Solidarity Spiritist Societ

domingo, 9 de novembro de 2014

Intervenção Superior


O perseguidor, porém, continuava implacável. Após ter lançado a discórdia na equipe da fluidoterapia, continuava a se preparar para o envolvimento dos grupos mediúnicos propriamente ditos. Agora, os médiuns ostensivos é que seriam experimentados.

Os invasores das sombras julgavam-se livres dos prote­tores espirituais. Sentiam-se fortalecidos no desejo de domi­nar o Centro Espírita, por permanecerem imantados aos trabalhadores que ofereciam brechas neste ou naquele campo.

        Entretanto, quando se preparavam para invadir um gru­po de desobsessão, foram fortemente barrados por alguns espíritos bons, impedindo-lhes o acesso na reunião de orientação e libertação espiritual.

        Júlio César não se continha, esbravejava lançando pa­lavras ofensivas ao grupo, além de fluidos nocivos que eram neutralizados pela atuação positiva dos benfeitores espirituais.

O agrupamento dedicado à desobsessão era composto de pessoas graves e idealistas, o que naturalmente lhes ga­rantia o amparo, livrando-os dos adversários perturbadores das tarefas.

Enquanto o malfeitor protestava, os amigos espirituais aguardavam em silêncio que o irmão perturbado fosse ven­cido pelo cansaço. Ainda não era o momento de dialogar com o terrível perseguidor. As entidades amigas aguardavam a hora adequada para a intervenção junto ao agente da des­truição.

Gonçalves afastou-se momentaneamente para dar algu­mas ordens aos outros espíritos desordeiros, quando valoro­so tarefeiro, fazendo-se visível, aproximou-se dirigindo-lhe carinhosamente estas orientações:

- Meu filho, a paz de Jesus te envolva. Desejamos te abra­çar, falando-te do nosso desejo em compartilhar contigo das ale­grias espirituais. Vejo em teus olhos sofrimento, em tua face amargura, tua alma pede socorro, estás cansado de lutas inúteis e de sofrimentos intensos.

E do peito do benfeitor partiam jatos de fluidos amoro­sos, envolvendo o capataz do mal nas mais sublimes energias.

O adversário, contudo, lembrou-se da advertência do chefe quanto às tentativas dos apóstolos da luz em tentar arrebatá-los e, em desespero, começou a gritar pelo nome do seu mestre, solicitando-lhe ajuda.

O representante da discórdia, porém, estava por demais ocupado, esbravejando com os coordenadores espirituais da reunião de desobsessão, ficando impossibilitado de ouvir o pedido de socorro do camarada.

A entidade amiga envolveu o auxiliar da discórdia em ternas vibrações e, porque não suportasse as irradiações amo­rosas, o contraste energético causou-lhe um torpor, uma so­nolência irresistível, caindo, por fim, nos braços amoráveis do socorrista que o conduziu para uma das inúmeras reu­niões de desobsessão do Centro.

A equipe espiritual superior almejava, com isso, ofere­cer aprendizado aos encarnados, ao mesmo tempo em que agilizava a tarefa socorrista, valendo-se do ambiente fluídico equilibrado, do amor verdadeiro e da imantação mediúnica que permitiria ao adversário permanecer parado, por alguns instantes, e em estado de lucidez para ouvir as palavras ins­piradas do dialogador. O amigo espiritual que o amparou adentrou a sala bastante confiante, verificando junto aos companheiros de tarefa a possibilidade de atendimento na­quela noite.

Após saudação fraterna, fez este pedido:

Caros amigos, temos um caso delicado que precisa de aju­da urgente. Este, a quem amparo cuidadosamente, trata-se do assistente de Júlio César, aquele que implantou um processo de infiltração neste Templo.

Conseguimos envolver este irmão em doces vibrações e pre­cisamos atendê-lo neste momento, aproveitando o estado de adormecimento em que se encontra, graças aos nossos recursos magnéticos, para efetuarmos a ligação mediúnica.

Sei das chances mínimas de uma libertação imediata; com­preendo o estado doentio de sua mente, entendo o seu coração perdido na ignorância e mergulhado no ódio; não ignoro, ainda, os pensamentos contaminados pela vaidade; contudo, é preciso ajudá-lo nos primeiros passos para sua própria reabilitação.

Permanece enganado quanto ao nosso processo de reequilí­brio aplicado às criaturas perdidas no caminho. Guarda a idéia de que somos carrascos trabalhando em nome do Cristo. Aquele a quem mantém como chefe inventou mentiras, a pretexto de impedir-lhe o rompimento dos grilhões que o prendem às regiões inferiores.

 

O dirigente espiritual da reunião, sensibilizado e cons­ciente da urgência do caso, colocou o auxiliar da maldade na lista de atendimentos, enquanto valorosa equipe de coo­peradores espirituais verificava, entre os médiuns presentes, os que ofereciam afinidade fluídica para o delicado atendimento.

A sala mediúnica estava respeitavelmente preparada, os medianeiros cultivavam sentimentos elevados, inúmeros benfeitores providenciavam a segurança da reduzida assem­bléia dedicada ao sagrado intercâmbio espiritual. Esclareci­mento, boa vontade e dedicação dos médiuns, prometiam trabalhos intensos naquela noite.

 

Dos fenômenos mediúnicos, nada se compara às reali­zações da mediunidade educada colocada a serviço do socorro espiritual.

A reunião começou rigorosamente no horário previs­to, O dirigente encarnado iniciou a sessão com breve leitura de um texto evangélico seguido de prece sincera, ligando-nos em agradáveis vibrações.

Terminada a oração, o instrutor do nosso plano condu­ziu Gonçalves cuidadosamente ao médium socorrista que, sentindo as emanações do adversário, mantinha-se firme, cultivando bom ânimo para o serviço caridoso.

Três experientes tarefeiros na arte da desobsessão foram convocados para fortalecer o medianeiro, ajudando-o a con­ter os possíveis excessos do socorrido.

Suspensas as vibrações controladoras, o discípulo da perversidade retomava vagarosamente a consciência, trans­mitindo ao porta-voz, indescritível sensação de mal-estar.

Vendo-se em ambiente estranho, recordando-se da abor­dagem do emissário do bem, rememorando a advertência do chefe, julgou estar em mãos inquiridoras. E em pânico ini­ciou a comunicação com estes gritos:

Socorro! Socorro! Estou preso! Querem me torturar!

Não falarei nada! Nem com um milhão de torturas!

Meu mestre vai saber! Ah! Se vai! Libertem-me! Libertem-me! Gritava o infeliz, dando trabalho ao medianeiro, obri­gando-o a dosar a voz, a fim de desempenhar o melhor pos­sível a abnegada tarefa de socorro espiritual.

Vocês não sabem com quem estão falando, sou o secre­tário das sombras, meu senhor, quando souber, acabará com to­dos vocês! Ele é um grande representante de importante cidade espiritual das regiões inferiores, sou seu servo predileto. Eu te­nho “costas quentes”, não mexam comigo!

Ordeno, libertem-me! Agora! Agora!

Soltem as correntes que me aprisionam. Por quais mistérios me prendem a outra pessoa? É a mediunidade, não é? Claro, fui muito bem avisado!

Maldita seja a mediunidade! Malditos sejam todos vocês! Malditos!

 

        O espírito perdia completamente o controle. Não fosse a mediunidade disciplinada, o atendimento seria praticamen­te impossível. E porque o adversário fez pequena pausa, pro­movida pelo cansaço do momento, as entidades amigas, ve­rificando a necessidade de rigorosa intervenção, envolveram o dialogador levando-o a falar de maneira inspirada nestes termos:

        Paz e amor, é o que desejamos àqueles que Deus nos envia!­

Meu irmão, você não está amarrado, muito menos preso, permanecemos todos laborando em nome de Jesus nosso Mestre.

Não pronuncie este nome perto de mim, meu mestre éoutro. O Cristo quer nos enganar, nos enganar...

Calma, meu amigo, disse o dialogador, imprimindo nas palavras afabilidade e doçura. O nome de Jesus representa a sublime bondade, o amor verdadeiro, aquele amor que você há muito tempo deixou de sentir, a amizade verdadeira que não so­licita retribuições, o abraço afetuoso de alguém que nos ama. Lembra-se? Entregando-se à prática do mal, o amigo esqueceu que é filho de Deus e possui uma tarefa importantíssima para realizar, sua reforma moral...

Tarefa? Tenho mesmo uma grande missão a realizar: a destruição desta Casa!

Vocês pensam saber de tudo, acreditam estarem protegidos, santos, não é? Nós vamos mostrar! Meu mestre é especialista em destruir casas como esta! Eu já vi inúmeros centros serem devo­rados pelos próprios espíritas.

Esta Casa será a próxima!

Que venham as falanges inferiores, venham espíritos das trevas, o momento é nosso, essa guerra já está ganha!

Mestre, bradava o adversário, salva-me! Senhor das som­bras, socorre-me agora!

E enquanto o adversário da paz gritava, a equipe espiri­tual se fez visível, irradiando intensamente em benefício do sofredor. Entidade respeitável aproximou-se do esclarecedor, inspirando-lhe esta rogativa:

- Senhor Jesus!

Eis que te pedimos com amor sincero...

Estas simples palavras, envoltas nos mais sublimes sen­timentos, impressionaram o perseguidor calando-o momen­taneamente, permitindo atuação direta da equipe socorrista. Entidades amigas se aproximaram, aproveitando os extraor­dinários benefícios da oração, projetando em telas fluídicas imagens referentes à última encarnação do obsessor em aten­dimento.

O  invasor se reconhecia em valorosa empresa, desem­penhando função importante. Via-se explorando os funcio­nários menos reconhecidos financeiramente. Abusando de moças ingênuas, autorizava abortos livrando-se da paterni­dade indesejável. Promovia voluntariamente demissões des­necessárias. Usava o poder para dominar, perdendo-se na noite dos vícios.

Por conta disso, angariou para junto de si entidades malévolas, que o incentivavam ao desvario.

E, de retorno à vida maior, a lei de causa e efeito o ar­rastou para sinistra cidade. Os obsessores que o receberam exploraram-no a ponto de apagar-lhe da memória certas lem­branças, convertendo-o em torpe servidor da maldade.

Oonçalves estava assombrado, sentia-se usado pelos comparsas. E, humilhado, continuou em silêncio, ouvindo a petição do dialogador que seguia comovente, colocando nas palavras o próprio coração:

Rogamos-te por este amigo e irmão!

Não nos colocamos acima dele; bem sabemos das nossas limitações.

Imploramo-te humildemente: compreende nosso companhei­ro, ajudando-o no despertar, a fim de colocar-se rumo ao próprio progresso.

Também sabemos dos sofrimentos desta alma, nossa irmã, das noites tristes por que passa, da saudade que machuca, do frio que atormenta e da solidão que dilacera o peito!

Quem sabe, na tua misericórdia, nosso irmão encontre a alegria de servir no campo do bem, recompondo e libertando-se dos erros do passado.

E, reconhecidos no teu amor, eis que te entregamos à com­paixão este amigo, nosso irmão, solicitando-te acolha-o em teus braços.

 

Terminada a prece, o assistido parecia estar em êxtase. O coração fora invadido por vibrações amorosas; pela pri­meira vez, em muitos anos, sentia-se respeitado, valorizado, querido, amado.

E, lançando-se em profunda reflexão, lembrou-se do chefe perseguidor e instintivamente desejou fugir, surpreen­dendo-se quando notou os próprios amigos espirituais mos­trando-lhe a saída, autorizando-lhe deixar o ambiente.

Ajudado pela entidade que o trouxera à reunião liber­tadora, levantou-se, recebendo abraço repleto de afeição, seguido destas orientações:

Gonçalves, meu filho, disse o benfeitor, não estamos na condição de juízes implacáveis, não queremos que nos tenhas na conta de adversários. Desejamos estar unidos no amor de Deus, nosso Pai.

É provável que guardes certas dúvidas a nosso respeito, entretanto, amigo, saiba que, se ages com certa liberdade, é por­que estás dentro dos limites das leis divinas. Cedo ou tarde tua atuação será impedida pelas leis universais.

Desejamos com este processo de socorro acalmar-te, para dialogarmos mais de perto, advertindo-te quanto à responsabili­dade de consertares o que vens estragando. Queremos que tenhas em nós amigos queridos, dispostos a ajudar-te na própria recupe­ração.

Segue adiante, meu irmão, reflete sobre tudo o que viste, ouviste e sentiste neste ambiente, avaliando nossos propósitos. Sei que desejas ver-te livre de nós, entretanto, sabe que permaneces cativo da própria consciência.

— O quê? Perguntou o obsessor, interrompendo a fala da entidade amiga. Livre?

Onde os instrumentos de tortura? A lavagem cerebral? Os carrascos encapuzados portadores de chibatas aos quais meu mestre se referia?

Não dispomos de nenhum destes instrumentos, respon­deu o amigo espiritual.

O amor, a compreensão e o perdão são os nossos mecanis­mos de trabalho na seara do bem.

És tu quem permaneces numa eterna tortura!

Contudo, conta sempre com a nossa disposição em ajudar-te a encontrar o caminho de volta.

Agora é contigo, a decisão é tua, consulta a própria cons­ciência.

 

        O obsessor saiu emocionado, contudo, orgulho e vaidade impediam-no de transformar-se intimamente naquela hora.

 

        Os instrutores da vida maior, responsáveis pela Institui­ção, estavam satisfeitos, pois sabiam que a semente da ver­dade fora plantada e, no momento oportuno, haveria de germinar.

 

Livro: Aconteceu na Casa Espírita

Emanuel Cristiane/Nora

 

Francisco Rebouças