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quarta-feira, 19 de março de 2014

HEDONISMO

      O conceito de hedonismo tem-se desdobrado em variantes através dos séculos. Criado, originariamente para facultar o processo filosófico da busca do prazer, hoje apresenta-se, do ponto de vista psiquiátrico como sendo uma expressão psicopatológica, por significar apenas o gozo físico, abrasador, incessante, finalidade única da existência humana, essencialmente egotista.

Tal conceito surgiu com o discípulo de Sócrates, Aristipo de Cirene, por volta do século 5º antes de  Cristo e foi con­solidado por seus seguidores.

A finalidade única reservada ao ser humano, sob a óptica hedonista, era o prazer individual.

Na atualidade, consideram-se duas vertentes no hedonismo: a primeira, denominada psicológica ou antiga, que tem como meta o prazer como sendo o últi­mo fim, constituindo uma realidade psicológica positi­va, gratificante, e a ética ou moderna, que elucida, não procurarem as criaturas atuais sempre e somente o pra­zer pessoal, mas que se devem dedicar a encontrar e conseguir aquele que é o prazer maior para si mesmas e para a humanidade.

A tendência do ser humano, todavia, é a busca do que agrada de imediato, em razão do atavismo rema­nescente da posse, da dominação sobre o espécime mais fraco, que se lhe submete servilmente, proporcionando o gozo da falsa superioridade.

Nesse comportamento, a libido predomina, esta­belecendo a meta próxima, que se converte na auto realização pelo atendimento ao desejo.

O desejo é fator de tormento, porquanto se mani­festa com predominância de interesse, substituindo to­dos os demais valores, como sendo primacial, após o que, atendido, abre perspectivas a novos anseios.

Nesse capítulo, o desejo de natureza lasciva, forte­mente vinculado ao sexo, atormenta, dando surgimen­to a patologias várias, que necessitam assistência tera­pêutica especializada.

Noutras vezes, as frustrações interiores impõem alteração de conduta, dando origem ao desejo do po­der, da glória, da conquista de valores amoedados, na vã ilusão de que essas aquisições realizam o seu pos­suidor. A realidade, no entanto, surge, mais decepcio­nante, o que produz, às vezes, estados depressivos ou de violência, que irrompem sutilmente ou voluptuo­sos.

São algumas dessas ocorrências psicológicas que dão surgimento aos ditadores, aos dominadores arbi­trários de pessoas e de grupos humanos, aos crimino­sos hediondos, aos perseguidores implacáveis, a ex­pressivo número de infelicitadores dos outros, porque infelizes eles próprios. No íntimo, subconscientemen­te, está a busca hedonista, impositiva, egóica, sem ne­nhuma abertura para o conjunto social, para a comuni­dade ou para si mesmo através das expressões de afeto e de doação, de carinho e bondade, que são valores de alto conteúdo terapêutico.

O hedonista vê-se apenas a si mesmo, aturdindo-se na insatisfação que acompanha o prazer, porquanto jamais se torna pleno. A ânsia do prazer é tão incontro­lável quão intérmina. Conseguido um, outro surge, numa sucessão desenfreada.

Quando a consciência do dever estabelece os para­digmas da auto conquista, o prazer se transfere de sig­nificado, adquirindo outro sentido, que é de legitimidade para a harmonia do ser psicológico, exteriorizan­do-se em serviço, elevação interior, realizações perenes. Arrebenta as amarras do ego e abre as asas para o ser profundo poder expandir-se, voando em direção do Infinito.

O prazer de ajudar transforma o indivíduo em um ser progressista, idealista, que se realiza mediante a construção da felicidade em outrem, sem qualquer for­ma de fuga da sua própria realidade.

Nessa fase experimental da saída do ego e de sua superação, novos prazeres passam a ocupar os estados emocionais: a visão das paisagens irisadas de Sol e ri­cas de beleza, o encantamento que o mundo oferece, a alegria de estar vivo, o sentido de utilidade que experi­menta, a empatia que decorre dos valores que vão sen­do descobertos, contribuindo para o auto encontro, para o significado existencial.

A busca do prazer, portanto, é parte essencial dos desafios psicológicos existenciais, desde que seja dire­cionada para aqueles que propõem libertação, conquista de paz, realização interior.
O altruísmo é o antídoto, a terapia mais valiosa para a superação do estágio hedonista da evolução do ser.


Livro: Amor, Imbatível Amor
Divaldo franco/Joanna de Ângelis


Francisco Rebouças