicitou ao
Espírito Ivon Costa, abnegado
divulgador do Espiritismo durante a primeira metade do
século passado, no Brasil, que proferisse a prece inicial.
Observei que, num
dos lados da
mesa, a distância
regular, duas Entidades femininas com
longas vestes vaporosas
e alvinitentes sentaram-se
ao lado de
um tubo formado por tênue
claridade que descia do teto.
O amigo citado, visivelmente inspirado, com uma voz melodiosa
como uma flauta habilmente tocada, pôs-se em prece que acompanhamos em
silêncio:
Jesus, Benfeitor nosso!
Enquanto o planeta amado estertora no seu processo de
aprimoramento evolutivo, padecendo rudes provas e expiações, arrebatando os
seus habitantes em direção a sofrimentos inenarráveis, aqueles que aqui estamos
reunidos e Te amamos, suplicamos misericórdia, em face da inferioridade moral
que predomina em a nossa
natureza espiritual.
Desde há milênios que a todos nos convocas para a construção
do reino espiritual nas mentes e nos corações, sem que hajamos atendido
corretamente ao Teu chamado.
Nas culturas e civilizações antigas, desde o período dos
sumérios, alguns de nós demo-nos conta do alto significado da existência
terrestre, deixando-nos, porém, anestesiar pelos vapores da matéria enganosa.
Mais tarde, na Pérsia e em Nínive, tomamos conhecimento da
Verdade e dos seus mistérios, para logo os abandonarmos, seguindo as turbas guerreiras
de Dario ou de Salmanasar, conquistando terras e disseminando a morte.
A nossa foi, então, a sementeira de sangue, de orfandade, de
viuvez, de ódio, e a colheita foram as dores acerbas e sem nome na Babilônia e
no Egito, que nos fascinaram com os seus templos faustosos,
arrastando-nos depois para
as derrotas sangrentas
com Astiages e o assassinato de Akenaton.
Transitamos pelos montes do Tibet e as planuras da índia,
repetindo as lições do Mahabarata que nos emocionavam, sem que conseguíssemos
alterar a belicosidade infeliz que nos assinalava.
A China veneranda
com Fo-Hi e
os seus filósofos
ensinou-nos sabedoria, entretanto não
nos arrefeceu a sede alucinada de
poder sobre a
Mandchúria e os
povos vizinhos, que também a destroçaram várias vezes com os seus carros
de destruição.
16 – (Manoel Philomeno de Miranda) Divaldo Pereira Franco
Atravessamos o deserto com Moisés, como
o faríamos depois
com Esdra, por nobreza de Ciro para reconstruir o Templo
e reerguer Jerusalém, e atacamos os filisteus e outros povos, semeando o
terror, malsinando, destruindo.
Atenas
encantou-nos, desde os
dias de Anaxágoras,
depois, com as
lições de Sócrates, não
impedindo, porém, que
nos entregássemos, em
Esparta, à hediondez
e às lutas incessantes.
Acompanhamos Cipião, o africano, como o fizéramos com
Alexandre Magno, o macedônio, e Aníbal, o cartaginês, embora conhecedores da filosofia
em torno da imortalidade e da interferência dos deuses em nossas vidas. E contigo, após ouvir-Te as lições de incomparável
beleza, abandonamos a fidelidade e convertemos a Tua doutrina em poder de
mentira, luxúria, hipocrisia e desventura.
Assim, atravessamos a noite medieval, advertidos por mártires
e santos, apegados à infâmia e ao horror.
Morremos e renascemos, vezes sem conto, despertando realmente para a
vida em
abundância quando as
claridades do Espiritismo
nos
arrancaram da densa treva interior, da ignorância e do abismo
da loucura egotista…
Houve uma pausa comovida. Todos respirávamos ao ritmo da
narração evocativa, profunda e grave.
Logo depois, prosseguiu com o mesmo timbre de voz e a mesma
emoção:
Mais de uma vez, a Tua misericórdia sacudiu a barca
planetária, qual ocorreu, há
pouco, através do tsunami, demonstrando a fraqueza dos
engenhos humanos e suas parcas
possibilidades de conhecer
os desígnios de
Deus, a fim
de a todos
despertar-nos em definitivo.
Novamente solicitaste o apoio de outros Espíritos para a grande
transição que logo mais terá lugar no mundo físico.
Permite-nos, agora, que o Embaixador de outra Esfera, que
estamos aguardando, possa trazer-nos a Tua bênção em nome do amor universal, a
fim de que, realmente conscientes, consigamos servir-Te com discernimento e
abnegação.
Aqui estamos, genuflexos e expectantes, a Teu serviço, de
coração e mente abertos à verdade.
Misericórdia, Senhor!
Quando silenciou, completara-se a materialização do visitante
especial no tubo de luz, graças à contribuição das médiuns que lhe ofereceram a
substância própria para o acontecimento.
Era de estatura um pouco mais alta do que o terrícola padrão.
Os olhos pareciam duas estrelas fulgurantes no céu da face gentil. Os movimentos corporais faziam-se harmônicos,
quando saiu do lugar onde se
condensara, seguindo o
mestre de cerimônias, que o conduziu a um assento
especial e com destaque sobre a plataforma.
Um perfume suave e doce tomou conta do imenso auditório
e todos nos concentramos, fixando o venerável
convidado.
Novamente o coral infantil enterneceu-nos com o seu sublime
canto.
Livro: Transição Planetária
Divaldo Franco/Manoel Philomeno de Miranda
Francisco Rebouças
