Independentemente
de qualquer posição pessoal, crença ou convicção, a figura de comunicação de
Francisco Cândido Xavier percorre décadas da vida brasileira operando um fenômeno
(refiro-me à comunicação terrena mesmo) de validade única, peculiar, originalíssima.
Não vou, portanto, por falta de autoridade para tal, analisa-lo do ângulo religioso
e, sim, as relações de sua figura de comunicação com o público.
Com todos os
significantes necessários a já ter desaparecido ou ter-se isolado como um fenômeno
passageiro, a figura de comunicação de Francisco Cândido Xavier, no entanto, ganha
um significado profundo, duradouro, acima e além de paixões religiosas,
doutrinas cientificas ou interpretações metafísicas.
A inexistência
de um tipo físico favorecedor, funciona como outro curioso paradoxo a emergir
da figura de comunicação de Chico Xavier.
Aquele homem de
fala mansa, peruca, acentuado estrabismo, pessoa de humildade e tolerância, não
configura o tipo físico idealizado do líder religioso, do chefe de seita, do místico
impressionante.
A clássica barba
dos místicos, ou a cabeleira descuidada, ou o olhar penetrante e agudo dos
líderes, inexistem no visual de Chico Xavier.
Acrescente-se a
inexistência, em seu modo de vestir, de qualquer originalidade ou definição de
estilo próprio, ainda que contestador dos estilos formais e burgueses.
Não tem,
portanto, Chico Xavier, nos aspectos externos e formais de sua figura de comunicação,
nenhum dos elementos habitualmente consagrados como funcionais, ou impressionantes
dos aspectos externos do grande público, elementos de comunicação incorporados
consciente ou inconscientemente por figuras importantes nas religiões.
Até a figura do
Papa, líder de uma comunidade religiosa, é envolta em pompa e festa, estratégia
visual destinada à maior pregnância de sua mensagem e à definição de sua
posição como símbolo.
Nem mesmo a mais
decidida modéstia e humildade pessoal de vários papas são suficientes para que
a figura papal se desvista da pompa e simbologia relativas ao reinado que
representa.
Até nas
religiões orientais, menos pomposas, as figuras líderes são cercadas da visão carismática
do líder.
Francisco
Cândido Xavier, porém, representa uma espécie de antítese vitoriosa da figura
carismática.
Não tem, do
ponto de vista externo ou visual, nenhum elemento característico.
Até ao
contrário.
Pessoalmente, é
anticarisma.
Funciona como
símbolo de negação de qualquer pompa ou formalidade, um retorno talvez à pureza
primitiva dos movimentos religiosos.
E, no entanto,
emerge da figura dele uma das mais poderosas forças de identificação da vida
brasileira.
Ele é uma
espécie de líder desvalido dos desvalidos, dos carentes, dos sofredores, dos não
onipotentes, dos despretensiosos, dos modestos, dos dispostos a perder para
ganhar.
Curiosamente,
tal posição é conquistada naturalmente e sem qualquer traço político direto de
tomada de posição ao lado dos fracos, num século em que a revolução social aparece
como a tônica e como a grande aglutinadora dos movimentos humanos, inclusive os
religiosos.
Sem qualquer
formulação política, sem qualquer mensagem diretamente relacionada com a
exploração do homem, sem qualquer revolta direta e institucionalizada contra a miséria
ou a injustiça, Francisco Cândido Xavier emerge com a força do perdão, da tolerância,
da fraternidade real, da fraqueza forte da fé, da humildade e do despojamento erigidos
como regra de vida, como trabalho efetivo da caridade; da não violência em qualquer
de suas manifestações, mesmo as disfarçadas em poder, glória, sincretismo, hermetismo,
iniciação, poder temporal ou promessa de Vida Eterna.
A figura de
comunicação de Francisco Cândido Xavier emerge, portanto, de uma relação profunda
e misteriosa com um certo modo de sentir do homem brasileiro, relação esta
ainda insuficientemente estudada ou conhecida até mesmo pelos que a vivem, comandam
ou exercem.
Até mesmo para
ele, Francisco, deve haver muita coisa envolta em mistério, um mistério que os
seguidores dele tenta definir e enche-se de explicações científicas,
religiosas, ou religiosizantes, psicólogas, parapsicológicas ou
parapsicologizantes.
Para tal
contribui, além do aspecto misterioso da psicografia e da relação com os que morreram,
a igualmente misteriosa aura de paz e pacificação que domina os que com ele se relacionam
pessoalmente ou via meios de comunicação, na relação cuidada e cautelosa,
equilibrada e pouco frequente por ele mantida com a Televisão, na qual aparece
muito pouco, uma vez por ano no máximo e sempre para grandes públicos.
Além da aura de
paz e pacificação que parte dele, há outro elemento poderoso a explicar o
fascínio e a durabilidade da impressionante figura de comunicação de Francisco Cândido
Xavier: a grande seriedade pessoal do médium, a dedicação integral de sua vida
aos que sofrem e o desinteresse material absoluto.
A canalização de
todo o dinheiro levantado em direitos autorais para as variadíssimas atividades
assistenciais espíritas dá ao Chico Xavier uma autoridade moral – tanto maior porque
não reivindicada por ele – que o coloca entre os grandes líderes religiosos do
nosso tempo.
Quem se
aproximar da atividade real de assistência material e espiritual da comunidade espiritualista
brasileira, verificará que ela é íntegra e heróica, tal e qual o que há e
sempre houve de melhor em assistência de religiões como a Católica e
Protestante (entre nós), prodígios de dedicação, silêncio e humildade que
justificam as vidas dos que dela participam.
SÍNTESE FINAL:
A integridade
pessoal;
A íntima relação
de seus seguidores;
A ausência
completa de significantes externos;
O contato com o
mistério;
A ausência de
qualquer forma de violência em sua figura e pregação;
A nenhuma
subordinação a hierarquias aprisionantes;
A discrição
pessoal;
A nenhuma
procura de poder político, temporal ou econômico para o desempenho da própria
missão;
As forças
originais da organização interna do seu movimento, sem personalismos ou autoritarismos
– tudo isso geral uma figura de comunicação de alta força, mistério, empatia e grandeza
moral, principalmente se considerarmos que enfrentou e ultrapassou tempos diferentes
do atual (no qual o ecumenismo felizmente impôs-se).
Antes,
manifestações como as dele eram removidas como bruxaria ou perigosas, ou bárbaras
ou alucinantes quaisquer manifestações místico-religiosas diferentes ou
discrepantes da religião da classe dominante.
(O Globo,
26.05.1980 – Transcrito do Jornal “Lavoura e Comércio” de Uberaba, Minas, do
dia 04 de junho de 1980).
Livro: Novo Mundo
Chico Xavier/Emmanuel
Francisco Rebouças