Um velho
koan Zen-Budista narra que um homem
muito avarento recebeu, oportunamente, a visita de um mestre.
O sábio,
depois de saudá-lo, perguntou-lhe: — Se eu fechar a minha mão para sempre, não
a abrindo nunca, como te parecerá?
O avaro
respondeu-lhe sem titubear: — Deformada.
Muito
bem, prosseguiu o interlocutor: — E se eu a abrir para sempre, como a verás?
—
Igualmente deformada — redarguiu, o anfitrião.
O homem
nobre concluiu, informando-o: — Se entenderes isso, serás um rico feliz.
Depois
que se foi, o anfitrião começou a meditar e, a partir daí, passou a repartir
com os necessitados, aquilo que lhe parecia excedente, tornando-se generoso.
Todos os
opostos, afirma o antigo koan, bem
e mal, ter e não ter, ganhar e perder, eu e os outros, dividem a mente. Quando
são aceitos, afastam as pessoas da mente original, sucumbindo ao dualismo.
A
sabedoria, concluiu a narração sintética, está no meio, no Zen, que é o
caminho.
A
dualidade sempre esteve presente no ser humano, desde o momento em que ele
começou a pensar, desenvolvendo a capacidade de discernir. Os opostos têm-lhe
constituído desafios para a consciência, que deve eleger o que lhe é melhor, em
detrimento daquilo que lhe é pernicioso, perturbador, gerador de conflitos.
Não
poucas vezes, por imaturidade, toma decisões compulsivas e derrapa em estados de
perturbação, demarcando fronteiras e evitando atravessá-las, assim
perdendo contato
com as possibilidades existentes em ambos os lados, que podem auxiliar na
definição de rumos. Essa definição, no entanto, não pode ser cerceadora das
vivências educativas, produtoras. Devem caracterizar-se pela eleição natural
do roteiro a seguir, de maneira que nenhuma forma de tormento pelo não experimentado
passe a gerar frustração.
A
experiência ensina a conquistar os valores legítimos, aqueles que propiciam a
evolução, facultando, na análise dos contrários, a opção pelo que constitui
estímulo ao crescimento, sem que gere danos para o próprio indivíduo, para o
meio onde se encontra, para outrem. Somente assim, é possível a aquisição do
comportamento ideal, propiciador de paz, porque não traz, no seu bojo,
qualquer proposta conflitiva.
Do ponto
de vista ético, definem os dicionaristas, o bem é a qualidade atribuída a ações
e a obras humanas que lhes confere um caráter moral. (Esta qualidade se
anuncia através de fatores subjetivos — o sentimento de aprovação, o
sentimento de dever — que levam à busca e à definição de um fundamento que os
possa explicar.)
O mal é
tudo aquilo que se apresenta negativo e de feição perniciosa, que deixa marcas
perturbadoras e afugentes.
Na sua
origem, o ser não possui a consciência do bem nem do mal. Vivendo sob a
injunção do instinto, é levado a preservar a sobrevivência, a reprodução, atuando
por automatismos, que irão abrindo-lhe espaços para os diferenciados patamares
do conhecimento, do pensamento, da faculdade de discernir.
A seleção
do que deve em relação ao que não deve realizar dá-se mediante a sensação da
dor física, depois emocional, mais tarde de caráter moral, ascendendo na escala
dos valores éticos. Percebe que nem tudo quanto lhe é lícito executar, pode
fazê-lo, assim realizando o que lhe é de melhor, no sentido de descobrir os
resultados, porquanto aquilo que lhe é facultado, não poucas vezes fere os
direitos do próximo, da vida em si mesma, quanto da sua realidade espiritual.
Essa
percepção torna-se a presença da capacidade de eleger o bem em detrimento do
mal. Faz-se a realidade livre da sombra; o avanço psicológico sem trauma, a
ausência de retentivas na retaguarda.
Embora
haja o bem social, o de natureza legal, aquele que muda de conceito conforme os
valores éticos estabelecidos geográfica ou genericamente, paira, soberano, o
Bem transcendental, que o tempo não altera, as situações políticas não
modificam, as circunstâncias não confundem. É aquele que está inscrito na
consciência de todos os seres pensantes que, não obstante, muitas vezes,
anestesiem-no, permanece e se impõe oportunamente, convidando o infrator à
recomposição do equilíbrio, ao refazimento da ação.
O mal,
remanescente dos instintos agressivos, predomina enquanto a razão deles não se
liberta, sob a dominação arbitrária do ego, que elabora interesses hedonistas,
pessoais, impondo-se em detrimento de todas as demais pessoas e circunstâncias.
O seu
ferrete é tão especial que, à medida que fere quantos se lhe acercam, termina
por dilacerar aquele que se lhe entrega ao domínio, tombando, exaurido, pelo
caminho do seu falso triunfo.
O ser
humano foi criado à imagem de Deus, isto é, fadado à perfeição, superando os
impositivos do trânsito evolutivo, nessa marcha inexorável a que se encontra
compelido.
Possuindo
os atributos da beleza, da harmonia, da felicidade, do amor, deve romper, a
pouco e pouco, a casca que o envolve — herança do período primário por onde tem
que passar — a fim de desenvolver as aptidões adormecidas, que lhe servem
temporariamente de obstáculo a esses tesouros imarcescíveis.
O Bem
pode ser personificado no amor, enquanto o mal pode ser apresentado como
sendo-lhe a ausência.
Tudo
aquilo que promove e eleva o ser, aumentando-lhe a capacidade de viver em
harmonia com a vida, prolongá-la, torná-la edificante, é expressão do Bem.
Entretanto, tudo quanto conspira contra a sua elevação, o seu crescimento e os
valores éticos já logrados pela Humanidade, é o mal.
O mal,
todavia, é de duração efêmera, porque resultado de uma etapa do processo
evolutivo, enquanto o Bem é a fatalidade última reservada a todos os indivíduos,
que se não poderão furtar desse destino, mesmo quando o posterguem por algum
tempo, jamais o conseguindo definitivamente.
Eis
porque o ser tem a tendência inevitável de buscar o amor, de entregar-se-lhe,
de fruí-lo.
Encarcerado
no egoísmo e acostumado às buscas externas, recorre aos expedientes do prazer
pessoal, em vãs tentativas de desfrutar as benesses que dele decorrem, tombando
na exaustão dos sentidos ou na frustração dos engodos que se permite.
Oportunamente
um aprendiz indagou ao seu mestre: — Dize-nos o que é o amor.
— E o
sábio, após ligeira reflexão, redarguiu com um sorriso:
— Nós
somos o amor.
Esse sentimento
que temos todos os seres viventes expressa o Supremo Bem, que nos cumpre
buscar, embora estejamos na faixa da libertação da ignorância, errando, ainda
praticando o mal temporário por falta da experiência evolutiva, que nos junge
às sensações, em detrimento das emoções superiores que alcançaremos.
Há uma
tendência para a experiência do Bem, face à paz e à beleza interior que se
experimenta, constituindo-se um grande desafio ao pensamento psicológico
estabelecer realmente o que é de melhor para o ser humano, graças aos
impositivos dos instintos que prometem gozo, enquanto que a sua libertação, às
vezes, dolorosa, em catarse de lágrimas, proporciona em plenitude.
A terapia
do Bem — essa eleição dos valores éticos que propiciam paz de consciência —
constitui proposta excelente para a área da saúde emocional e psíquica,
consequentemente, também física dos seres humanos, que não deve ser
desconsiderada.
A medida
que se amplia o desenvolvimento psicológico, seu amadurecimento, são
eliminadas as distâncias entre o eu e os outros, superando o mal pelo bem
natural, suas ações de fraternidade e de compreensão dos diferentes níveis de
transição moral, compreendendo-se que o mal que a muitos aflige, por eles
mesmos buscado, transforma-se na sua lição de vida.
Eis
porque é necessária a terapia da realização edificante, produzindo sempre em
favor de si mesmo, do próximo e do meio ambiente, evitando qualquer tenta
tiva de
destruição, de perturbação, de desequilíbrio.
Por isso,
não realizar o bem é fazer-se a si mesmo um grande mal. Dificultar-se a
ascensão, é forma de comprazer-se na vulgaridade, na desdita, assumindo um
comportamento masoquista, no qual se sente valorizado.
Certamente,
nem todos os indivíduos conseguem de imediato uma mudança de conduta mental,
portanto, emocional, da patologia em que se encarcera, para viver a liberdade
de ser feliz. Isso exige um esforço hercúleo que, normalmente, o paciente não
envida. Acredita que a simples assistência psicológica irá resolver-lhe os
estados interiores que o agradam, quase que a passo de mágica, transferindo
para o psicoterapeuta a tarefa que lhe compete desenvolver.
Para esse
cometimento, o do reequilíbrio, a assistência especializada é indispensável,
somada à contribuição de um grupo de apoio e ao interesse dele próprio para
conseguir a meta a que se propõe.
A
religião bem orientada, pelo conteúdo psicológico de que se reveste,
desempenha um papel de alta relevância em favor do equilíbrio de cada pessoa
e, por extensão, do conjunto social, no qual se encontra localizada.
A
religião que se fundamenta, no entanto, na conduta científica de comprovação
dos seus ensinamentos, que documenta a realidade do Espírito imortal e a sua
transitoriedade nos acontecimentos do corpo, como é o caso do Espiritismo,
melhores condições possui para auxiliá-la na escolha do caminho a trilhar com
os próprios pés, propondo-lhe renovação interior e adesão natural aos
princípios que promovem a vida, que a dignificam, portanto, que representam o
Bem.
Por outro
lado, proporciona-lhe uma conduta responsável, esclarecendo-a que cada qual é
responsável pelos atos que executa, sendo semeadora e colhedora de resultados,
cabendo-lhe sempre enfrentar os desafios de superar-se, porque toda conquista
valiosa é resultado do esforço daquele que a consegue. Nada existe que não
haja sido resultado de laborioso esforço.
Ainda
mais, faculta-lhe o entendimento de como funcionam as Leis da Vida, em cuja
vigência todos os seres somos participantes, sem exceção, cada qual respondendo
de acordo com o seu nível de consciência, o seu grau de pensamento, as suas
intenções intelecto-morais.
Abre,
ademais, um elenco de novas informações que a capacitam para a luta em prol da
saúde, explicando-lhe que existe um intercâmbio mental e espiritual entre as
criaturas que habitam os dois planos do mundo: o espiritual ou da energia
pensante e o físico ou da condensação material.
A morte
do corpo, não extinguindo o ser, apenas altera-lhe a compleição molecular,
mantendo-lhe, não obstante, os valores intrínsecos à sua individualidade, o que
faculta, muitas vezes, o intercâmbio psíquico.
Quando se
trata de alguém cuja existência foi pautada em ações elevadas, a influência é
agradável, rica de saúde e de harmonia. Quando, porém, foi negativa, inquieta
ou doentia, perturbada ou insatisfeita, transmite desarmonia, enfermidades,
depressões e alucinações cruéis, que passam a constituir psicopatologias de
classificação muito complexa, na área das obsessões espirituais e de libertação
demorada, que exigem muito esforço e tenacidade nos propósitos em favor da recuperação
da saúde.
O Bem,
portanto, é o grande antídoto a esse mal, como o é também para quaisquer outros
estados perturbadores e traumáticos da personalidade humana.
Outrossim,
a experiência do Bem se dará plena após o trânsito pelas ocorrências do Mal, os
insucessos, as perturbações, as reações emocionais conflitivas, que facultam o
natural selecionar dos comportamentos agradáveis, tranquilos, que validam o
esforço de haver-se optado pelo que é saudável. Caso contrário, a aquisição
positiva não se faz total, porque será mais o resultado de repressão aos
instintos do que superação deles, graças ao que se pode adquirir virtudes —
sentimentos bons, conquistas do Bem —, no entanto, perder-se a integridade, a
naturalidade do processo de elevação. A pessoa torna-se frustrada por não haver
enfrentado as lutas convencionais, evitando-as, ocasionando um sentimento de
culpa, que é, por sua vez, uma oposição à proposta encetada para a vida
correta.
A experiência
do Bem e do Mal começa na infância diante das atitudes dos pais e dos demais
familiares. Por temor a criança obedece, porém, não compreende o que é certo e
aquilo que é errado, que lhe querem incutir os genitores, muitas vezes por
imposição sem o esclarecimento correspondente para a análise lenta e
à assimilação da razão.
Se a
criança não consegue entender aquilo que lhe é ministrado e exigido, passa a
aceitar a informação por medo de punição, até o momento em que se liberta da
imposição, transformando o sentimento em culpa, e temendo reagir pelo ódio ou
pelo ressentimento, ou, noutras situações, reprimindo-se, tomba na depressão. O
inconsciente, utilizando-se do mecanismo de preservação do ego, resolve
aceitar o que foi ministrado, passando a insuflar
a conduta reta, no entanto, em forma de máscara que oculta a realidade
reprimida.
A
conquista paulatina do Bem produz equilíbrio e segurança, eliminando as
armadilhas do ego, que mais tem interesse em promover-se do que em ser
substituído pelo valor novo, inabitual no seu comportamento.
Por isso
mesmo, o Bem não pode ser repressor, o que é mal, porém, libertador de tudo
quanto submete, se impõe, aflige. A sua dominação é suave, não constritora,
porque passa a ser uma diferente expressão de conduta moral e emocional, dando
prosseguimento à assimilação dos valores que foram propostos no período
infantil, e que constituem reminiscências agradáveis que ajudam nos
procedimentos dos diferentes períodos existenciais, na juventude, na idade
adulta, na velhice.
Em razão
disso, torna-se mais difícil a assimilação e incorporação dos valores do Bem em
um adulto aclimatado à agressão, às lutas, nas quais predominou o Mal, houve a
sua vitória, os resultados prazerosos do ego, a vitalização dos comportamentos
esmagadores, que geraram heróis e poderosos, mas que não escaparam das áreas
dos conflitos por onde continuam transitando.
Somente
através da renovação de valores desde cedo é que o Bem triunfará nas criaturas.
Quando
adultas, o labor é mais demorado, porque terá que substituir as constrições do
ego e, através da reflexão, dos exercícios de meditação e avaliação da conduta,
substituir os hábitos enraizados por novos comportamentos compensadores para o
eu superior.
Eis porque se pode afirmar que o Bem faz muito bem,
enquanto que o Mal faz muito mal. A simples mudança, portanto, de atitude
mental do indivíduo enseja-lhe o encontro com o Bem que irá desenvolver-lhe os
sentimentos profundos da sua semelhança com Deus.
Livro: Amor, Imbatível Amor
Divaldo Franco/Joanna de Ângelis
Francisco Rebouças