Perambulando, qual menino perdido pelos corredores do Templo Espírita,
procurava o mestre a fim de contar o ocorrido.
Encontrou o adversário-mor em intensas tarefas de organização, diante da
turba de obsessores que estagiavam na Casa Espírita, sob autorização do Alto,
delegando-lhes tarefas de influenciação.
Terminada a reunião da maldade, o discípulo contou-lhe, em linhas gerais,
os acontecimentos, tirando Júlio César do sério:
— Infeliz!
Quantas vezes lhe avisei?
Todo cuidado é pouco. Você é um fraco mesmo!
Se Daniel, o responsável pela seita de Mamom, não
estivesse incumbido de valorosa tarefa que acabei de lhe dar, você seria
substituído neste momento.
Abra o olho! Eles estão em toda parte!
Não podemos vê-los, eles, os representantes da
luz, contudo, podem nos monitorar enquanto permanecemos aqui. Por isso, a
vigilância deve ser redobrada!
Deixe-me ver, disse o obsessor chefe, aproximando-se do servo, batendo-lhe discretamente
no rosto como se desejasse despertá-lo, permanece
lúcido? Não lhe fizeram nenhuma lavagem cerebral, tortura...
— Mas, senhor... Disse o auxiliar, desejando falar-lhe que não
encontrou nada disso, mas foi interrompido pelo perseguidor:
— Nada de mas! Se já não bastassem
todas as minhas atividades, agora terei de lhe vigiar!
Preste atenção: você está proibido de se afastar
sem a minha necessária autorização.
Nosso processo está chegando ao fim. Logo, logo
sairemos daqui; lá fora você é muito útil para nossa organização. Es queceu
que lhe confiamos um exército? Lembra-se dos casos graves de obsessão que
coordena? Vai jogar tudo isso fora, por causa de umas palavrinhas tolas e
sentimentais? E sem falar na promoção que estou me empenhando em lhe conceder.
— Promoção, chefe? Perguntou o secretário, demonstrando no
semblante ânimo e expectativa, caindo na tola encenação do sumo perseguidor.
— Sim, meu caro! Promoção!
Por isso, veja se anda na linha, mais um deslize
seu e serei obrigado a cancelar todo o processo encaminhado aos nossos coordenadores,
pleiteando sua ascensão em nossa equipe! Desta forma, tome muito cuidado para
não desafiar a ira dos nossos superiores.
Agora eu estou verdadeiramente irritado, gritou o perverso Júlio
César. Os emissários do bem atingiram
o limite! Quiseram arrebatar meu secretário? Então vocês vão ver! Gritava
o superior de Gonçalves, olhando para o nada como se quisesse identificar as
entidades invisíveis.
Avante, criatura infeliz, nosso trabalho deve
continuar. Enquanto você era doutrinado, nossa equipe verificava os grupos
mediúnicos que atenderiam nossas expectativas. Cinco deles são fortes
candidatos para um processo de fascinação.
E adentrando uma das salas de trabalhos mediúnicos, ligaram-se a dois
participantes bastante receptivos aos pensamentos inferiores.
Sondando-lhes o mundo íntimo, notaram que um dialogador e uma das médiuns
trocavam pensamentos sensuais.
— Senhor, disse Daniel, o
discípulo de Mamom, trago a ficha.
Soraia Barreto e Sérgio Queiroz, candidatos ao
adultério, o que diz?
— Excelente, será um escândalo
formidável. Para seu primeiro trabalho num grupo profissional, está ótimo.
Vamos ver, agora, quem é que pode mais! As
fofocas sobre o caso da médium e do dialogador adúlteros explodirão por estes
corredores feito pólvora!
Vamos! Vamos! Precisamos nos organizar, ainda
temos muito o que fazer para executar este novo plano.
Soraia e Sérgio eram
trabalhadores de um grupo mediúnico. Ela, médium não muito educada, comparecia
raramente às reuniões de estudos doutrinários de orientação geral. Julgava-se,
algumas vezes, privada das alegrias do mundo por causa do compromisso
mediúnico. Casada com homem digno e respeitável, não se sentia feliz diante da
sagrada oportunidade do casamento.
O dialogador, igualmente consorciado, com dedicada esposa, digna de
admiração e amparo espiritual.
Entretanto, ignorando as orientações espíritas, colocavam-se à disposição
de entidades desequilibradas, gozando a vida de maneira irresponsável.
Ambos, os tarefeiros do socorro espiritual, abriam grandes brechas aos
inimigos da verdade. Não se dedicavam àvivência mínima dos ensinos adquiridos,
permanecendo interessados apenas nas atividades fenomênicas. E, porque
mantinham afinidade nas intenções, ligaram-se magneticamente por ondas mentais.
Na reunião de intercâmbio pouco contribuíam, tornavam-se elementos
isolados pelos mentores, pois que os pensamentos não atingiam regiões superiores
para ajuda na tarefa socorrista.
Todos estes dados eram de domínio dos invasores das sombras.
Os instrutores do Mais Alto, igualmente, sabiam deste possível envolvimento
entre os cooperadores citados. Contudo, não podiam privá-los do convívio entre
os companheiros encarnados, junto à Casa Espírita.
Entretanto, orientações espirituais gerais exaltando a moral, o nobre
objetivo do casamento, o esforço para domar as más tendências como ponto a
identificar o verdadeiro espírita, foram transmitidas através de vários
medianeiros, mas nenhuma delas foi acatada pelos dois tarefeiros envolvidos, o
que oferecia largo campo de atuação para Júlio César e sua falange.
O inimigo da harmonia reuniu rapidamente os servidores à sua disposição, iniciando mais esta
trama diabólica:
— Camaradas, eis que estamos
avançando de maneira muito satisfatória. Agora haveremos de usar, mais uma vez, uma arma bastante delicada, a
fascinação.
— E o campo de atuação será de
novo a mediunidade? Perguntou um dos presentes.
— Não e sim, respondeu o
maquiavélico.
Não exploraremos a mediunidade em si, mas
desejaremos atingir muitos médiuns.
A fascinação, prosseguiu o perverso arquiteto, será
no campo da sensualidade, dos instintos humanos. Um trabalho pouco difícil,
pois aqueles que envolveremos já vibram em nossa sintonia, autorizando-nos a
ação.
Simplesmente teremos de estimular um pouco mais
as suas tendências inferiores. Precisamos fazer com que estes tarefeiros
invigilantes e imprudentes se desequilibrem, comprometendo o bom andamento da
reunião, abrindo-nos o campo para atingirmos o grupo todo.
— E os amigos superiores? Perguntou
outro, muito preocupado. Não vão nos
impedir? E se formos pegos como
aconteceu com Gonçalves? Não tentarão nos afastar de nossos propósitos?
— Se caírem nas mãos dos
responsáveis espirituais por esta Casa, preveniu o perseguidor cruel, finjam terem se transformado para
livrarem-se da imantação mediúnica; inventem, se necessário, histórias
mirabolantes ou permaneçam mudos.
Eles, os mensageiros do Cristo, prosseguiu o preceptor das trevas, não
podem nos expulsar. Trabalham pela tolice do amor. Isso representa um ponto
positivo a nosso favor, porque preferem esperar pela nossa transformação moral
em vez de nos destruírem. Enquanto aguardam nossa metamorfose no campo dos
valores espirituais, que para nós é impossível, nosso plano avança.
— Estou com muito medo, continuou
o camarada prudente, levando outros a concordarem. Não será melhor desistirmos? Estamos na toca do inimigo. E se os
emissários da luz estiverem com a verdade?
Estas palavras finais mexeram intensamente com Júlio César, fazendo-o
perder a razão:
— Como ousa querer desistir?
E aproximando-se do obsessor temeroso, fitou-o de maneira profunda,
agarrando-o fortemente pelos andrajos em atitude agressiva, e, chacoalhando-o
violentamente por várias vezes, acrescentou irado:
— Experimente abandonar esta
missão! Tente render-se aos falsários do amor!
Deseje por um único minuto levantar um movimento
contra meus propósitos e verá o que lhe acontecerá!
Se eu souber de uma tentativa sequer, de sua
parte ou de alguém da minha equipe para mudar de lado, será sumariamente
confinado nas prisões de nossa cidade por tempo indeterminado.
E além do mais, continuou o malvado perseguidor aterrorizando e ameaçando os
obsessores, sei que muitos de vocês
ainda têm entes queridos encarnados; experimentem abandonar nossos propósitos e
verão o que acontecerá aos seus.
Não despertem minha ira, muito menos a dos
nossos superiores!
E, continuando, disse-lhes:
— Prestem atenção: os espíritos
bondosos não poderão nos impedir, pois que estaremos ligados aos pensamentos e
emoções de Soraia e Sérgio. Por isso,
coragem. Pessoas fracas não convivem comigo!
Gonçalves começava a observar o chefe com outros olhos, sentia-se um tanto
diferente e pela primeira vez analisava as colocações de seu superior,
distinguindo-as do atendimento respeitoso que recebera dos amigos espirituais.
Era o início de uma importante reflexão.
Elvira! Elvira! Gritou o mandante. Onde está você?
E, da turba, entidade feminina, usando esfarrapada fantasia, imitando as
dançarinas espanholas, rasgou a pequena multidão estalando desajeitada
castanhola, enquanto dançava sensualmente, arrancando dos comparsas assobios, palmas
e admiração.
— Parem com isso! Ordenou o porta-voz das sombras, fazendo surgir
o silêncio.
Entregaremos este caso a você, Elvira. Sei que questões de
envolvimentos no âmbito das emoções é a sua especialidade.
Quero que destrua o casamento dos dois, que
impeça o autocontrole das emoções, deixando-os fascinados um pelo outro a
ponto de perderem a razão e a compostura, embrenhando-se no campo do sexo
desequilibrado, afim de perturbarem, mais ainda, os trabalhos espíritas e
tornarem-se um grande escândalo na Instituição.
Não admito falhas, ouviu bem?
— Fique tranqüilo, não costumo
decepcionar meus superiores, respondeu a servidora sensual, o senhor sabe da minha competência.
— Então, mãos à obra!
Gonçalves!
— Pois não, senhor!
— Qual o resumo do nosso trabalho?
Como estão as tarefas dos outros camaradas?
— Vejamos as anotações, respondeu
o secretário. Já atingimos:
— a responsável pelo atendimento
fraterno, comprometendo as tarefas nesta área;
— um grupo de fluido terapia,
causando desconfiança e concorrência;
— este agrupamento de socorro
espiritual, que está em andamento, cujo objetivo é provocar escândalos e
consequentemente a fofoca destruidora.
Outros camaradas sob as suas ordens já
realizaram:
— o afastamento de um
entrevistador, coordenado por Márcia Boaventura, das tarefas das noites de
segunda, terça e quarta-feira. Seguindo suas orientações, o envolvemos a fim de
que julgasse fosse preciso melhorar a vida material. Fizemos com que se
inscrevesse em seu terceiro curso universitário. O mundo ganhará mais um inútil acadêmico e
perderá valoroso cooperador do bem.
— cinco expositores, dos mais
variados cursos de Espiritismo espalhados pela Casa, tiveram promoção no
emprego, sob nossa influência, tendo obrigatoriamente de abandonar as tarefas a
fim de cumprirem os compromissos materiais.
— três dirigentes de grupos
mediúnicos pediram licença, atendendo a caprichos familiares, fazendo longa
viagem, também sob nossa atuação.
— os eruditos espíritas não foram
esquecidos; com a vaidade sobreexcitada, estamos sugerindo que reformulem todos
os trabalhos na Casa, toda a área doutrinária. Isso sim é que vai gerar uma
grande fofoca. Desejamos fazer com que entrem em confronto com a organizada
diretoria de doutrina.
— estamos, ainda, fazendo com que
modismos de toda ordem apareçam por aqui, trazidos pelas pessoas eufóricas;
— trezentos processos de obsessão
simples foram implantados, junto àqueles que nos oferecem brechas, a pretexto
de atrapalhar diversos trabalhos espíritas. Estes, num mecanismo em cadeia,
exatamente como o senhor planejou, haverão de triplicar as irritações, abrindo
nossos caminhos.
— verificamos as obras
assistenciais e notamos estarem passando por várias dificuldades financeiras.
Envolvemos alguns responsáveis, que entraram em nossa esfera de ação por conta
do pessimismo, nervosismo exagerado, falta de fé, por terem esquecido do ideal
espírita e prenderem-se simplesmente à questão de organização, agindo com
frieza, distantes do amor. Com isso, podemos desestimulá-los intensamente e,
agora, estão prestes a abandonar as funções.
— nas promoções beneficentes,
igualmente tivemos boa infiltração, pois que os cooperadores, verificando
estarem fora das reuniões mediúnicas, da seriedade dos estudos, entregaram-se
às piadas, às brincadeiras, à maledicência, à competição, à inveja e ao ciúme.
Isso tem afastado vários trabalhadores matriculados nestas obras.
— no pequeno coral, inspiramo-lhes
músicas mais agitadas, fazendo com que se oponham à direção da Casa em querer
divulgar o Espiritismo pela canção. Sugerimo-lhes outros ritmos a fim de
atordoar-lhes e confundir-lhes o pensamento. O regente, praticamente um dos nossos, tendo levado “sua” ideia à direção doutrinária e esta,
obviamente, solicitando a retomada do trabalho com músicas que elevem a
criatura humana, conduzindo mensagens de transformação moral, tal como é o
objetivo do Espiritismo, fez com que o condutor das vozes espíritas se
irritasse, quase desistindo das tarefas.
— ainda temos o grupo de teatro
que certamente nos atenderá às mesmas solicitações, melindrando-se certamente
quando a pureza doutrinária lhes solicitar evitar, no Centro, a propagação de
obras não espíritas.
— temos procurado, diante dos
agrupamentos de estudos, estimular os contestadores natos, fazendo com que estejam
especialmente alterados, conseguindo, com isso, atrapalhar vários participantes.
E muitas outras reuniões estão recebendo a
visita de nossa falange.
Falta, ainda, atingirmos definitivamente o
presidente e o diretor doutrinário da Instituição.
Seguindo suas ordens, continuou Gonçalves, colocamos
cerca de dez espíritos adversários com cada um, esperando que ofereçam brechas
de atuação, mas eles desfrutam de proteção espiritual admirável, por conta do
esforço que empenham na conduta reta e pelo trabalho sério que executam.
Contudo, senhor, nosso labor permanece difícil!
Pois não faltam aqueles que são verdadeiras rochas morais, os que têm atraído
impressionante proteção espiritual pelas atitudes cristãs. Esse processo tem
exigido muito dos nossos cooperadores, já tivemos de renovar nossas turmas por
cinco vezes. Nossos trabalhadores sentem-se fracos ao entrarem em contato com
certos ambientes amorosos, que obrigatoriamente têm de visitar, com objetivo de
atormentar e desviar os encarnados da bondade. E sobre estes, nossa influência
tem sido praticamente nula.
Não sei se nossa equipe conseguirá ir até o fim.
Acredito estejamos andando devagar demais.
— Nada disso, meu caro, acrescentou o mandante, os pontos principais estão sendo atingidos,
aguarde e verá o excelente resultado.
Quanto aos responsáveis pela Instituição,
haveremos de visitá-los pessoalmente em breve. Primeiro ,
vamos atormentá-los e preocupá-los, desestruturando as tarefas, depois, quando
estiverem irritados com o mau desempenho dos departamentos, os escândalos, as
fofocas, os pegaremos em cheio.
Agora, deixemos o caso Soraia Barreto e Sérgio Queiroz nas mãos de
Elvira, nossa musa sensual.
Livro: Aconteceu na Casa
Espírita
Emanuel Cristiane/Nora
Francisco Rebouças