Solidarity Spiritist Societ

sábado, 22 de novembro de 2014

Verificando os Resultados

Perambulando, qual menino perdido pelos corredores do Templo Espírita, procurava o mestre a fim de contar o ocorrido.
Encontrou o adversário-mor em intensas tarefas de or­ganização, diante da turba de obsessores que estagiavam na Casa Espírita, sob autorização do Alto, delegando-lhes tare­fas de influenciação.
Terminada a reunião da maldade, o discípulo contou-lhe, em linhas gerais, os acontecimentos, tirando Júlio César do sério:

       Infeliz! Quantas vezes lhe avisei?

Todo cuidado é pouco. Você é um fraco mesmo!

Se Daniel, o responsável pela seita de Mamom, não estivesse incumbido de valorosa tarefa que acabei de lhe dar, você seria substituído neste momento.

Abra o olho! Eles estão em toda parte!

Não podemos vê-los, eles, os representantes da luz, contu­do, podem nos monitorar enquanto permanecemos aqui. Por isso, a vigilância deve ser redobrada!

Deixe-me ver, disse o obsessor chefe, aproximando-se do servo, batendo-lhe discretamente no rosto como se desejas­se despertá-lo, permanece lúcido? Não lhe fizeram nenhuma la­vagem cerebral, tortura...

       Mas, senhor... Disse o auxiliar, desejando falar-lhe que não encontrou nada disso, mas foi interrompido pelo perseguidor:

Nada de mas! Se já não bastassem todas as minhas ati­vidades, agora terei de lhe vigiar!

Preste atenção: você está proibido de se afastar sem a mi­nha necessária autorização.

Nosso processo está chegando ao fim. Logo, logo sairemos daqui; lá fora você é muito útil para nossa organização. Es que­ceu que lhe confiamos um exército? Lembra-se dos casos graves de obsessão que coordena? Vai jogar tudo isso fora, por causa de umas palavrinhas tolas e sentimentais? E sem falar na promoção que estou me empenhando em lhe conceder.

       Promoção, chefe? Perguntou o secretário, demons­trando no semblante ânimo e expectativa, caindo na tola encenação do sumo perseguidor.

Sim, meu caro! Promoção!

Por isso, veja se anda na linha, mais um deslize seu e serei obrigado a cancelar todo o processo encaminhado aos nossos co­ordenadores, pleiteando sua ascensão em nossa equipe! Desta forma, tome muito cuidado para não desafiar a ira dos nossos superiores.

Agora eu estou verdadeiramente irritado, gritou o perverso Júlio César. Os emissários do bem atingiram o limite! Quise­ram arrebatar meu secretário? Então vocês vão ver! Gritava o superior de Gonçalves, olhando para o nada como se quises­se identificar as entidades invisíveis.

Avante, criatura infeliz, nosso trabalho deve continuar. Enquanto você era doutrinado, nossa equipe verificava os gru­pos mediúnicos que atenderiam nossas expectativas. Cinco deles são fortes candidatos para um processo de fascinação.

E adentrando uma das salas de trabalhos mediúnicos, ligaram-se a dois participantes bastante receptivos aos pen­samentos inferiores.

Sondando-lhes o mundo íntimo, notaram que um dia­logador e uma das médiuns trocavam pensamentos sensuais.

Senhor, disse Daniel, o discípulo de Mamom, trago a ficha.

Soraia Barreto e Sérgio Queiroz, candidatos ao adultério, o que diz?

Excelente, será um escândalo formidável. Para seu pri­meiro trabalho num grupo profissional, está ótimo.

Vamos ver, agora, quem é que pode mais! As fofocas sobre o caso da médium e do dialogador adúlteros explodirão por estes corredores feito pólvora!

Vamos! Vamos! Precisamos nos organizar, ainda temos muito o que fazer para executar este novo plano.

        Soraia e Sérgio eram trabalhadores de um grupo me­diúnico. Ela, médium não muito educada, comparecia raramente às reuniões de estudos doutrinários de orientação ge­ral. Julgava-se, algumas vezes, privada das alegrias do mun­do por causa do compromisso mediúnico. Casada com ho­mem digno e respeitável, não se sentia feliz diante da sagra­da oportunidade do casamento.

O dialogador, igualmente consorciado, com dedicada esposa, digna de admiração e amparo espiritual.

Entretanto, ignorando as orientações espíritas, coloca­vam-se à disposição de entidades desequilibradas, gozando a vida de maneira irresponsável.

Ambos, os tarefeiros do socorro espiritual, abriam gran­des brechas aos inimigos da verdade. Não se dedicavam àvivência mínima dos ensinos adquiridos, permanecendo in­teressados apenas nas atividades fenomênicas. E, porque mantinham afinidade nas intenções, ligaram-se magneticamente por ondas mentais.

Na reunião de intercâmbio pouco contribuíam, torna­vam-se elementos isolados pelos mentores, pois que os pen­samentos não atingiam regiões superiores para ajuda na ta­refa socorrista.

Todos estes dados eram de domínio dos invasores das sombras.

Os instrutores do Mais Alto, igualmente, sabiam deste possível envolvimento entre os cooperadores citados. Con­tudo, não podiam privá-los do convívio entre os companhei­ros encarnados, junto à Casa Espírita.

Entretanto, orientações espirituais gerais exaltando a moral, o nobre objetivo do casamento, o esforço para domar as más tendências como ponto a identificar o verdadeiro espírita, foram transmitidas através de vários medianeiros, mas nenhuma delas foi acatada pelos dois tarefeiros envol­vidos, o que oferecia largo campo de atuação para Júlio César e sua falange.

O inimigo da harmonia reuniu rapidamente os servido­res à sua disposição, iniciando mais esta trama diabólica:

Camaradas, eis que estamos avançando de maneira mui­to satisfatória. Agora haveremos de usar, mais uma vez, uma arma bastante delicada, a fascinação.

E o campo de atuação será de novo a mediunidade? Per­guntou um dos presentes.

Não e sim, respondeu o maquiavélico.

Não exploraremos a mediunidade em si, mas desejaremos atingir muitos médiuns.

A fascinação, prosseguiu o perverso arquiteto, será no campo da sensualidade, dos instintos humanos. Um trabalho pouco difícil, pois aqueles que envolveremos já vibram em nossa sintonia, autorizando-nos a ação.

Simplesmente teremos de estimular um pouco mais as suas tendências inferiores. Precisamos fazer com que estes tarefeiros invigilantes e imprudentes se desequilibrem, comprometendo o bom andamento da reunião, abrindo-nos o campo para atingir­mos o grupo todo.

E os amigos superiores? Perguntou outro, muito preo­cupado. Não vão nos impedir? E se formos pegos como aconteceu com Gonçalves? Não tentarão nos afastar de nossos propó­sitos?

Se caírem nas mãos dos responsáveis espirituais por esta Casa, preveniu o perseguidor cruel, finjam terem se transfor­mado para livrarem-se da imantação mediúnica; inventem, se ne­cessário, histórias mirabolantes ou permaneçam mudos.

Eles, os mensageiros do Cristo, prosseguiu o preceptor das trevas, não podem nos expulsar. Trabalham pela tolice do amor. Isso representa um ponto positivo a nosso favor, porque prefe­rem esperar pela nossa transformação moral em vez de nos des­truírem. Enquanto aguardam nossa metamorfose no campo dos valores espirituais, que para nós é impossível, nosso plano avan­ça.

Estou com muito medo, continuou o camarada pru­dente, levando outros a concordarem. Não será melhor desis­tirmos? Estamos na toca do inimigo. E se os emissários da luz estiverem com a verdade?

Estas palavras finais mexeram intensamente com Júlio César, fazendo-o perder a razão:

Como ousa querer desistir?

E aproximando-se do obsessor temeroso, fitou-o de maneira profunda, agarrando-o fortemente pelos andrajos em atitude agressiva, e, chacoalhando-o violentamente por vá­rias vezes, acrescentou irado:

Experimente abandonar esta missão! Tente render-se aos falsários do amor!

Deseje por um único minuto levantar um movimento con­tra meus propósitos e verá o que lhe acontecerá!

Se eu souber de uma tentativa sequer, de sua parte ou de alguém da minha equipe para mudar de lado, será sumariamente confinado nas prisões de nossa cidade por tempo indeterminado.

        E além do mais, continuou o malvado perseguidor ater­rorizando e ameaçando os obsessores, sei que muitos de vocês ainda têm entes queridos encarnados; experimentem abandonar nossos propósitos e verão o que acontecerá aos seus.

Não despertem minha ira, muito menos a dos nossos superiores!

E, continuando, disse-lhes:

Prestem atenção: os espíritos bondosos não poderão nos impedir, pois que estaremos ligados aos pensamentos e emoções de Soraia e Sérgio. Por isso, coragem. Pessoas fracas não convi­vem comigo!

Gonçalves começava a observar o chefe com outros olhos, sentia-se um tanto diferente e pela primeira vez ana­lisava as colocações de seu superior, distinguindo-as do aten­dimento respeitoso que recebera dos amigos espirituais. Era o início de uma importante reflexão.

        Elvira! Elvira! Gritou o mandante. Onde está você?

E, da turba, entidade feminina, usando esfarrapada fan­tasia, imitando as dançarinas espanholas, rasgou a pequena multidão estalando desajeitada castanhola, enquanto dan­çava sensualmente, arrancando dos comparsas assobios, pal­mas e admiração.

       Parem com isso! Ordenou o porta-voz das sombras, fazendo surgir o silêncio.

Entregaremos este caso a você, Elvira. Sei que questões de envolvimentos no âmbito das emoções é a sua especialidade.

Quero que destrua o casamento dos dois, que impeça o au­tocontrole das emoções, deixando-os fascinados um pelo outro a ponto de perderem a razão e a compostura, embrenhando-se no campo do sexo desequilibrado, afim de perturbarem, mais ain­da, os trabalhos espíritas e tornarem-se um grande escândalo na Instituição.

Não admito falhas, ouviu bem?

Fique tranqüilo, não costumo decepcionar meus supe­riores, respondeu a servidora sensual, o senhor sabe da minha competência.

Então, mãos à obra!

Gonçalves!

Pois não, senhor!

Qual o resumo do nosso trabalho? Como estão as tarefas dos outros camaradas?

Vejamos as anotações, respondeu o secretário. Já atingimos:

a responsável pelo atendimento fraterno, comprometendo as tarefas nesta área;

um grupo de fluido terapia, causando desconfiança e con­corrência;

este agrupamento de socorro espiritual, que está em an­damento, cujo objetivo é provocar escândalos e consequentemente a fofoca destruidora.

Outros camaradas sob as suas ordens já realizaram:

o afastamento de um entrevistador, coordenado por Márcia Boaventura, das tarefas das noites de segunda, terça e quarta-feira. Seguindo suas orientações, o envolvemos a fim de que julgasse fosse preciso melhorar a vida material. Fizemos com que se inscrevesse em seu terceiro curso universitário. O mundo ga­nhará mais um inútil acadêmico e perderá valoroso cooperador do bem.

cinco expositores, dos mais variados cursos de Espiritismo espalhados pela Casa, tiveram promoção no emprego, sob nossa influência, tendo obrigatoriamente de abandonar as tarefas a fim de cumprirem os compromissos materiais.

três dirigentes de grupos mediúnicos pediram licença, aten­dendo a caprichos familiares, fazendo longa viagem, também sob nossa atuação.

os eruditos espíritas não foram esquecidos; com a vaidade sobreexcitada, estamos sugerindo que reformulem todos os tra­balhos na Casa, toda a área doutrinária. Isso sim é que vai gerar uma grande fofoca. Desejamos fazer com que entrem em con­fronto com a organizada diretoria de doutrina.

estamos, ainda, fazendo com que modismos de toda or­dem apareçam por aqui, trazidos pelas pessoas eufóricas;

trezentos processos de obsessão simples foram implanta­dos, junto àqueles que nos oferecem brechas, a pretexto de atrapalhar diversos trabalhos espíritas. Estes, num mecanismo em cadeia, exatamente como o senhor planejou, haverão de triplicar as irritações, abrindo nossos caminhos.

verificamos as obras assistenciais e notamos estarem pas­sando por várias dificuldades financeiras. Envolvemos alguns responsáveis, que entraram em nossa esfera de ação por conta do pessimismo, nervosismo exagerado, falta de fé, por terem es­quecido do ideal espírita e prenderem-se simplesmente à questão de organização, agindo com frieza, distantes do amor. Com isso, podemos desestimulá-los intensamente e, agora, estão prestes a abandonar as funções.

nas promoções beneficentes, igualmente tivemos boa in­filtração, pois que os cooperadores, verificando estarem fora das reuniões mediúnicas, da seriedade dos estudos, entregaram-se às piadas, às brincadeiras, à maledicência, à competição, à inveja e ao ciúme. Isso tem afastado vários trabalhadores matriculados nestas obras.

no pequeno coral, inspiramo-lhes músicas mais agitadas, fazendo com que se oponham à direção da Casa em querer divul­gar o Espiritismo pela canção. Sugerimo-lhes outros ritmos a fim de atordoar-lhes e confundir-lhes o pensamento. O regente, pra­ticamente um dos nossos, tendo levado “sua” ideia à direção dou­trinária e esta, obviamente, solicitando a retomada do trabalho com músicas que elevem a criatura humana, conduzindo men­sagens de transformação moral, tal como é o objetivo do Espiritismo, fez com que o condutor das vozes espíritas se irritasse, quase desistindo das tarefas.

ainda temos o grupo de teatro que certamente nos atende­rá às mesmas solicitações, melindrando-se certamente quando a pureza doutrinária lhes solicitar evitar, no Centro, a propagação de obras não espíritas.

temos procurado, diante dos agrupamentos de estudos, es­timular os contestadores natos, fazendo com que estejam espe­cialmente alterados, conseguindo, com isso, atrapalhar vários par­ticipantes.

E muitas outras reuniões estão recebendo a visita de nossa falange.

Falta, ainda, atingirmos definitivamente o presidente e o diretor doutrinário da Instituição.

Seguindo suas ordens, continuou Gonçalves, colocamos cerca de dez espíritos adversários com cada um, esperando que ofereçam brechas de atuação, mas eles desfrutam de proteção espiritual admirável, por conta do esforço que empenham na conduta reta e pelo trabalho sério que executam.

Contudo, senhor, nosso labor permanece difícil! Pois não faltam aqueles que são verdadeiras rochas morais, os que têm atraído impressionante proteção espiritual pelas atitudes cristãs. Esse processo tem exigido muito dos nossos cooperadores, já ti­vemos de renovar nossas turmas por cinco vezes. Nossos traba­lhadores sentem-se fracos ao entrarem em contato com certos ambientes amorosos, que obrigatoriamente têm de visitar, com objetivo de atormentar e desviar os encarnados da bondade. E sobre estes, nossa influência tem sido praticamente nula.

Não sei se nossa equipe conseguirá ir até o fim. Acredito estejamos andando devagar demais.

       Nada disso, meu caro, acrescentou o mandante, os pontos principais estão sendo atingidos, aguarde e verá o exce­lente resultado.

Quanto aos responsáveis pela Instituição, haveremos de visitá-los pessoalmente em breve. Primeiro, vamos atormentá-los e preocupá-los, desestruturando as tarefas, depois, quando esti­verem irritados com o mau desempenho dos departamentos, os escândalos, as fofocas, os pegaremos em cheio.

Agora, deixemos o caso Soraia Barreto e Sérgio Queiroz nas mãos de Elvira, nossa musa sensual. 

Livro: Aconteceu na Casa Espírita
Emanuel Cristiane/Nora


Francisco Rebouças