O Dr. Pimentel coutou o cordão
umbilical, enrolou a criança em uma toalha - era uma menina -,
colocou-a cuidadosamente de bruços e passou a cuidar da mãe, exausta e
dolorida.
Eu tinha 23 anos de idade e pela primeira vez na vida agitavam-se em mim as
poderosas emoções da paternidade, com todas as suas perplexidades,
complexidades e expectativas.
Aproximei-me do pequeno embrulho sobre a cama para olhar de perto minha filha.
Pensava, talvez, encontrá-la cochilando, a sonhar, ainda, com os mistérios de
suas origens. Foi uma surpresa observar que tinha os olhinhos escuros bem
abertos, atentos e acesos, a me contemplarem de maneira enigmática e
inquisitiva. Lembro-me perfeitamente das rusguinhas traçadas na testa exígua,
pelo esforço que fazia ao levantar a cabecinha careca, como se perguntasse a si
mesma:
— Será que esse sujeito vai ser um bom pai para mim? Cadê minha mãe? E agora,
que vão fazer comigo? Quanto tempo vou ficar aqui, enrolada neste pano?
Quanto a mim, não me recordo dos pensamentos que transitavam pela minha mente,
mas sei que eram muitos, e desencontrados. Acho mesmo que tinha tantas
perguntas quanto ela, talvez mais, não sei. Uma coisa era certa: Ana-Maria
acabava de chegar. (Eu sabia o nome dela porque já o havíamos escolhido com a
devida antecedência. Embora houvesse um nome masculino de reserva, de certa
forma eu ‘sabia” que seria uma menina. Mistérios esses que hoje entendo melhor
do que então.) Que ela chegara, não havia dúvida, pois estava ali, olhos
curiosos, prontinha para começar a exploração do novo mundo em que viera viver.
Minha dúvida era outra, ou seja, de onde vinha aquele ser? A lógica me dizia
que se chegara aqui é porque partira de algum lugar, onde estava antes de vir.
Onde, porém? Aprendera eu, em tempos, agora remotos, da infância, que Deus
criava uma alma novinha em folha para cada criança que nascia, mas eu tinha já
minhas dificuldades com essas e outras informações. Não havia como questionar a
sabedoria, a grandeza e o poder de Deus, que ali estavam patenteados, mesmo
porque, obviamente, não poderíamos, a jovem esposa e eu, ter criado aquela
pessoinha a partir do nada. Eu aprenderia mais tarde que o ser humano descobre
coisas, mas não as cria, nem as inventa, e nós, certamente, não havíamos
inventado aquele embrulhinho morno de gente que atentamente me espiava.
Quem seria aquele ser? De onde vinha? O que pretenderia da vida? Como
seria ela? Que papel me caberia, e à sua mãe, na vida que apenas começava? Ou
será que não estava começando e sim continuando?
Eu não sabia. Mas queria muito saber, ter respostas para essas
indagações e muitas outras, de que nem me lembro ou sequer tenham sido
formuladas, mesmo porque, como disse, eu mergulhara em um turbilhão de
inesperadas e insuspeitadas emoções. Estas, contudo, não me suscitavam temores
ou inquietações e sim uma estranha alegria, ao perceber que também eu tinha
condições de participar, com minha modesta contribuição, daquele deslumbrante
espetáculo de renovação da vida.
As dúvidas ficavam para mais tarde. Um dia eu saberia, devo ter pensado.
Por enquanto, havia providências a tomar, neste lado de cá da vida, onde os
seres chegaram há mais tempo e andam, falam, riem e choram. Mas bem que eu
gostaria de ter alguém ali que me dissesse alguma coisa sobre o que estava
acontecendo diante de mim.
Este é, pois, o livro que eu gostaria de ter tido em minhas mãos, não só
naquele distante 22 de agosto, mas antes, quando Ana-Maria era apenas projeto,
bem antes que seu marcador pessoal começasse a registrar o tempo vivido na
Terra.
Algumas das minhas perguntas ainda teriam de esperar um bom punhado de
anos. Outras, creio eu, precisarão de mais alguns séculos, pois nosso Pai Maior
não parece ter grande pressa em explicar-nos aquilo que nós ainda não temos
condições de entender.
O apóstolo Paulo, que sabia das coisas, escrevendo aos seus amigos de
Corinto, disse o seguinte:
— E eu, irmãos, não vos pude falar como a (seres) espirituais senão
como a carnais, crianças em Cristo. Dei-lhes leite a beber e não alimento
sólido porque ainda não o podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque
ainda sois carnais.
Como os coríntios, eu era carnal e acho que nem o leite me fora dado,
porque tudo quanto eu podia ver é que, de alguma forma, havia um pouco de mim
naquele tépido bolinho de gente, à espera de que a tomássemos nos braços e,
depois, pelas mãos, lhe mostrássemos como era nosso mundo. E já sentia, nas
profundezas da memória do futuro, aquele dia em que ela não mais precisasse das
nossas mãos e partisse para viver a sua
vida. Nós sempre tememos um pouquinho.
Não é que falte confiança, é que paira sempre, aí por cima, um vago
temor de que o filhote ainda implume não consiga acertar com os invisíveis
caminhos do céu, que tem de percorrer no voo ainda incerto. Mas isso não
chegava a ser uma tristeza, porque, afinal de contas, a vida era dela e não
nossa, e como eu aprenderia posteriormente, antes de sermos filhos uns dos
outros, somos todos filhos de um só Pai. E Ele tem sido muito competente, pois
sempre deu boa conta de nós.
Não era tristeza; nada disso! Apenas uma saudade antecipada, que me
espreitava das dobras do desconhecido, tal como os olhinhos escuros de
Ana-Maria. Parece que eu via, também, no futuro, umas ruguinhas de preocupação.
Ou seria apenas a exaltada imaginação de um jovem pai de 23 anos, mal saído de
sua própria infância?
Seja como for, de alguma forma misteriosa e inarticulada, pois não tinha
palavras para expressar tudo aquilo, eu confiava em Deus e na menina dos
atentos olhinhos. Como também confiaria em duas outras pessoas que, sem eu saber,
estavam à nossa espera, do outro lado do véu, que àquela altura me ocultava
importantes mistérios da vida. Deus não julgara oportuno revelar-me coisas para
as quais eu ainda não tinha “olhos de ver”. Meus olhos eram apenas de olhar...
Nem Deus, nem meus filhos me decepcionaram, porque muito me ensinaram desde
então; mas às vezes penso que as coisas teriam sido mais fáceis se eu tivesse
lido algo parecido com este livrinho que o leitor tem agora em suas mãos. Só
que, se assim fosse, eu não teria tido a alegria de escrevê-lo e não estaria
hoje tão grato a Deus por ter-me permitido fazê-lo. E a Ana-Maria, Marta e
Gilberto por terem me ensinado muitas das coisas que nele foram colocadas e
que, sem eles, teriam passado despercebidas ao desatento olhar do apressado
viajor.
Livro: Nossos Filhos São Espíritos
Hermínio C. Miranda
Francisco Rebouças