Jornal Tribuna de Minas, Juiz de Fora/ Minas Gerais, entrevista Divaldo Pereira Franco
Orador espírita fala sobre violência, perdão, céu e inferno.
Orador espírita fala sobre violência, perdão, céu e inferno.
Reconhecido como um dos maiores médiuns e oradores
espíritas da atualidade e o maior divulgador do espiritismo por todo o mundo, o
baiano de Feira de Santana Divaldo Pereira Franco chega aos 87 anos com números
que impressionam: são mais de 13 mil conferências, em cerca de duas mil cidades
brasileiras e em 65 países em 67 anos dedicados à religião que abraçou. Como
médium, publicou 255 livros, com mais de oito milhões de exemplares, muitos
psicografados por 211 autores espirituais e traduzidos para 17 idiomas. A renda
proveniente da venda dos livros e os direitos autorais foram doados a entidades
filantrópicas e mantém a Mansão do Caminho, instituição fundada por ele em
Salvador e que hoje atende a cerca de três mil crianças e adolescentes de
famílias de baixa renda. Aposentado como escriturário no antigo Instituto de
Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (Ipase), em Salvador,
Divaldo tem mais de 600 filhos adotivos e mais de 200 netos e bisnetos. Mesmo
com a idade avançada e após ter vencido um câncer e um infarto, o espírita não
recusa convites para levar o conhecimento da doutrina codificada por Kardec a qualquer
parte do mundo. Religião que, para ele, é ciência e filosofia de vida. No dia 2
de setembro, quando esteve na cidade para mais uma palestra, o orador recebeu a
Tribuna e falou sobre perdão, violência, céu e inferno.
Tribuna – Onde o senhor encontra vitalidade para tantos compromissos?
Divaldo Franco - É a alegria de viver. Quando nós abraçamos uma
doutrina que nos oferece a satisfação da vida, parece que o tempo não comporta
as responsabilidades, os compromissos que abraçamos. O espiritismo é uma ciência
porque demonstra, em laboratório, a sobrevivência da alma, mas é também uma
filosofia de vida. Todos nós temos problemas, conflitos, heranças de
perturbações emocionais, a hereditariedade e os nossos próprios delitos.
Através da filosofia espírita da reencarnação, nós sabemos que tudo isso tem
uma razão de ser. Não existe efeito sem causa. Desde que haja uma causa
inteligente, o efeito será inteligente. Então consideramos a dor não um ato
punitivo, mas um fenômeno normal. O organismo é matéria, degenera, então a dor
é inevitável. O emocional aspira, o ser psicológico deseja e nem sempre
consegue, então tem conflito. O ser psíquico, às vezes, não tem resistência
para enfrentar as vicissitudes e delira. O espiritismo nos ensina não o
conformismo, em que nós cruzamos as mãos e aceitamos, mas uma resignação
dinâmica: ‘Isso está me acontecendo por tal razão. Eu vou lutar para superar’.
Porque tudo que nos acontece é pela permissão de Deus, e Deus nos ama,
realmente. Eu já tive um câncer, uma parada cardíaca, mas nunca me deixei
abater. Graças a isso, sinto uma imensa alegria em viver e tenho ainda a
oportunidade de confortar as pessoas.
- Como não se deixar abater pelas desilusões?
- Quando eu guardo mágoa, ela me faz mais mal do que bem, e quem me
ofendeu não está dando a menor importância. Quando eu perdoo, eu me liberto,
mas quem fez o mal continua devendo às leis divinas. O perdão não é esquecer o
mal que nos fizeram, porque isso é fenômeno da memória. É não devolver o mal
que nos fizeram, ficar em paz. Se alguém não gosta de você, a pessoa é que tem
conflito. Mas na hora em que nós não gostamos, o conflito é nosso. Hoje nós
adotamos a psicologia do perdão. Necessitamos de perdoar muita coisa aos
outros, mas também a nós mesmos. Nós somos muito enérgicos conosco. Qualquer
mal que nós fazemos, às vezes, escamoteamos, procuramos anular. Mas chega o dia
em que ele volta. O que fazer? Dá-se o direito de ser uma criatura humana,
errar e levantar-se.
- O que o espiritismo entende como céu e inferno?
- Como estados de consciência. Na Idade Média, a gente podia compreender
a existência do alto e do baixo. Mas hoje nós sabemos que o infinito não está
nem acima e nem abaixo. Neste momento, poderíamos estar de cabeça para baixo,
em outra posição. Mas, nesta realidade, concebeu-se que o baixo, inferior, era
um lugar de desgraça. Inferno era aquele lugar de irrecuperação, e o alto era a
misericórdia de Deus. Com a visão da física quântica, da cosmofísica, à visão
da psicologia, não podemos conceber um pai que castiga um filho, que é mais
ignorante do que perverso, eternamente, por um crime que às vezes é infantil. O
indivíduo, por exemplo, comete um crime, assassinou o outro em um momento de
fúria. Ele merece uma reeducação, e não uma punição permanente. O estado de consciência
leva-nos à paz ou leva-nos à desgraça. Quando nós temos culpa, quando nós temos
arrependimentos, então nós estamos no inferno. Quando estamos bem com nossa
consciência, estamos no céu. Consideramos que, após a morte do que nós vivemos,
iremos para regiões felizes ou regiões infelizes transitórias. Porque o mundo é
uma associação de energia. O universo é um conjunto de ondas concêntricas e
excêntricas. De acordo com o nosso tonos vibratório, tanto nós podemos ascender
qualitativamente como cair qualitativamente. Taí o mais fascinante: o Papa João
Paulo II, um homem notável, reconheceu que céu e inferno são estados de
consciência, como Allan Kardec o fez.
- Juiz de Fora vive hoje uma situação de violência, onde jovens matam
uns aos outros. O que o espiritismo tem a dizer para as pessoas que perderam
entes queridos para a violência?
- Há uma falência da cultura, que é imediatista. O triunfo é você
derrubar o outro para ocupar o lugar. Felicidade é você ter uma paixão, fluir e
descartar depois a pessoa. O conceito ético e moral sofreu uma mudança
terrível. E hoje o que vale é o individualismo, o consumismo, o erotismo.
Quando o indivíduo se sente frustrado, não tendo resistências morais, apela
para o crime. Seja contra o outro, seja contra o patrimônio, ou contra ele
mesmo, no estado de desamor. É da divindade a proposta de nos amarmos. Amar a
Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se eu não me amo,
eu nunca amarei você. Eu terei um sentimento de paixão, de desejo, mas, na hora
em que eu for contrariado, o amor se transforma em revolta. Não era amor, era
desejo. Mas se eu me amo, se eu me respeito, se eu desejo evoluir intelectual e
moralmente, eu compreendo o quanto é difícil para mim vencer certas tendências
negativas. Então eu dou direito ao outro de também ter essas tendências
negativas. Eu não posso impor o meu sentimento a outrem. Eu posso expor, mas se
eu for rejeitado, muito bem, parto para outra. Dessa maneira, através da
reencarnação, nós podemos mudar esse quadro de violência. A violência do
indivíduo contra si mesmo, contra a sociedade. Quando não pode destruir o
outro, então mata-se, num processo de vingança, para que o outro tenha
conflito. A proposta de Jesus Cristo, como filósofo, pensador, como homem que
mudou a cultura do mundo em todos os tempos, é de autoamar-se para amar e
educar, porque através da educação, nós mudamos hábitos e daremos resistências.
Oferecemos ao indivíduo a esperança de que o que hoje não deu certo é véspera
do que vai ser acertado amanhã. E, para aqueles que ficam no sofrimento ante a
perda, nós dizemos: ‘Não se desespere. Os seres queridos vivem, voltarão e você
terá contato com eles’.
- E como os praticantes acreditam poder ajudar os espíritos que
desencarnam vítimas da violência?
- Através da prece, lembrar com carinho. Todo impacto nos produz um
grande choque emocional, e quando algo de trágico acontece nós ficamos fixados
na tragédia. Um dia, um materialista me disse uma coisa notável: ‘Quando vem um
paciente que perdeu um familiar, eu, como materialista, não tenho nada a dizer.
Então, eu formulei uma frase. Lembre-se de tudo o que você viveu de alegria, de
bom e de felicidade com o seu ente querido. Não se lembre da morte dele,
lembre-se do período de alegria. Nem tudo será para sempre. Ele morreu, mas eu
fui feliz durante um tempo X, e aceite isso.’ Eu achei notável. Porque o que
importa não é ser feliz permanentemente, porque é impossível, chega o momento
em que a felicidade se interrompe. Mas quando nós recordamos coisas boas,
voltamos a vivê-la. ‘Ah, mas terminou em uma tragédia!’ Eu digo: ‘Não.
Interrompeu naquele momento para continuar depois’.
- No livro “Transição planetária”, que o senhor psicografou através do
espírito de Manoel Philomeno de Miranda, o autor diz que a Terra está passando
por uma transformação, deixando de ser um planeta de provas e expiações para
ser transformar em um planeta de regeneração. Ou seja, só reencarnariam na
Terra espíritos que estão a caminho da evolução, que fizeram o bem. Pessoas que
só fizeram o mal na Terra iriam reencarnar em outro planeta, de sofrimento e
dor. Como as pessoas que não são espíritas podem entender essa situação?
- É o que pregam todas as doutrinas cristãs. A grande guerra do
Armageddon, a batalha final. O Armageddon é uma região chamada Vale de Jericó,
em Israel. Todas as batalhas se travavam ali, porque é uma passagem estreita.
Hoje, com as armas inteligentes, não há guerra local. A guerra pode ser aqui,
mas o navio pode estar do outro lado do Atlântico e mandar o míssil teleguiado
de cinco mil quilômetros, e ele atinge esse hotel. É uma arma inteligente. O
Armageddon é nosso estado de conflito. Nós vivemos numa sociedade conflitiva,
as pessoas não se amam, se armam. Ao invés de amar umas às outras, armam-se
umas contras as outras, um verdadeiro caos. Mas, concomitantemente, nunca houve
tanta bondade no mundo. Estamos vendo a tragédia no Afeganistão, do Iraque,
dessa intolerância do radicalismo, degolando pessoas, é trágico. Mas quantos
milhares de pessoas boas. Evocamos madre Teresa de Calcutá, Chico Xavier,
pessoas anônimas, pais e mães generosos, abnegados por filhos ingratos e
perversos. Cientistas notáveis, como os médicos sem fronteiras, contaminado-se
pelo Ebola para salvar a humanidade. Outros, em laboratórios, tentando
encontrar antivírus para a Aids, Ebola, infecções degenerativas. Creia que há
muito mais gente boa do que má. Sucede que as pessoas perversas fazem muita
zoada, e as pessoas boas são discretas, então passam desapercebidas. Está
havendo uma mudança de conceito. Já nem todos estão satisfeitos, almejam um
mundo melhor no qual não haverá dor, porque não haverá má conduta, não haverá
essas enfermidades degenerativas porque já não necessitaremos sofrer. Teremos o
amor como nosso norte.
Abraço - Jorge Moehlecke
(Recebido
em email de Jorge Moehlecke)
http://www.tribunademinas.com.br/tribuna-entrevista-divaldo-pereira-franco/
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Francisco Rebouças