O perseguidor, porém, continuava
implacável. Após ter lançado a discórdia na equipe da fluidoterapia, continuava
a se preparar para o envolvimento dos grupos mediúnicos propriamente ditos.
Agora, os médiuns ostensivos é que seriam experimentados.
Os invasores das sombras julgavam-se
livres dos protetores espirituais. Sentiam-se fortalecidos no desejo de dominar
o Centro Espírita, por permanecerem imantados aos trabalhadores que ofereciam
brechas neste ou naquele campo.
Entretanto, quando se preparavam para
invadir um grupo de desobsessão, foram fortemente barrados por alguns
espíritos bons, impedindo-lhes o acesso na reunião de orientação e libertação
espiritual.
Júlio César não se continha,
esbravejava lançando palavras ofensivas ao grupo, além de fluidos nocivos que
eram neutralizados pela atuação positiva dos benfeitores espirituais.
O agrupamento dedicado à desobsessão era composto
de pessoas graves e idealistas, o que naturalmente lhes garantia o amparo,
livrando-os dos adversários perturbadores das tarefas.
Enquanto
o malfeitor protestava, os amigos espirituais aguardavam em silêncio que o
irmão perturbado fosse vencido pelo cansaço. Ainda não era o momento de
dialogar com o terrível perseguidor. As entidades amigas aguardavam a hora
adequada para a intervenção junto ao agente da destruição.
Gonçalves
afastou-se momentaneamente para dar algumas ordens aos outros espíritos
desordeiros, quando valoroso tarefeiro, fazendo-se visível, aproximou-se
dirigindo-lhe carinhosamente estas orientações:
- Meu filho, a paz de Jesus te envolva. Desejamos
te abraçar, falando-te do nosso desejo em compartilhar contigo das alegrias
espirituais. Vejo em teus olhos sofrimento, em tua face amargura, tua alma pede
socorro, estás cansado de lutas inúteis e de sofrimentos intensos.
E do
peito do benfeitor partiam jatos de fluidos amorosos, envolvendo o capataz do
mal nas mais sublimes energias.
O adversário, contudo, lembrou-se da advertência
do chefe quanto às tentativas dos apóstolos da luz em tentar arrebatá-los e, em
desespero, começou a gritar pelo nome do seu mestre, solicitando-lhe ajuda.
O representante da discórdia, porém, estava por
demais ocupado, esbravejando com os coordenadores espirituais da reunião de
desobsessão, ficando impossibilitado de ouvir o pedido de socorro do camarada.
A
entidade amiga envolveu o auxiliar da discórdia em ternas vibrações e, porque
não suportasse as irradiações amorosas, o contraste energético causou-lhe um
torpor, uma sonolência irresistível, caindo, por fim, nos braços amoráveis do
socorrista que o conduziu para uma das inúmeras reuniões de desobsessão do
Centro.
A equipe
espiritual superior almejava, com isso, oferecer aprendizado aos encarnados,
ao mesmo tempo em que agilizava a tarefa socorrista, valendo-se do ambiente
fluídico equilibrado, do amor verdadeiro e da imantação mediúnica que
permitiria ao adversário permanecer parado, por alguns instantes, e em estado
de lucidez para ouvir as palavras inspiradas do dialogador. O amigo espiritual
que o amparou adentrou a sala bastante confiante, verificando junto aos
companheiros de tarefa a possibilidade de atendimento naquela noite.
Após
saudação fraterna, fez este pedido:
— Caros amigos, temos um caso delicado que
precisa de ajuda urgente. Este, a quem amparo cuidadosamente, trata-se do
assistente de Júlio César, aquele que implantou um processo de infiltração
neste Templo.
Conseguimos envolver este irmão em doces vibrações
e precisamos atendê-lo neste momento, aproveitando o estado de adormecimento
em que se encontra, graças aos nossos recursos magnéticos, para efetuarmos a
ligação mediúnica.
Sei das chances mínimas de uma libertação imediata;
compreendo o estado doentio de sua mente, entendo o seu coração perdido na
ignorância e mergulhado no ódio; não ignoro, ainda, os pensamentos contaminados
pela vaidade; contudo, é preciso ajudá-lo nos primeiros passos para sua própria
reabilitação.
Permanece enganado quanto ao nosso processo de
reequilíbrio aplicado às criaturas perdidas no caminho. Guarda a idéia de que
somos carrascos trabalhando em nome do Cristo. Aquele a quem mantém como chefe
inventou mentiras, a pretexto de impedir-lhe o rompimento dos grilhões que o
prendem às regiões inferiores.
O
dirigente espiritual da reunião, sensibilizado e consciente da urgência do
caso, colocou o auxiliar da maldade na lista de atendimentos, enquanto valorosa
equipe de cooperadores espirituais verificava, entre os médiuns presentes, os
que ofereciam afinidade fluídica para o delicado atendimento.
A sala
mediúnica estava respeitavelmente preparada, os medianeiros cultivavam
sentimentos elevados, inúmeros benfeitores providenciavam a segurança da
reduzida assembléia dedicada ao sagrado intercâmbio espiritual. Esclarecimento,
boa vontade e dedicação dos médiuns, prometiam trabalhos intensos naquela
noite.
Dos
fenômenos mediúnicos, nada se compara às realizações da mediunidade educada
colocada a serviço do socorro espiritual.
A reunião
começou rigorosamente no horário previsto, O dirigente encarnado iniciou a sessão
com breve leitura de um texto evangélico seguido de prece sincera, ligando-nos
em agradáveis vibrações.
Terminada
a oração, o instrutor do nosso plano conduziu Gonçalves cuidadosamente ao
médium socorrista que, sentindo as emanações do adversário, mantinha-se firme,
cultivando bom ânimo para o serviço caridoso.
Três
experientes tarefeiros na arte da desobsessão foram convocados para fortalecer
o medianeiro, ajudando-o a conter os possíveis excessos do socorrido.
Suspensas
as vibrações controladoras, o discípulo da perversidade retomava vagarosamente
a consciência, transmitindo ao porta-voz, indescritível sensação de mal-estar.
Vendo-se
em ambiente estranho, recordando-se da abordagem do emissário do bem,
rememorando a advertência do chefe, julgou estar em mãos inquiridoras. E em
pânico iniciou a comunicação com estes gritos:
— Socorro! Socorro! Estou preso! Querem me
torturar!
Não falarei nada! Nem com um milhão de torturas!
Meu mestre vai saber! Ah! Se vai! Libertem-me!
Libertem-me! Gritava o infeliz, dando trabalho ao medianeiro, obrigando-o
a dosar a voz, a fim de desempenhar o melhor possível a abnegada tarefa de
socorro espiritual.
— Vocês não sabem com quem estão falando, sou
o secretário das sombras, meu senhor, quando souber, acabará com todos vocês!
Ele é um grande representante de importante cidade espiritual das regiões
inferiores, sou seu servo predileto. Eu tenho “costas quentes”, não mexam
comigo!
Ordeno, libertem-me! Agora! Agora!
Soltem as correntes que me aprisionam. Por quais mistérios
me prendem a outra pessoa? É a mediunidade,
não é? Claro, fui muito bem
avisado!
Maldita seja a mediunidade! Malditos sejam todos
vocês! Malditos!
O espírito perdia completamente o
controle. Não fosse a mediunidade disciplinada, o atendimento seria praticamente
impossível. E porque o adversário fez pequena pausa, promovida pelo cansaço do
momento, as entidades amigas, verificando a necessidade de rigorosa
intervenção, envolveram o dialogador levando-o a falar de maneira inspirada nestes
termos:
— Paz e amor, é o que desejamos àqueles que
Deus nos envia!
Meu irmão, você não está amarrado, muito menos
preso, permanecemos todos laborando em nome de Jesus nosso Mestre.
— Não pronuncie este nome perto de mim, meu
mestre éoutro. O Cristo quer
nos enganar, nos enganar...
— Calma,
meu amigo, disse o dialogador, imprimindo nas palavras afabilidade e
doçura. O nome de Jesus representa a
sublime bondade, o amor verdadeiro, aquele amor que você há muito tempo deixou
de sentir, a amizade verdadeira que não solicita retribuições, o abraço
afetuoso de alguém que nos ama. Lembra-se? Entregando-se à prática do mal, o
amigo esqueceu que é filho de Deus e possui uma tarefa importantíssima para
realizar, sua reforma moral...
— Tarefa? Tenho mesmo uma grande missão a
realizar: a destruição desta Casa!
Vocês pensam saber de tudo, acreditam estarem
protegidos, santos, não é? Nós vamos mostrar! Meu mestre é especialista em
destruir casas como esta! Eu já vi inúmeros centros serem devorados pelos próprios
espíritas.
Esta Casa será a próxima!
Que venham as falanges inferiores, venham espíritos
das trevas, o momento é nosso, essa guerra já está ganha!
Mestre, bradava o adversário, salva-me! Senhor das sombras, socorre-me
agora!
E
enquanto o adversário da paz gritava, a equipe espiritual se fez visível,
irradiando intensamente em benefício do sofredor. Entidade respeitável
aproximou-se do esclarecedor, inspirando-lhe esta rogativa:
- Senhor Jesus!
Eis que te pedimos com amor sincero...
Estas
simples palavras, envoltas nos mais sublimes sentimentos, impressionaram o
perseguidor calando-o momentaneamente, permitindo atuação direta da equipe
socorrista. Entidades amigas se aproximaram, aproveitando os extraordinários
benefícios da oração, projetando em telas fluídicas imagens referentes à última
encarnação do obsessor em atendimento.
O invasor se reconhecia em valorosa empresa,
desempenhando função importante. Via-se explorando os funcionários menos
reconhecidos financeiramente. Abusando de moças ingênuas, autorizava abortos
livrando-se da paternidade indesejável. Promovia voluntariamente demissões desnecessárias.
Usava o poder para dominar, perdendo-se na noite dos vícios.
Por conta
disso, angariou para junto de si entidades malévolas, que o incentivavam ao
desvario.
E, de
retorno à vida maior, a lei de causa e efeito o arrastou para sinistra cidade.
Os obsessores que o receberam exploraram-no a ponto de apagar-lhe da memória
certas lembranças, convertendo-o em torpe servidor da maldade.
Oonçalves
estava assombrado, sentia-se usado pelos comparsas. E, humilhado, continuou em
silêncio, ouvindo a petição do dialogador que seguia comovente, colocando nas
palavras o próprio coração:
— Rogamos-te por este amigo e irmão!
Não nos colocamos acima dele; bem sabemos das
nossas limitações.
Imploramo-te humildemente: compreende nosso
companheiro, ajudando-o no despertar, a fim de colocar-se rumo ao próprio
progresso.
Também sabemos dos sofrimentos desta alma, nossa
irmã, das noites tristes por que passa, da saudade que machuca, do frio que
atormenta e da solidão que dilacera o peito!
Quem sabe, na tua misericórdia, nosso irmão
encontre a alegria de servir no campo do bem, recompondo e libertando-se dos
erros do passado.
E, reconhecidos no teu amor, eis que te entregamos
à compaixão este amigo, nosso irmão, solicitando-te acolha-o em teus braços.
Terminada
a prece, o assistido parecia estar em êxtase. O coração fora invadido por vibrações
amorosas; pela primeira vez, em muitos anos, sentia-se respeitado, valorizado,
querido, amado.
E,
lançando-se em profunda reflexão, lembrou-se do chefe perseguidor e
instintivamente desejou fugir, surpreendendo-se quando notou os próprios
amigos espirituais mostrando-lhe a saída, autorizando-lhe deixar o ambiente.
Ajudado pela
entidade que o trouxera à reunião
libertadora, levantou-se, recebendo abraço repleto de afeição, seguido destas
orientações:
— Gonçalves, meu filho, disse o
benfeitor, não estamos na condição de
juízes implacáveis, não queremos que nos tenhas na conta de adversários. Desejamos
estar unidos no amor de Deus,
nosso Pai.
É provável que guardes certas dúvidas a nosso
respeito, entretanto, amigo, saiba que, se ages com certa liberdade, é porque
estás dentro dos limites das leis divinas. Cedo ou tarde tua atuação será
impedida pelas leis universais.
Desejamos com este processo de socorro acalmar-te,
para dialogarmos mais de perto, advertindo-te quanto à responsabilidade de
consertares o que vens estragando. Queremos que tenhas em nós amigos queridos,
dispostos a ajudar-te na própria recuperação.
Segue adiante, meu irmão, reflete sobre tudo o que
viste, ouviste e sentiste neste ambiente, avaliando nossos propósitos. Sei que
desejas ver-te livre de nós, entretanto, sabe que permaneces cativo da própria
consciência.
— O quê? Perguntou o obsessor,
interrompendo a fala da entidade amiga. Livre?
Onde os instrumentos de tortura? A lavagem
cerebral? Os carrascos encapuzados portadores de chibatas aos quais meu mestre
se referia?
— Não dispomos de nenhum destes instrumentos, respondeu
o amigo espiritual.
O amor, a compreensão e o perdão são os nossos
mecanismos de trabalho na seara do bem.
És tu quem permaneces numa eterna tortura!
Contudo, conta sempre com a nossa disposição em
ajudar-te a encontrar o caminho de volta.
Agora é contigo, a decisão é tua, consulta a
própria consciência.
O obsessor saiu emocionado, contudo, orgulho e vaidade impediam-no de
transformar-se intimamente naquela hora.
Os instrutores da vida maior,
responsáveis pela Instituição, estavam satisfeitos, pois sabiam que a semente
da verdade fora plantada e, no momento oportuno, haveria de germinar.
Livro: Aconteceu na Casa Espírita
Emanuel Cristiane/Nora
Francisco Rebouças