Wallace Leal V. Rodrigues
O momento da criação
O volume que temos à mão não é, exatamente um livro. É
antes, o desenho de produção, em moldes cinematográficos, de ideias de filmes
versando sobre a reencarnação.
É uma tentativa pioneira, tanto no que tange e a comunicação
de massas.
Sua história? . . . Curiosa, quase fantástica.
Através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, o
Espírito de Cornélio Pires nos enviava um material que, aparentemente, não
passava de uma série de quadros sobre a reencarnação.
Examinando-os detidamente, uma grande surpresa se apossou de
nós. Uma luz vermelha se acendeu. Havia algo ali!
Com extrema habilidade e um malabarismo surpreendente de
síntese, Cornélio Pires construíra as quadras de modo que, duas das primeiras
linhas, relacionavam-se à CAUSA; as duas seguintes, ao EFEITO, nos parâmetros
da Lei da Reencarnação.
A elaboração, - como se pode ter uma idEia, - implica um
trabalho intenso por parte do autor espiritual, que desenvolve os seus temas em
143 quadras divididas em nada menos de 24 capítulos variados, todos eles no
esquema palingenésico.
A surpresa não é menor, mesmo sabendo-se que Cornélio Pires,
encarnado, foi um autor de sínteses sumaríssimas. Não foi romancista, não possuía
estrutura de ficcionista.
Era um autor de narrativas curtas. Não obstante, dele não se
pode dizer que tinha imaginação escassa. Pelo contrário! Este volume prova em
seu favor.
Não foi fácil, com quatro sucintas linhas, oferecer,
visualmente, os lances propostos, os flagrantes da AÇÃO, imediatamente seguidos
pelos da REAÇÃO.
Mas, obviamente, era isso que o Espírito propunha.
Ele oferecia, versificada, uma espécie de sinopse do
“script” e, a nós outros, cabia situar os personagens em suas paisagens, dar-lhes
as roupas das épocas ou situações, levantar cenários para o lance a ser
representado, e, finalmente, apropriar os diálogos que seriam trocados através
do recurso já clássico dos “baloons”.
Em cada quadra, necessariamente, os intérpretes deviam ser
vistos duas vezes: na AÇÃO e na REAÇÃO.
Em termos de comunicação de massa, a obra é um achado.
Em cada trova, espécie de telegrama rimado, há, levado à
perfeição, o cuidado na objetividade da mensagem foi comunicada, a tentativa
de, - sem nenhum processo de deformação, - integrá-la ao pensamento e à
necessidade do leitor.
Tido hoje como “o pioneiro do folclore paulista”, denominado
sociólogo e até mesmo antropologista cultural, não possuía, na realidade,
formação universitária.
Leva, contudo, enorme vantagem até mesmo em relação a muitos
vultos do sofisticado folclore da atualidade, donos de vários idiomas e de
vastas estantes especializadas.
Encarnado tinha as virtudes indispensáveis à frequência
íntima com a gente do mato. Entrava nos casebres, pescava, tomava café, jogava
truco, proseava, penetrando sorrateiramente na sociedade caipira, hoje em
decadência, mas esplêndida de vitalidade naqueles dias.
Se fosse um elegante folclorista da atualidade, os caipiras
o receberiam com hostilidade passiva, fechar-se-iam como sensitivas, escondendo
do intruso o seu viver, seus hábitos e costumes.
Cornélio Pires igualava-se a eles. Era o Nhô Cornelo. O
poeta era um notável observador, arguto, dotado de extraordinária memória
verbal e visual, um pintor sem pincel.
Enquanto caçava, dançava e proseava, ia anotando mentalmente
tipos, mímica, canções e desafios, lendas, processos de cultura agrícola,
costumes, festas, tradições, paisagens, superstições, as dores e alegrias dos
João Matoso, das Nha Maricas, dos Zé Bino que emergem, das sua ”Enciclopédia de
Anedotas e Curiosidades”, na obra psicografada.
Isso prova enormemente em favor da psicografia de Francisco
Cândido Xavier.
Por detrás de cada quadra, ilustra ou não, de cada “anedota
palingenésica”, há uma soma de proposições de primeira ordem, visando, ao mesmo
tempo, - com recursos intelectuais e gráficos, - o entretenimento e a educação
do espírito.
Cornélio Pires, mais uma vez, transmite coisas simples e
úteis, visando o bem estar do homem, prevenindo-o contra as adversidades,
anunciando-lhe bons tempos para os empreendimentos.
Encarnado, o que lhe faltava em cultura e sobrava-lhe em
capacidade de ver, desponta agora, pela psicografia de Francisco Cândido
Xavier, propositadamente sem a erudição da Terra, - flecha de curto alcance, -
em naturais advertências, inteligentes e lúcidas.
Desencarnado, o que viu e levou desta crosta, não se
desfigurou. Não tem, como não teve, intenções satíricas ou mordazes; ama tão
profundamente quanto amou .
Compreende tanto quanto compreendeu. Mas o que se
potencializou foi o seu poder de fixação da alma humana em seus tipos,
sobretudo na cultura caipira, só que, no momento, sob o microscópio da
reencarnação.
Já em outras situações, igualmente pela psicografia de
Francisco Cândido Xavier, ele enfrentou temas da sobrevivência humana. Em “O
Espírito de Cornélio Pires”, 1965, edição da FEB, - conforme apreciação do
escritor, Dr. Elias Barbosa, - a sua . . . “tônica principal é o combate à
avareza, descrevendo Cornélio, para tanto, autênticos personagens que poderiam
competir com um Harpagon, de Moliere, ou um Pal Gorlot, de Balzac”.
Não é um filósofo reencarnacionista, - este é um título que
ele recusaria. É o folclorista da reencarnação - sem diploma.
Ainda recentemente, pelo Supremo Literário de “O Estado de
São Paulo”, o escritor Macedo Dantas perguntava: “Esse Cornélio Pires não está
superado? Não era um mero contador de anedotas cuja graça a morte diluiu?”
Cornélio Pires não morreu e sua graça não se diluiu.
Se por folclore entendermos o estudo e conhecimento das
tradições de um povo, expressas nas suas lendas, crenças, canções e costumes,
sendo a reencarnação convicção da maioria dos brasileiros, Cornélio Pires
completa e aglutina, preenchendo uma lacuna.
Sendo assim, esta obra estabelece algo de novo no inédito em
que consiste: a vinculação estreita entre o Espiritismo, o folclore e a
comunicação de massa em nível popular, em um tipo de transmissão de notícias e
expressão de pensamento que, hoje, com muita propriedade, podemos denominar
folk comunicação, definindo-a como “o processo de intercâmbio de informações e
manifestações de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes e
meios ligados direta ou indiretamente ao folclore”.
Acreditamos que a obra, agora editada, graças à técnica
empregada, - cenários inspirados na própria obra de Cornélio, figuras de
almanaque, - possa ser compreendida por olhos que não veem o cinema, por lábios
de que jamais, talvez, chegou ao quarto ao primário, sentidos pelos insensíveis
às linhas e nuanças da arte dos salões e galerias.
As mensagens transmitidas por este processo comunicativo,
singular, poderão produzir os mais decisivos efeitos no animo e no
comportamento da massa, apática às solicitações do jornalismo e da literatura
ortodoxos.
Há, ainda, uma outra preocupação: demolir os terrores que,
em alguns espíritos, desfiguram o processo reencarnativo. Cornélio Pires chega
mesmo, por vezes, ao primor de torná-lo engraçado o pitoresco. Brincando,
desmoraliza o aspecto de castigo, que a tantos aflige, modificando-o em
abençoada alavanca do progresso sem fim do ser humano.
Com relação à alimentação na roça, - nesta obra há inúmeras
citações, por exemplo, quanto à mandioca e à beringela, - na obra de Cornélio
Pires encarnado, a informação é tão rica e surge tão espontânea, que Antônio
Cândido valeu-se do material em “Parceiros do Rio Bonito”, anotando que...
“ele descreve os recursos virtuais do homem rural sem
considerar a sua classe nem as possibilidades, o cardápio compatível com o
momento, a situação financeira, o lugar”.
E a lição da reencarnação estará introjetada na compreensão
filosófica popular.
(Araquara,
1977)
Livro: Coisas deste Mundo
Chico Xavier/Cornélio Pires
Francisco
Rebouças